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quarta-feira, 18 de abril de 2018

Manifesto dos covardes

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A caminhada é longa e árdua
Sim, eu sei
Mas isso é tão clichê e traz mágoa
Saber que o destino é rei

Mas e o que é destino?
É o que não sabemos que vai acontecer
Nunca sei e desatino
A tentar me convencer

Que a dor vai me deixar mais forte
E lá na frente terei sorte
E poderei viver em paz
Sozinha ou com algum rapaz

Viajando pelo mundo ou por aqui
A caminhada é árdua e longa
Sei que Deus vai me trair
Ele me deixa viver e minha dor prolonga

Eu nem sei se aguento mais
Caminhar tanto para nada
Meus pés doem, cansaços carnais
Mas também na alma que não se resguarda

É tudo tão difícil e pesado
Traz lágrimas de travesseiro
Daquelas trancadas com cadeado
Que ninguém revela, um berreiro

Você precisa controlar seus sentimentos
Parar com todos esses lamentos
Deus sabe o que constrói
Não é só em você que dói

Tenha coragem!
E continue a caminhada
Não ande pela margem
Enfrente a estrada

É isso que corajosos fazem
Lutam e são fortes
Não ficam inventando viagem
Nem procurando e querendo sorte!


Rafaela Valverde

quinta-feira, 5 de abril de 2018

A felicidade está nas pequenas coisas

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Como escreveu Lispector no conto A imitação da rosa, presente no livro Laços de Família : "Como era rica a vida comum [...]" a vida comum, o dia a dia, o cotidiano são lindos. A gente precisa treinar nosso olhar para observar as pequenas sutilezas da vida e chegar a concordar com Lispector. Já escrevi sobre esse assunto várias vezes aqui. Mas cheguei a conclusão que sempre vou escrever sobre o tema. É um tema que eu penso muito. A beleza dos pequenos momentos da vida não saem da minha cabeça. Há todo momento paro para contemplar um céu azul ou um passarinho quicando ou até mesmo brincar com um cachorro de rua... Nós somos muito arrogantes, nossa alma quer grandeza o tempo inteiro. Desejamos e apreciamos momentos grandiosos a todo momento. Queremos cenas finais de filmes e novelas para sermos felizes sem ao menos nos dar conta que a felicidade está nos pequenas coisas da vida, bem na nossa frente. Isso acaba se transformando em uma grande perda de tempo, porque perdemos pequenas boas ocasiões e acontecimentos para buscar grandes fatos , guinadas e realizações. Claro que coisas boas e grandiosas volta e meia acontecem na vida, mas não é sempre. Na maioria das vezes a felicidade passa por nós enquanto estamos cegos procurando outra coisa. Procurando um afortunamento constante, ideal e gigante. Muitas vezes, o simples fato de a chuva passar quando estamos para sair, achar dinheiro no bolso da calça, ou não pegar muita fila no banco já são motivos para abrir um sorriso, agradecer e simplesmente aproveitar a sensação de ter coisas boas acontecendo, mesmo que seja por dois ou três minutos já valem a pena. Aliás, essas pequenas coisas já devem liberar aquelas substâncias responsáveis pelo prazer e satisfação que tanto gostamos e precisamos. Então, por que não olhar o mundo a nossa volta? Por que não considerar pequenas coisas como partes da felicidade? O simples fato de ser livre para mim, já um grande fator de felicidade. Eu adoro a sensação de ouvir música, ler um livro e ter a possibilidade de fazer isso todos os dias me causa muita alegria. Eu sou feliz e grata. Eu vejo a felicidade em pequenas realizações. A felicidade está no fato de eu estar escrevendo aqui nesse momento. Só de ter tempo para sentar e escrever já é maravilhoso. Gratidão!



Rafaela Valverde

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Cansada



Eu não sei o que é descanso. Já comecei o ano cansada e acordo quase todos os dias cansada. Se deito cedo, acordo no final da madrugada e não consigo mais dormir. Se deito tarde, acordo arrasada, privada de sono. Em ambos os casos o dia seguinte é bem ruim. E ainda tem o tal do "rolar na cama" a madrugada inteira. Sonhos estranhos e mais cansaço. Minha vida tem se resumido a isso: cansaço. Mesmo que eu não faça nada ou quase nada que me canse fisicamente, a mente não para. São 2:40 da manhã, eu estou acordada, no celular, totalmente desperta. Ouço barulhos inexistentes, chiados de rato, o que me dá pavor. Me sinto amedrontada e cansada. Mais uma vez essa palavra. Cansada mesmo. Frustrada. Choro. Por que não posso ser uma pessoa que deita e dorme? Conheço várias. Mas não, eu tenho que ficar com insônia na cama por horas e horas. De onde vem essa insônia que me persegue desde a tenra idade? Será que vem da ansiedade ou a ansiedade me atinge por causa da insônia? Elas são irmãs? Parentes? Eu sinceramente não aguento mais. Estou cansada. Ando cansada. Sou cansada. Pra quem está de fora é difícil perceber o tamanho do meu sofrimento por não conseguir fazer plenamente o que todo ser humano faz e tem direito de fazer. Dormir é também uma necessidade fisiológica. E eu preciso dela. Naturalmente. Sem mecanismos. Eu não quero ter que cansar meu corpo ao extremo, nem tomar chás e calmantes para conseguir dormir e ter uma noite em paz. Eu estou cansada de lutar contra meus próprios pensamentos que não deixam meu corpo descansar. Eu não sei o significado da palavra descanso. Eu só sei o que passo na cama tentando dormir. Deve ser esse lugar. Eu odeio esse lugar. A energia daqui é carregada. Odeio esse bairro, essa rua, essa casa, esse quarto, essa cama de solteiro barata e quebrada. Eu estou cansada desse lugar. Cansada de tudo. Maria cansada. Eu preciso descansar.




Rafaela Valverde

domingo, 1 de abril de 2018

Mas há a vida - Clarice Lispector

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Mas há a vida
que é para ser
intensamente vivida,
há o amor.
Que tem que ser vivido
até a última gota.
Sem nenhum medo.
Não mata.









Rafaela Valverde

domingo, 18 de março de 2018

Deixem minha bagunça em paz

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Odeio que entrem na minha privacidade. Odeio que invadam minha intimidade. Há um lugar no mundo que é só meu. Um lugar físico e subjetivo que meu corpo ocupa que não é mais ocupado por ninguém. Mas, algumas pessoas não respeitam isso. O simples espaço do outro é invadido. Seu quarto, que é seu por um motivo. Seu espaço, seu lugar mais íntimo no mundo passa a ser invadido por pessoas e questões que bagunçam a sua bagunça e eu não mais consigo me encontrar e encontrar tudo da forma que eu deixei.

No início da semana passada isso aconteceu. Invasão em meu quarto e invasão em mim mesma.  Parece que algo dentro da gente se sente invadido, mexido quando mexem em nossas coisas, especialmente eu que sou taurina. Sim, eu acredito em signos; sim, eu posso estar sendo dramática e sem, tudo o que eu escrevo vira literatura, mesmo que seja apenas um texto-manifesto para reclamar que mexeram em minhas coisas.

Sinto vontade de matar quem mexe em minhas coisas e desestrutura o que eu estruturei. E sinto vontade de escrever também. Impressionante como quero escrever nos momentos bons e ruins da vida, incrível como preciso escrever para expurgar o que estou sentindo, seja bom ou ruim. A raiva é um dos sentimentos que mais devem ser expulsos do nosso corpo porque ela, entre outras coisas nos faz mal. E eu sinto vontade de escrever quando estou com raiva e fico com raiva quando mexem em minhas coisas,em meus sentimentos,  em minha vida, em minha rotina. Por favor não façam isso. Deixem minha bagunça em paz!



Rafaela Valverde

quarta-feira, 14 de março de 2018

Lixo nosso de cada dia

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Já parou pra pensar quanto lixo a gente gera por dia? Já observou isso? Da hora que acordo até a hora que vou dormir quanto dejeto eu descarto no planeta? Não? Nunca pensou? Eu, às vezes, contabilizo mentalmente o lixo que vou gerando ao longo do dia. Papel higiênico, papéis de bala, embalagens de biscoito, caixa de suco, guardanapo, pacote de leite e café... É muita coisa. É muito entulho gerado pelo ser humano há anos, especialmente desde o surgimento do plástico...

Me pego pensando às vezes se só eu penso nisso. Tenho a impressão que ninguém se importa. Agora,vocês imagem, com a quantidade de pessoas que temos no planeta e cada vez nascem mais e mesmo aquelas que morrem os lixos gerados por elas levam anos para se decompor. Imaginem o que está virando nossa esfera, nosso habitat.

O que vamos fazer com tanto lixo? A reciclagem não é suficiente ainda para tanto lixo que geramos diariamente. Muitas vezes nem pensamos nisso. Cada pequena embalagem que é gerada a partir de uma bala ou um picolé que compramos na rua. Cada entulho, por menos que seja, causado por nós, é  prejudicial para o planeta e até mesmo para nossa convivência diária, pois reparem que ruas sujas. com muito lixo jogado por nós, soam como ambientes desagradáveis  e são mesmo.

Já há algumas tendências e tentativas de se produzir menos lixo individualmente. Até já vi alguns vídeos na internet sobre o assunto, mas o que temos feito para que isso realmente ocorra? Temos economizado em copos descartáveis quando vamos beber água? Por exemplo, se você for beber água pela manhã e pela tarde ou a cada uma hora você pega outro copo descartável ou você tem uma garrafa ou copo próprio? Existe essa preocupação? E o tanto de papel que é gerado especialmente em empresas? Trabalho em uma empresa que não tem nenhum cuidado com o tanto de papel que produz. É tanto documento impresso desnecessariamente. Podemos reaproveitar coisas, mas por motivos diversos não o fazemos. Até papel de rascunho pode ser feito com esses papéis, mas em muitos casos ou quase todos são simplesmente descartados. Como repensar essas questões e simplesmente fazer a diferença? É possível ? Acredito que passa pela educação e por conscientização mesmo. Mas não conscientização por algo que está longe de nós e sim devemos trazer para perto da gente para que nossas ações possam realmente ter algum sentido. Olha, eu tento, mas em alguns casos é bem difícil, até porque dependemos de outras pessoas, empresas e setores para fazer nossa parte.




Rafaela Valverde

domingo, 25 de fevereiro de 2018

2008

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De repente escrevo num papel a mesma data mas no ano de 2008
Quero voltar no tempo, é?
O que eu estava fazendo em 2008 além de sendo uma menina estúpida de 19 anos?
Na verdade, nada de útil, não
Talvez sim.
"Quem dera voltar no tempo" disse  quando me dei conta do erro
Dessa forma consertaria as tantas merdas que fiz
Será?
Será que faria merdas diferentes?
Ou simplesmente não as faria?
É possível?
Uma máquina do tempo responderia minha pergunta
Mas no momento a máquina que tenho é minha cabeça
Minha memória
E só ela é capaz de, pelo menos tentar, me levar de volta para 2008
Mas será que eu quero?
Seria eu mesma se voltasse para 2008 e fizesse várias coisas diferentes?
Seria outra mulher, outra pessoa.
Prefiro continuar sendo quem eu sou que voltar e desfazer as merdas.
Me deixa aqui mesmo.
Deixa eu ser quem eu sou!
Porque eu gosto de mim.
Foda-se 2008!
Voilá!



Rafaela Valverde


Carrossel de afazeres

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O carrossel parece que não para nunca de girar. Ah, graças a Deus! Se parar a gente morre. Mal acaba uma coisa já estamos planejando outra, mal termina um projeto já vem outro à mente. E que continue assim, que bom que está sendo assim. Quando a gente perde a vontade de realizar coisas, a gente perde a vontade de viver, aí vem a depressão, a tristeza, o desânimo e a vontade de ficar deitada dia após dia.

Eu, leitora compulsiva, acabo um livro já começou outro em seguida. Acaba um semestre na faculdade já estou planejando outro. E que venha o outro! E que venha o novo. Venha! É assim que funciona o fluxo da vida. É assim que deve ser. É claro que mais um fatídico texto criado por mim expõe o que eu penso de tudo isso. Eu não consigo ficar parada e acho que nem gosto de ficar parada. Sempre é empolgante planejar coisas. É saber que estamos vivos, sangue pulsa em nossas veias.

A vida segue, corre e o tempo não para. Planejando coisas e realizando -as. Apertando um pouco tudo o que deve ser feito, ainda dá tempo ver uma série e ler um romance água com açúcar. Comecei a pensar nisso nesta manhã, justamente por estar fazendo coisas que geralmente faço no meu tempo livre, como limpar e organizar o e-mail, escrever e fazer a grade para o próximo semestre. E em meu único dia de folga da semana, consigo fazer certas coisas, pequenas coisas que apesar do caráter burocrático, acabam me dando paz. Sim, porque quando resolvo algo, mesmo tendo mais coisas para fazer, dá uma sensação de dever cumprido, de paz. A cabeça fica agitada mas quando vou resolvendo coisas ela vai se acalmando pouco a pouco. e A gente vai ticando itens na nossa lista imaginária de tantos afazeres. E por falar nisso, deixa eu ir ali que tenho um poema e a grade de 2018.1 para concluir.






Rafaela Valverde

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

O perdão

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O que é o perdão? Pra mim perdão é o maior ato de clemência que se pode fazer por quem se ama ou gosta. Bem, eu sei, talvez eu esteja exagerando... Clemência  é uma palavra muito forte. Mas ainda penso assim. Perdoar é a coisa mais nobre que se pode fazer pelo outro. O outro que de alguma forma a gente gosta. Porque quem a gente não tem uma relação afetiva não tem capacidade de nos atingir com seus atos. Já repararam que quem mais nos atinge com atitudes é quem a a gente gosta? Nos atinge porque nos importamos. E, se nos importamos com aquela pessoa ou com aquela ligação afetiva, então por que não perdoar?

Perdoar chega a ser um conceito religioso, cristão. Acho que também é uma coisa nobre que podemos fazer por nós mesmos. A gente se sente mais leve depois que a raiva passa, depois que a deixamos passar, depois que a cabeça está fresca. Já perdoei várias vezes e me senti muito melhor sempre que o fiz. O perdão é lindo. É olhar para o outro entendendo sua humanidade e com isso sua capacidade intrínseca de cometer erros. É olhar para o outro reconhecendo a si mesmo e a sua própria humanidade, porque também cometemos erros. Todos nós. É a coisa mais certa: saber que o outro vai errar. E se ele erra, é ser humano. Se ele erra, todo mundo erra. Quem perdoa ou vai perdoar também erra o tempo todo ou já errou feio um dia. Por que não ter empatia? Por que não se colocar no lugar daquela pessoa que errou e tentar entendê-la? Eu já estou tão acostumada a fazer isso que pra mim já soa como algo muito fácil. 

Sou das que perdoam. Sou das que não guardam mágoas. Sou das que dá segunda, terceira chances... Já cheguei a dar chances extras. Me via como trouxa por conta disso. Hoje não vejo mais. Me vejo como alguém que entende o outro e consequentemente a si mesmo. Me vejo como alguém de coração bom que entende que perdoar é básico para qualquer tipo de relação. Claro que tudo tem seu limite e depois das chances extras, a gente já começa a perceber que o outro não está realmente disposto a mudar ou a consertar seus erros... Mas quando o outro se dispõe a consertar seus erros e mostra isso ao longo do tempo nada mais justo que dar essa chance. Nada mais justo que dar chance de a pessoa se redimir. Todo mundo merece. Eu acho. Sempre tive essa certeza em minha vida. Acredito no ser humano. Ainda.

 Ainda vislumbro possibilidade de melhorias nas pessoa. Pelo menos nas que se propõem a mudar e se policiam. Obviamente é preciso enxergar essa mudança, essa melhoria. Não dá, como eu já disse, para ser feita de idiota. Ninguém merece ser feito de idiota, ao mesmo tempo que todo mundo merece uma segunda chance. Sou adepta das segundas chances. Sou adepta ao perdão. Meu coração perdoa. Minha cabeça também. E tudo volta do início. Começa do zero. E consigo ser capaz de entender o outro, de perceber seus esforços em mudar e começar tudo de novo. Nossas relações afetivas se renovam a partir do perdão e ficam melhores.




Rafaela Valverde

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Não te pedi opinião sobre meu corpo!


Não. Eu não te autorizo a fazer comentários sobre meu corpo. Não quero que você fale sua opinião sobre mim, sobre meu corpo, sobre meu cabelo, meu estilo de vida, tatuagens... Nada! Cale a boca e pronto. Nós, gordos, já nos cansamos de ouvir seus comentários maldosos sobre nossos corpos. Aguentamos isso durante anos, anos e anos. Mas agora temos voz, tomamos nossa voz e não permitiremos mais piadas, comentários escrotos e nem mais pio. 

Já escutei muitas coisas durante toda minha vida. Minha infância foi tomada por bullying e zoação sobre meu corpo. Minha adolescência foi um pouco melhor porque espichei um pouco e perdi peso, mas agora na minha vida adulta passo a ouvir comentários sobre meu corpo e sobre o fato de eu estar acima do peso. Sempre estive e sempre estarei. Até mesmo o homem que se diz ou se dizia meu pai fazia comentários, brincadeiras e dava gargalhadas com suas piadas infames sobre o fato de eu ser gorda. Quando decidi dar um basta nele, nós deixamos de nos falar. Graças a Deus.

Ser gordo é esquisito, é estranho. Estar acima do peso é chamariz de doenças, assim eles dizem, todos eles que são os perfeitões, os julgadores de corpo e vida alheias. Sou incapaz de fazer qualquer comentário sobre o que quer que seja  da vida dos outros. Mas existem pessoas que parecem sentir  um prazer orgástico nisso. Só se sentem realizadas se tecerem comentários desagradáveis sobre tudo e todos.

Essa coisa escrota sempre existiu. A diferença é que agora a gente expõe quem faz isso. A gente cansou de aceitar tudo calado. Eu já me cansei.  Não foi uma, nem duas, nem três vezes que encontrei pessoas na rua e elas se admiraram pelo fato de eu estar gorda. O mais engraçado é que uso o mesmo manequim há anos. Minhas roupas são grandes, ou a depender da forma, super grandes há anos. Não tem nenhuma novidade no fato de eu estar acima do peso. Mas, mesmo assim ainda é possível encontrar com pessoas admiradas, pois cada vez estou mais gorda.

Ontem foi um desses dias. Estou morando aqui no bairro novamente há mais de um ano. Não engordei mais de dois quilos desde que vim morar aqui e ainda assim consigo encontrar gente com língua ferina, para não dizer maldita, que fala algo sobre isso, como se eu tivesse triplicado o peso ou ficado grávida de repente. Falo grávida porque é uma condição em que geralmente se engorda muito...

Enfim, espero que as pessoas tomem consciência e parem de tomar conta da vida, da comida, da gordura e do corpo do outro. Porque é muito ruim pra gente escutar coisas desse tipo. Nós temos espelho em casa, nós compramos roupas, nós vivemos no nosso corpo e sabemos exatamente como ele é. Nós gostamos de comer. Nós sabemos que somos gordos. Não precisamos das opiniões de vocês. E calem a bokita, tá? Tá! Beijos de luz e paz




Rafaela Valverde


Pela rua...


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Um dia, andando pela rua
Me senti vazia, me senti nua
Não estava mais me sentindo plena
Saia de mim e via aquela cena
De mim mesma caminhando à toa
Tentando ser uma mulher boa
Das que se sentem tristes quando necessário
Mas ainda gostam de fazer aniversário
Isso porque a plenitude vem e nos alcança
Somos dessas, não gostamos de cobrança
Nem precisa
A vida avisa
O momento de mudar
O momento de bradar
Bem alto
Quebro meu salto
Andando pela rua
A tristeza se insinua
Aqui na minha frente
Faz me ver carente
Mas não estou mais
Coisas banais
Voltam a acontecer
Coisas boas até o anoitecer
E eu continuo aqui andando
Pelas ruas vazias cantarolando
Nada mais me atinge, bailando
Na dança que a vida me dá
Feliz pra-lá-de-Bagdá!



Rafaela Valverde




terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Eu, cuidadora

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Sempre fui a pessoa que cuidava dos outros, cuidei de minha irmã, cuidei de uma prima, achava que cuidava de minha mãe quando ela ficava doente, cuido de minha vó quando posso, cuidei de meu ex marido durante o tempo em que estivemos juntos; cuido de minhas gatas. Mesmo com esse meu jeitão doido e desbocado de ser eu consigo ser  suficientemente amorosa para cuidar de quem eu me importo.

Não vou dizer a idiotice que nasci com o dom de cuidar. Não sei se alguém realmente nasce com algum dom. Principalmente esse. O que se chama de dons são coisas que a gente precisa desenvolver por alguma necessidade ou por que gosta ou quer. Precisei desde cedo cuidar das pessoas, precisei ser responsável por minha irmã, casei cedo e precisei cuidar do marido. Simplesmente precisei e desenvolvi isso muito bem.

Me preocupo, cuido, insisto que a pessoa procure um médico, se tiver abertura vou, cozinho, cuido. Faço o que é preciso para o bem estar de quem eu gosto. Faço o que é necessário. Faço o que não é mais que minha obrigação. E nem gosto de ficar falando sobre isso. Eu apenas sou isso. Prefiro mostrar ao invés de ficar falando. Quem fala muito não é de muita coisa não...

Só queria utilizar esse singelo espaço para falar um pouco sobre isso. Estava conversando ontem com uma pessoa e usei essa palavra: cuidadora. É uma das coisas que me identifica. E quem me conhece sabe que mesmo eu sendo largadona, ter essa cara de bunda às vezes e parecer que não me importo. Eu me importo sim. E cuido. Eu adoro cuidar. Eu gosto de ver as pessoas bem. Eu sou isso, mesmo que em muitos casos não haja recíproca.



Rafaela Valverde

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Geração Paissandu - Paulo Fernando Henriques Britto



Li recentemente esse poema em um livro e gostei muito. Resolvi compartilhar com vocês!



Vim, como todo mundo,
do quarto escuro da infância,
mundo de coisas e ânsias indecifráveis,
de só desejo e repulsa.
Cresci com a pressa de sempre.

Fui jovem, com a sede de todos,
em tempo de seco fascismo.
Por isso não tive pátria, só discos.
Amei, como todos pensam.
Troquei carícias cegas nos cinemas,
li todos os livros, acreditei
em quase tudo por ao menos um minuto,
provei do que pintou, adolesci.

Vi tudo que vi, entendi como pude.
Depois, como de direito,
endureci. Agora a minha boca
não arde tanto de sede.
As minhas mãos é que coçam -
vontade de destilar
depressa, antes que esfrie,
esse caldo morno de vida.



Rafaela Valverde

domingo, 26 de novembro de 2017

Motivo - Cecília Meireles


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Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.



Rafaela Valverde

Abraço de amigo

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Ando pensando ultimamente no abraço. Abraço de amigo, aquele que a gente sente uma quenturinha na barriga. Quenturinha de amor verdadeiro. "Amorzade." Aquele amigo que te quer bem de verdade, sorri ao te ver e te abraça forte e quente. É aquele abraço que não quer mais soltar. Amizade é a coisa mais bonita que existe. Você escolhe alguém, inicialmente por alguma pequena afinidade e em breve ela pode se tornar uma das pessoas mais importantes da sua vida. E aqueles abraços, contatos tão breves, mas não tanto, podem se tornar tanta coisa. Desde um consolo para almas cansadas, até um sinal de apoio em momentos difíceis, ou simplesmente um contato rápido entre amigos que não se veem há um tempo.

Um abraço pode ser muito e pouco ao mesmo tempo. Um abraço pode ser banal, mas, ao mesmo tempo pode conter grandes questões afetivas, grandes encontros dentro de um pequeno encontro. Gosto de abraçar meus amigos, sobretudo os mais queridos. Tenho poucos, mas eles, em sua raridade são muitos. Às vezes demoramos de nos ver. Mas quando a gente se vê dá aquela vontade de abraçar e abraçamos, apertamos nossas barrigas, uma contra a outra e tudo recomeça de onde parou, como se nunca tivéssemos ficado dias, meses, sem nos ver.

Tenho dois amigos em especial, que quando abraço sinto boas energias saindo deles e vindo até mim. Eu não sei exatamente do que se trata e muito menos explicar, mas hei de deixar tudo isso subentendido, depois de todas essas coisas que já explicitei acima. O que sei é que gosto de encontrar esses meus dois amigos, um homem e uma mulher, eles me transmitem boas coisas, eles são boas pessoas, cheias de boas energias... Quando ele e o bom humor dele me veem e me chamam em algum lugar, especialmente na universidade, onde geralmente nos encontramos, logo meu humor melhora também, contagiado pelo dele. Gosto desses pequenos encontros de transmissão de alegria e positividade. Já ela, a mulher, é uma das minhas amigas mais chegadas ultimamente. Nossas troças já fazem parte da nossa amizade. Passamos dias sem nos ver e nos falar, mas quando nos vemos, surge uns gritos, da minha parte, mas também da dela... (Hahaaha) E além dos gritos, há os abraços fortes, apertados e demorados, daqueles que não quero mais sair de dentro. E como diz uma música: "o melhor lugar do mundo é dentro de um abraço..." E abraço de amigos queridos então, é uma inexplicável sensação.




Rafaela Valverde

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Filosofia - Ascenso Ferreira

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Hora de comer — comer!

Hora de dormir — dormir!

Hora de vadiar — vadiar!

Hora de trabalhar?

— Pernas pro ar que ninguém é de ferro!






Rafaela Valverde

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Verbos sem ações, ações sem efeitos

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Eu sei que nada vai dar em nada. Nada que eu fizer, reclamações, denúncias, chiliques vão ser suficientes para resolver as coisas. No nível em que estamos nãos sei se ainda adianta bradar, gritar, questionar... Está tudo tão parado que só dá vontade de ficar parado também.

Antes, eu achava que podia mudar coisas, talvez não o mundo, porque ele já está assim há muito tempo e a coisa não é boa. Não mesmo. Quando ainda insisto em reclamar ou questionar algo que está bem ruim, recebo mensagens genéricas, mais trazendo discursos de como eles deveriam agir do que resposta e efetivas soluções para o que foi questionado.

Dá um cansaço, um desânimo, uma preguiça... A gente se sente desmotivada a continuar acreditando que possa ainda existir algum tipo de solução para o que quer que seja. Esquece, deixa como está. Não adianta ficar se  envolvendo nessas coisas... São coisas que ouço. Especialmente das pessoas mais velhas, que claro, já estão por aqui há mais tempo e sabem que não vai dar em nada... É provável que já tenham sentido na própria pele, a dor da decepção de que sua voz não vale de nada.

O gosto é amargo, azedo e injusto. Não existe coisa pior que receber respostas genéricas, que não levam a lugar nenhum. Não existe coisa pior do que ter seu grito abafado, gritar mudo. Grito único, pessoa sozinha, berrando à toa por coisas que nunca vão mudar. É frustrante. Dá uma tristeza, um súbito malquerer toma conta da gente. Dá vontade de sumir. E sabe por quê? Não apenas por uma resposta, mas por todo o conjunto. Tudo vai mal. Aliás, pode não ir totalmente mal, mas anda bem capenga. Tudo está sendo feito em vão. O que pode fazer com que eu pare de gritar, de falar, de reclamar, de orar, de pedir, de agradecer, de acreditar... Verbos ocos, esses. Ninguém mais acredita, Eu não mais acredito nas reais ações desses verbos.



Rafaela Valverde

Mapa - Murilo Mendes

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Me colaram no tempo, me puseram
uma alma viva e um corpo desconjuntado. Estou
limitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo,
a leste pelo Apóstolo São Paulo, a oeste pela minha educação.

Me vejo numa nebulosa, rodando, sou um fluido,
depois chego à consciência da terra, ando como os outros,
me pregam numa cruz, numa única vida.
Colégio. Indignado, me chamam pelo número, detesto a hierarquia.

Me puseram o rótulo de homem, vou rindo, vou andando, aos solavancos.
Danço. Rio e choro, estou aqui, estou ali, desarticulado,
gosto de todos, não gosto de ninguém, batalho com os espíritos do ar,
alguém da terra me faz sinais, não sei mais o que é o bem
nem o mal.

Minha cabeça voou acima da baía, estou suspenso, angustiado, no éter,
tonto de vidas, de cheiros, de movimentos, de pensamentos,
não acredito em nenhuma técnica.

Estou com os meus antepassados, me balanço em arenas espanholas,
é por isso que saio às vezes pra rua combatendo personagens imaginários,
depois estou com os meus tios doidos, às gargalhadas,
na fazenda do interior, olhando os girassóis do jardim.

Estou no outro lado do mundo, daqui a cem anos, levantando populações…
Me desespero porque não posso estar presente a todos os atos da vida.

Onde esconder minha cara? O mundo samba na minha cabeça.
Triângulos, estrelas, noites, mulheres andando,
presságios brotando no ar, diversos pesos e movimentos me chamam a atenção,
o mundo vai mudar a cara,
a morte revelará o sentido verdadeiro das coisas.Andarei no ar.

Estarei em todos os nascimentos e em todas as agonias,
me aninharei nos recantos do corpo da noiva,
na cabeça dos artistas doentes, dos revolucionários.

Tudo transparecerá:
vulcões de ódio, explosões de amor, outras caras aparecerão na terra,
o vento que vem da eternidade suspenderá os passos,
dançarei na luz dos relâmpagos, beijarei sete mulheres,
vibrarei nos cangerês do mar, abraçarei as almas no ar,
me insinuarei nos quatro cantos do mundo.

Almas desesperadas eu vos amo. Almas insatisfeitas, ardentes.
Detesto os que se tapeiam,
os que brincam de cabra-cega com a vida, os homens “práticos”…
Viva São Francisco e vários suicidas e amantes suicidas,
os soldados que perderam a batalha, as mães bem mães,
as fêmeas bem fêmeas, os doidos bem doidos.
Vivam os transfigurados, ou porque eram perfeitos ou porque jejuavam muito…
viva eu, que inauguro no mundo o estado de bagunça transcendente.

Sou a presa do homem que fui há vinte anos passados,
dos amores raros que tive,
vida de planos ardentes, desertos vibrando sob os dedos do amor,
tudo é ritmo do cérebro do poeta. Não me inscrevo em nenhuma teoria,
estou no ar,
na alma dos criminosos, dos amantes desesperados,
no meu quarto modesto da praia de Botafogo,
no pensamento dos homens que movem o mundo,
nem triste nem alegre, chama com dois olhos andando,
sempre
em transformação.




Rafaela Valverde

domingo, 12 de novembro de 2017

A vida é tão rara...

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A vida é um sopro. Realmente. Sou obrigada a concordar. A vida é rara, frágil. A vida é a coisa mais valiosa que possuímos. Não tem riqueza, não tem saber, não tem poder. A vida com certeza é nosso maior tesouro. Não sou a pessoa mais apropriada para falar da morte. Não lido bem com ela. Fico muito chocada sempre que alguém próximo morre - ou às vezes nem tão próximo assim. Fico assim, paralisada, pensativa e calada, pensando na necessidade que temos de viver urgentemente. Ontem!

Essa semana um conhecido foi morto a tiros, em um assalto. Tínhamos pouco contato e só trocamos algumas palavras, ele trabalhou no mesmo projeto que eu, há uns anos, mas isso mexeu comigo. Sobretudo pela violência, sobretudo por saber que pode ser qualquer um de nós. Cada vez mais o medo nos atinge como uma flecha no peito e quanto mais próxima da gente a pessoa assassinada, pior a gente se sente. Mesmos trajetos, mesmos gostos, mesmas questões pessoais e sociais, mesma universidade...

Dói. É duro ver alguém tão jovem, cheio de vida e alegria de viver deixar de existir assim tão mesquinhamente em uma calçada. A troco de quê? Nada. Um mero celular, ou sei lá o quê. Perguntei a Deus o porquê de tanta injustiça e Ele me acalmou trazendo pra mim a mensagem que eu tenho direito de  me revoltar e sofrer, mas, tudo tem um propósito, afinal de contas. Não sei qual ou quais. E é certo que eu nunca vou saber exatamente, mas pelo menos me colocou para pensar na minha vida e em minhas atitudes. E olhe que eu nem era próxima, nem amiga, nem nada... Mas tenho um amigo bem próximo em comum com ele e consigo perceber sua dor, me solidarizando e aumentando mais ainda a minha.

Fiz algumas reflexões acerca da vida. Acerca da minha vida. Primeiro pensei, e é o que pensamos logo que uma coisa assim acontece, que devia viver minha vida intensamente, um dia de cada vez e todas essas coisas clichês que ficam melhores na fala. Porque na prática a gente não consegue viver um dia de cada vez, porque estamos sempre com a cabeça focada em algo "lá na frente". Um TCC, um casamento, planos de comprar um carro ou um apartamento, carreira acadêmica... Tudo isso nos impulsiona para frente e para o futuro. Claro que vivemos, aproveitamos, descansamos, tentamos não nos estressar, tudo em prol desse "viver plenamente", mas o sentido da nossa vida vem mesmo a partir das nossas lutas diárias: estudar, trabalhar, estudar para concurso, cumprir obrigações em casa, escrever teses, monografias e sei lá mais o que.

Então, o que passei a me questionar essa semana foi: "pra que tanta luta? pra que trabalhar e estudar, dormir pouco, se acabar, brigar por um lugar na academia e na sociedade, pra que tudo isso se podemos deixar de existir em uma calçada qualquer de forma prematura e estúpida?" Tanto sacrifício para nada? É isso? Quem me garante que vou vou conseguir efetivar todos os meus planos e realizar meus sonhos? É muito frustrante e triste pensar nessas coisas, especialmente quando temos certeza que a resposta nunca vem e somos obrigados a viver, a lutar, batalhar e nos impulsionar para o futuro, mesmo que ele venha a não existir.  Não tem jeito, precisamos viver o mais plenamente possível. A dor é grande e não passa. A revolta e indignação são impulsionadoras também. Quem sabe elas possam  nos dar mais forças? Então, é isso.





Rafaela Valverde

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Uns olhos inquietos procurando pretextos volúveis para viver

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Sempre fui a que está sozinha. É muito raro alguém me encontrar acompanhada. Observo as pessoas atentamente. Se as todos soubessem o que olhares e corpos dizem, com certeza falariam menos e olhariam mais. Será que alguém sabe a carga que carrega um olhar? Um único olhar? Sentada, sozinha é claro, no restaurante universitário consigo identificar vários tipos de pessoas. As que sofrem e as que fazem sofrer; calouros sorridentes sem nem imaginar o que lhes esperam. Além disso é lindo ver esses mesmos calouros perdidos sem saber onde pega o garfo e onde pega a faca. Já passei por isso e não tem muito tempo não. Início do ano passado era eu, caloura, o motivo da chacota, das observações dos veteranos. 

Dá para saber quem é o falastrão e o caladão. Dá para perceber quem está apaixonado ou não. Só observando as pessoas no RU. Quero terminar meu almoço e ir lá pra fora fumar. Eu não gosto de conversar à toa e um cigarro sempre cai bem, ninguém encosta em mim com toda aquela fumaça. Não é que eu não goste de conversar. Eu até gosto, sim. Mas conversa tem que ter propósito. A meu ver. Não quero tagarelar. Jogar conversa fora ou falar só pra não ficar calada. O que eu quero mesmo é ficar calada e observar. Um passarinho dançante na grama lá fora, um pai beijando o filho antes de ele sair do carro, flores desabrochando... Sabe...? Todas essas coisas piegas da vida, que só gente piegas observa.

E eu sou desse tipo de gente. O mais cafona possível. Pieguice é meu sobrenome. E olha que frase ridícula que evidencia exatamente isto que estou falando agora. Tinha um menino lá, no RU, com uma camisa rosa desbotada. Que tom de rosa horrível. Ele ficava olhando para a menina que estava bem a sua frente de uma forma quase idólatra. Não sei se eles se conheciam. Não vi os dois conversando. Mas vi como ele olhava para ela. Ninguém olha pra mim daquele jeito. FATO! 

Depois do menino da camisa horrível, um torcedor do Bahia (só podia ser) gritava para um gostosão rasta que estava do outro lado do restaurante  Bom, pelo menos isso despertou minha atenção e pude me deliciar com aquele colírio. Ele logo sumiu das minhas vistas, já que eu estava mais interessada na minha sobremesa. Sinto muito, gostosão! Um docinho depois do almoço  é melhor que você sim.

Lá fora, já com o cigarro na mão, pensava no ônibus que passaria dali a cinco minutos e pensava em todas aquelas pessoas que formam meus repertórios de observação diária. Se não fossem essas pessoas e suas peripécias com certeza eu seria muito mais solitária, cá com meus botões e cigarros. Maços e mais maços. Dúvidas constantes sobre tudo que todo mundo tem certeza. Olho pra aquele tubinho branco e penso: "essa porra vai me matar..."

E aí vem tudo à tona. "O que é que eu tô fazendo com minha vida? Eu não tagarelo, tô sempre sozinha, sou essa demente observadora, piegas e cafona e ainda por cima fumo." Todo o meu pulmão deve estar preto agora. Será que estar preto é mesmo ruim? Por que toda essa coisa com a cor preta? O preto das substâncias do cigarro é tão lindo! E quem é que me garante que aquele pulmão rosinha, fofinho é o normal? É o saudável? Ninguém me garante, porque sei que tem bebês que nascem com problemas no pulmão e nunca fumaram. Minhas maratonas de Grey's Anatomy me deixaram assim metida a entendida dos assuntos medicamentosos. Olho pro cigarro de novo, sendo desperdiçado, queimando ali sozinho... "Ah vou fumar mesmo. Porra!"

Olhei para a frente, em meio as árvores. Um homem me observava.  Também fumava. Ele era claramente homossexual, então sem essa idiotice clichê de climinha romântico nesse texto. Não. Reconheci imediatamente que seu interesse em minha briga com o cigarro era bem parecido com meu interesse por todas as pessoas... O menino da camisa horrível, os calouros, o gostosão de cabelo rasta... Eu gosto de observar pessoas, de olhar seus olhares e expressões. Essa coisa toda me deixa menos sombria e solitária. Sorri amarelamente, sem mostrar os dentes. Era o melhor sorriso que podia oferecer. Depois caminhei para o ponto de ônibus, ainda fumando.



Rafaela Valverde
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