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segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Filosofia - Ascenso Ferreira

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Hora de comer — comer!

Hora de dormir — dormir!

Hora de vadiar — vadiar!

Hora de trabalhar?

— Pernas pro ar que ninguém é de ferro!






Rafaela Valverde

sábado, 18 de novembro de 2017

Lépida e leve - Gilka Machado

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Lépida e leve
em teu labor que, de expressões à míngua,
O verso não descreve...
Lépida e leve,
guardas, ó língua, em seu labor,
gostos de afagos de sabor.


És tão mansa e macia,
que teu nome a ti mesmo acaricia,
que teu nome por ti roça, flexuosamente,
como rítmica serpente,
e se faz menos rudo,
o vocábulo, ao teu contacto de veludo.


Dominadora do desejo humano,
estatuária da palavra,
ódio, paixão, mentira, desengano,
por ti que incêndio no Universo lavra!...
És o réptil que voa,
o divino pecado
que as asas musicais, às vezes, solta, à toa,
e que a Terra povoa e despovoa,
quando é de seu agrado.


Sol dos ouvidos, sabiá do tato,
ó língua-idéia, ó língua-sensação,
em que olvido insensato,
em que tolo recato,
te hão deixado o louvor, a exaltação!


— Tu que irradiar pudeste os mais formosos poemas!
— Tu que orquestrar soubeste as carícias supremas!
Dás corpo ao beijo, dás antera à boca, és um tateio de
alucinação,
és o elástico da alma... Ó minha louca
língua, do meu Amor penetra a boca,
passa-lhe em todo senso tua mão,
enche-o de mim, deixa-me oca...
— Tenho certeza, minha louca,
de lhe dar a morder em ti meu coração!...


Língua do meu Amor velosa e doce,
que me convences de que sou frase,
que me contornas, que me veste quase,
como se o corpo meu de ti vindo me fosse.
Língua que me cativas, que me enleias
os surtos de ave estranha,
em linhas longas de invisíveis teias,
de que és, há tanto, habilidosa aranha...


Língua-lâmina, língua-labareda,
língua-linfa, coleando, em deslizes de seda...
Força inféria e divina
faz com que o bem e o mal resumas,
língua-cáustica, língua-cocaína,
língua de mel, língua de plumas?...


Amo-te as sugestões gloriosas e funestas,
amo-te como todas as mulheres
te amam, ó língua-lama, ó língua-resplendor,
pela carne de som que à idéia emprestas
e pelas frases mudas que proferes
nos silêncios de Amor!...

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Verbos sem ações, ações sem efeitos

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Eu sei que nada vai dar em nada. Nada que eu fizer, reclamações, denúncias, chiliques vão ser suficientes para resolver as coisas. No nível em que estamos nãos sei se ainda adianta bradar, gritar, questionar... Está tudo tão parado que só dá vontade de ficar parado também.

Antes, eu achava que podia mudar coisas, talvez não o mundo, porque ele já está assim há muito tempo e a coisa não é boa. Não mesmo. Quando ainda insisto em reclamar ou questionar algo que está bem ruim, recebo mensagens genéricas, mais trazendo discursos de como eles deveriam agir do que resposta e efetivas soluções para o que foi questionado.

Dá um cansaço, um desânimo, uma preguiça... A gente se sente desmotivada a continuar acreditando que possa ainda existir algum tipo de solução para o que quer que seja. Esquece, deixa como está. Não adianta ficar se  envolvendo nessas coisas... São coisas que ouço. Especialmente das pessoas mais velhas, que claro, já estão por aqui há mais tempo e sabem que não vai dar em nada... É provável que já tenham sentido na própria pele, a dor da decepção de que sua voz não vale de nada.

O gosto é amargo, azedo e injusto. Não existe coisa pior que receber respostas genéricas, que não levam a lugar nenhum. Não existe coisa pior do que ter seu grito abafado, gritar mudo. Grito único, pessoa sozinha, berrando à toa por coisas que nunca vão mudar. É frustrante. Dá uma tristeza, um súbito malquerer toma conta da gente. Dá vontade de sumir. E sabe por quê? Não apenas por uma resposta, mas por todo o conjunto. Tudo vai mal. Aliás, pode não ir totalmente mal, mas anda bem capenga. Tudo está sendo feito em vão. O que pode fazer com que eu pare de gritar, de falar, de reclamar, de orar, de pedir, de agradecer, de acreditar... Verbos ocos, esses. Ninguém mais acredita, Eu não mais acredito nas reais ações desses verbos.



Rafaela Valverde

Mapa - Murilo Mendes

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Me colaram no tempo, me puseram
uma alma viva e um corpo desconjuntado. Estou
limitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo,
a leste pelo Apóstolo São Paulo, a oeste pela minha educação.

Me vejo numa nebulosa, rodando, sou um fluido,
depois chego à consciência da terra, ando como os outros,
me pregam numa cruz, numa única vida.
Colégio. Indignado, me chamam pelo número, detesto a hierarquia.

Me puseram o rótulo de homem, vou rindo, vou andando, aos solavancos.
Danço. Rio e choro, estou aqui, estou ali, desarticulado,
gosto de todos, não gosto de ninguém, batalho com os espíritos do ar,
alguém da terra me faz sinais, não sei mais o que é o bem
nem o mal.

Minha cabeça voou acima da baía, estou suspenso, angustiado, no éter,
tonto de vidas, de cheiros, de movimentos, de pensamentos,
não acredito em nenhuma técnica.

Estou com os meus antepassados, me balanço em arenas espanholas,
é por isso que saio às vezes pra rua combatendo personagens imaginários,
depois estou com os meus tios doidos, às gargalhadas,
na fazenda do interior, olhando os girassóis do jardim.

Estou no outro lado do mundo, daqui a cem anos, levantando populações…
Me desespero porque não posso estar presente a todos os atos da vida.

Onde esconder minha cara? O mundo samba na minha cabeça.
Triângulos, estrelas, noites, mulheres andando,
presságios brotando no ar, diversos pesos e movimentos me chamam a atenção,
o mundo vai mudar a cara,
a morte revelará o sentido verdadeiro das coisas.Andarei no ar.

Estarei em todos os nascimentos e em todas as agonias,
me aninharei nos recantos do corpo da noiva,
na cabeça dos artistas doentes, dos revolucionários.

Tudo transparecerá:
vulcões de ódio, explosões de amor, outras caras aparecerão na terra,
o vento que vem da eternidade suspenderá os passos,
dançarei na luz dos relâmpagos, beijarei sete mulheres,
vibrarei nos cangerês do mar, abraçarei as almas no ar,
me insinuarei nos quatro cantos do mundo.

Almas desesperadas eu vos amo. Almas insatisfeitas, ardentes.
Detesto os que se tapeiam,
os que brincam de cabra-cega com a vida, os homens “práticos”…
Viva São Francisco e vários suicidas e amantes suicidas,
os soldados que perderam a batalha, as mães bem mães,
as fêmeas bem fêmeas, os doidos bem doidos.
Vivam os transfigurados, ou porque eram perfeitos ou porque jejuavam muito…
viva eu, que inauguro no mundo o estado de bagunça transcendente.

Sou a presa do homem que fui há vinte anos passados,
dos amores raros que tive,
vida de planos ardentes, desertos vibrando sob os dedos do amor,
tudo é ritmo do cérebro do poeta. Não me inscrevo em nenhuma teoria,
estou no ar,
na alma dos criminosos, dos amantes desesperados,
no meu quarto modesto da praia de Botafogo,
no pensamento dos homens que movem o mundo,
nem triste nem alegre, chama com dois olhos andando,
sempre
em transformação.




Rafaela Valverde

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Novena vespertina



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Ela caminha até o fim e para na esquina
Olha para o entardecer
E sabe que essa é sua sina
Não quer se embrutecer

Precisa continuar serena
Mesmo com essa rotina
Seguiria como uma novena
Já se preparava para a solidão vespertina

Causada pelo tédio
Daquela infinita caminhada
Mas não há remédio

As mãos atadas
Caminha até a esquina
Até o fim!




Rafaela Valverde





domingo, 12 de novembro de 2017

Na Boca - Mário de Andrade

Como ensinar literatura - Zonacurva

 Sobre esse poema, preciso destacar a melhor parte: Felizmente existe o álcool na vida. Hahahahaha


Sempre tristíssimas estas cantigas de carnaval
Paixão
Ciúme
Dor daquilo que não se pode dizer

Felizmente existe o álcool na vida
e nos três dias de carnaval éter de lança-perfume
Quem me dera ser como o rapaz desvairado!
O ano passado ele parava diante das mulheres bonitas
e gritava pedindo o esguicho de cloretilo:
- Na boca! Na boca!
Umas davam-lhe as costas com repugnância
outras porém faziam-lhe a vontade.

Ainda existem mulheres bastante puras para fazer vontade aos viciados

Dorinha meu amor...
Se ela fosse bastante pura eu iria agora gritar-lhe como o outro:
                                                                             [- Na boca! Na boca!




Rafaela Valverde

Outra Vez- Saulo




Música maravilhosa!



Outra noite sem você
Outra vez sem ombro pra recostar
Outra noite sem dormir
Menos uma chance pra sonhar

Fecho os olhos me concentro
Talvez o pensamento me mostre um filme seu
Te veja feliz, te veja cantando
Pra me tirar a saudade e aliviar a dor
Queria estar perto de você

Ouvir suas historias de princesa
Ver o seu sorriso de menina
E sentir sua pureza, te aconselhar como amigo
Te livrar do perigo, te desejar sorte
Te abraçar forte e dizer

Faz tempo que eu não vejo o sol
Faz tempo que eu ando só
Faz tempo que eu não sou seu namorado amor
'Tô' sem saber o que fazer
Queria ficar com você
Se for pra enlouquecer que seja do seu lado




Rafaela Valverde

A vida é tão rara...

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A vida é um sopro. Realmente. Sou obrigada a concordar. A vida é rara, frágil. A vida é a coisa mais valiosa que possuímos. Não tem riqueza, não tem saber, não tem poder. A vida com certeza é nosso maior tesouro. Não sou a pessoa mais apropriada para falar da morte. Não lido bem com ela. Fico muito chocada sempre que alguém próximo morre - ou às vezes nem tão próximo assim. Fico assim, paralisada, pensativa e calada, pensando na necessidade que temos de viver urgentemente. Ontem!

Essa semana um conhecido foi morto a tiros, em um assalto. Tínhamos pouco contato e só trocamos algumas palavras, ele trabalhou no mesmo projeto que eu, há uns anos, mas isso mexeu comigo. Sobretudo pela violência, sobretudo por saber que pode ser qualquer um de nós. Cada vez mais o medo nos atinge como uma flecha no peito e quanto mais próxima da gente a pessoa assassinada, pior a gente se sente. Mesmos trajetos, mesmos gostos, mesmas questões pessoais e sociais, mesma universidade...

Dói. É duro ver alguém tão jovem, cheio de vida e alegria de viver deixar de existir assim tão mesquinhamente em uma calçada. A troco de quê? Nada. Um mero celular, ou sei lá o quê. Perguntei a Deus o porquê de tanta injustiça e Ele me acalmou trazendo pra mim a mensagem que eu tenho direito de  me revoltar e sofrer, mas, tudo tem um propósito, afinal de contas. Não sei qual ou quais. E é certo que eu nunca vou saber exatamente, mas pelo menos me colocou para pensar na minha vida e em minhas atitudes. E olhe que eu nem era próxima, nem amiga, nem nada... Mas tenho um amigo bem próximo em comum com ele e consigo perceber sua dor, me solidarizando e aumentando mais ainda a minha.

Fiz algumas reflexões acerca da vida. Acerca da minha vida. Primeiro pensei, e é o que pensamos logo que uma coisa assim acontece, que devia viver minha vida intensamente, um dia de cada vez e todas essas coisas clichês que ficam melhores na fala. Porque na prática a gente não consegue viver um dia de cada vez, porque estamos sempre com a cabeça focada em algo "lá na frente". Um TCC, um casamento, planos de comprar um carro ou um apartamento, carreira acadêmica... Tudo isso nos impulsiona para frente e para o futuro. Claro que vivemos, aproveitamos, descansamos, tentamos não nos estressar, tudo em prol desse "viver plenamente", mas o sentido da nossa vida vem mesmo a partir das nossas lutas diárias: estudar, trabalhar, estudar para concurso, cumprir obrigações em casa, escrever teses, monografias e sei lá mais o que.

Então, o que passei a me questionar essa semana foi: "pra que tanta luta? pra que trabalhar e estudar, dormir pouco, se acabar, brigar por um lugar na academia e na sociedade, pra que tudo isso se podemos deixar de existir em uma calçada qualquer de forma prematura e estúpida?" Tanto sacrifício para nada? É isso? Quem me garante que vou vou conseguir efetivar todos os meus planos e realizar meus sonhos? É muito frustrante e triste pensar nessas coisas, especialmente quando temos certeza que a resposta nunca vem e somos obrigados a viver, a lutar, batalhar e nos impulsionar para o futuro, mesmo que ele venha a não existir.  Não tem jeito, precisamos viver o mais plenamente possível. A dor é grande e não passa. A revolta e indignação são impulsionadoras também. Quem sabe elas possam  nos dar mais forças? Então, é isso.





Rafaela Valverde

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

A Cor Púrpura - Alice Walker

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Terminei de ler o livro A Cor Púrpura de Alice Walker. É com certeza um dos melhores livros que já li na vida. Nunca li uma coisa tão linda, forte, militante e tão cheia de saberes. O livro lançado inicialmente em 1982 nos EUA, teve muito sucesso desde o início e logo foi adaptado para virar filme com Whoopi Goldberg, Danny Glover e Oprah Winfrey.

Alice é militante feminista e negra. Daí é possível entender um pouco da grandiosidade dessa obra. Porém não é um livro de clichês, daqueles que dizem mais do mesmo da militância, repetindo sempre a mesma coisa. A Cor Púrpura vai além, nos faz pensar em coisas não pensadas antes e através do conhecimento e texto bem escrito da autora.

O livro tem narração a partir de cartas. Primeiro as cartas de Celie, a personagem principal são voltadas para Deus, que passa a ser testemunha de todos os sofrimentos diários passados pela mulher que começa sua narrativa ainda menina, vivendo em um ambiente de extrema violência e grande ataque à sua auto estima. Fora violentada pelo pai e maltratada pelo marido, que sempre a rechaçava por ser "feia, pobre, negra e mulher..." Mulher não pode fazer determinadas coisas. Mulher é mais fraca que homem, portanto não deve falar nada, ficar calada e apanhar...

As narrativas epistolares se dão entre os anos de 1900 e 1940 nos EUA, trazendo de forma crua e real a situação que vivia as pessoas negras naquele país, naquele momento. As mulheres eram tratadas ainda pior e estas questões são mostradas no livro e o melhor, do ponto de vista de quem viveu, sendo narrado em primeira pessoa. Os erros de português de Celie, que era semi-analfabeta foram mantidos para manter a veracidade, já que eram cartas.

Celie, após ser violentada pelo pai -  spoiler: ou pelo que se diz pai - é "dada" em casamento para outro homem violento chamado de Sinhô. Sinhô queria sua irmã mais nova Nettie, por achar Celie feia e sem graça, mas acabou casando com Celie, que pensava apenas em proteger a irmã, pois o amor entre elas é muito grande. A vida com Sinhô consegue ser pior do que a vida com o pai. Cuidar de seus filhos, apanhar e passar por humilhações. Além de ficar longe da irmã Nettie - que virara missionária na África - e de seus filhos, feitos pelas violências do pai e dados a outra família por ele.

Um belo dia, chega  em sua casa Shug Avery, uma cantora, amante de Sinhô. A partir daí, aos poucos, é claro, Celie passa a enxergar a vida de outra forma e começa seu processo de libertação do marido e daquela vida. O medo e a repulsa que sente pelos homens fica mais evidente com a aproximação das duas, que vivem um romance, chegando a morar juntas.

Enfim, nada que eu disser desse livro vai conseguir traduzir meu encantamento e amor pela história. Com certeza entrou na lista de meus livros preferidos. Peguei na Biblioteca Central da Bahia, mas assim que puder, com certeza, vou comprar. Os textos das cartas das irmãs são fortes e não simplesmente narram os acontecimentos da vida, mas sim, dão aulas para a gente em vários setores. Aulas de África e de tribos africanas, aula sobre o racismo e a escravidão nos EUA, aula de língua, já que até o pidgin (quem é de letras vai saber o que é) é citado; aula de feminismo, aula de luta por direitos, aula de vida e até ensinamentos de como lidar com fins de relacionamentos. É um grande livro e eu estou maravilhada até agora. Fico por aqui recomendando esse livro incrível e ainda tão atual. Leiam! Vale muito a pena.




Rafaela Valverde

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Cinismo - Tati Bernardi

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E o único jeito de ser mais malandro 
que a tristeza é sendo cínico.
E lá vai a garota. 
Comprar pão quente com seu cinismo. 
Comprar absorvente com seu cinismo. 
Amar com seu cinismo. 
Porque só o cinismo vence a tristeza.
Porque só o cinismo é mais triste do que a tristeza. 
E eu virei um muro alto feito de pedras cheias de pontas. 
Tudo isso só porque eu quero tanto um pouco de carinho 

que acabei ficando com medo de não ganhar.



Rafaela Valverde

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Uns olhos inquietos procurando pretextos volúveis para viver

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Sempre fui a que está sozinha. É muito raro alguém me encontrar acompanhada. Observo as pessoas atentamente. Se as todos soubessem o que olhares e corpos dizem, com certeza falariam menos e olhariam mais. Será que alguém sabe a carga que carrega um olhar? Um único olhar? Sentada, sozinha é claro, no restaurante universitário consigo identificar vários tipos de pessoas. As que sofrem e as que fazem sofrer; calouros sorridentes sem nem imaginar o que lhes esperam. Além disso é lindo ver esses mesmos calouros perdidos sem saber onde pega o garfo e onde pega a faca. Já passei por isso e não tem muito tempo não. Início do ano passado era eu, caloura, o motivo da chacota, das observações dos veteranos. 

Dá para saber quem é o falastrão e o caladão. Dá para perceber quem está apaixonado ou não. Só observando as pessoas no RU. Quero terminar meu almoço e ir lá pra fora fumar. Eu não gosto de conversar à toa e um cigarro sempre cai bem, ninguém encosta em mim com toda aquela fumaça. Não é que eu não goste de conversar. Eu até gosto, sim. Mas conversa tem que ter propósito. A meu ver. Não quero tagarelar. Jogar conversa fora ou falar só pra não ficar calada. O que eu quero mesmo é ficar calada e observar. Um passarinho dançante na grama lá fora, um pai beijando o filho antes de ele sair do carro, flores desabrochando... Sabe...? Todas essas coisas piegas da vida, que só gente piegas observa.

E eu sou desse tipo de gente. O mais cafona possível. Pieguice é meu sobrenome. E olha que frase ridícula que evidencia exatamente isto que estou falando agora. Tinha um menino lá, no RU, com uma camisa rosa desbotada. Que tom de rosa horrível. Ele ficava olhando para a menina que estava bem a sua frente de uma forma quase idólatra. Não sei se eles se conheciam. Não vi os dois conversando. Mas vi como ele olhava para ela. Ninguém olha pra mim daquele jeito. FATO! 

Depois do menino da camisa horrível, um torcedor do Bahia (só podia ser) gritava para um gostosão rasta que estava do outro lado do restaurante  Bom, pelo menos isso despertou minha atenção e pude me deliciar com aquele colírio. Ele logo sumiu das minhas vistas, já que eu estava mais interessada na minha sobremesa. Sinto muito, gostosão! Um docinho depois do almoço  é melhor que você sim.

Lá fora, já com o cigarro na mão, pensava no ônibus que passaria dali a cinco minutos e pensava em todas aquelas pessoas que formam meus repertórios de observação diária. Se não fossem essas pessoas e suas peripécias com certeza eu seria muito mais solitária, cá com meus botões e cigarros. Maços e mais maços. Dúvidas constantes sobre tudo que todo mundo tem certeza. Olho pra aquele tubinho branco e penso: "essa porra vai me matar..."

E aí vem tudo à tona. "O que é que eu tô fazendo com minha vida? Eu não tagarelo, tô sempre sozinha, sou essa demente observadora, piegas e cafona e ainda por cima fumo." Todo o meu pulmão deve estar preto agora. Será que estar preto é mesmo ruim? Por que toda essa coisa com a cor preta? O preto das substâncias do cigarro é tão lindo! E quem é que me garante que aquele pulmão rosinha, fofinho é o normal? É o saudável? Ninguém me garante, porque sei que tem bebês que nascem com problemas no pulmão e nunca fumaram. Minhas maratonas de Grey's Anatomy me deixaram assim metida a entendida dos assuntos medicamentosos. Olho pro cigarro de novo, sendo desperdiçado, queimando ali sozinho... "Ah vou fumar mesmo. Porra!"

Olhei para a frente, em meio as árvores. Um homem me observava.  Também fumava. Ele era claramente homossexual, então sem essa idiotice clichê de climinha romântico nesse texto. Não. Reconheci imediatamente que seu interesse em minha briga com o cigarro era bem parecido com meu interesse por todas as pessoas... O menino da camisa horrível, os calouros, o gostosão de cabelo rasta... Eu gosto de observar pessoas, de olhar seus olhares e expressões. Essa coisa toda me deixa menos sombria e solitária. Sorri amarelamente, sem mostrar os dentes. Era o melhor sorriso que podia oferecer. Depois caminhei para o ponto de ônibus, ainda fumando.



Rafaela Valverde

domingo, 5 de novembro de 2017

Assim eu vejo a vida - Cora Coralina



A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.



Rafaela Valverde

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Quarto de Despejo: diário de uma favelada - Carolina Maria de Jesus

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Quarto de Despejo: diário de uma favelada é um livro lançado em 1960  e escrito por Carolina Maria de Jesus. A autora trazia em seus relatos quase diários, seu dia a dia na  antiga favela do Canindé em São Paulo. Lia bastante e gostava de escrever, registrando como fotografias os fatos de sua vida cotidiana em diários.

O livro foi publicado por meio do jornalista Audálio Dantas, que em reportagem visitou a favela e conheceu a escritora, se oferecendo para levar os manuscritos em editoras. Carolina narra os fatos da sua vida pessoal com os três filhos pequenos entre 1955 e 1960. A pobreza, a fome e o sofrimento que passavam, mesclados com fatos das vidas alheias, seus vizinhos. Esses fatos davam um panorama geral de como funcionava a favela. Brigas entre vizinhos, confusões, festas, etc. Ela morava em um barracão com os três filhos. Catava papel e outros materiais descartáveis para sobreviver.

O livro é basicamente isso. O diário de Carolina, contando as desventuras da vida de favelada. Ou seja, uma favelada contando, falando de si e da sua realidade. Ao invés de pessoas de fora fazerem isso. O livro, segundo o site Wikipédia, é considerado um dos marcos da literatura feminina brasileira. Foi traduzido para mais de treze idiomas. O engraçado é que eu nunca havia escutado falar no livro e na autora antes de entrar no curso de Letras. Engraçado, não. Trágico. E horrível. Mas que bom que pude ter acesso à essa obra agora. E eu gostei muito! É um livro bem político. Forte!

A escrita foi conservada como a original. Com os "erros" de ortografia e concordância também conservados, para preservar a escrita original. É o livro mais diferente que eu já li na minha vida. E já estava me sentindo fazendo parte daquela rotina. Que apesar de sofrida demonstrava que ela sempre foi uma mulher muito forte, assim como todas as mulheres negras e faveladas que eu conheço. Muito bom dar voz a quem tem voz. Pena não ter lido antes. Mas com certeza entrou na lista dos meus livros preferidos. 




Rafaela Valverde




Tuas Mãos - Pablo Neruda

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Quando tuas mãos saem,
amada, para as minhas,
o que me trazem voando?
Por que se detiveram
em minha boca, súbitas,
e por que as reconheço
como se outrora então
as tivesse tocado,
como se antes de ser
houvessem percorrido
minha fronte e a cintura?

Sua maciez chegava
voando por sobre o tempo,
sobre o mar, sobre o fumo,
e sobre a primavera,
e quando colocaste
tuas mãos em meu peito,
reconheci essas asas
de paloma dourada,
reconheci essa argila
e a cor suave do trigo.

A minha vida toda
eu andei procurando-as.
Subi muitas escadas,
cruzei os recifes,
os trens me transportaram,
as águas me trouxeram,
e na pele das uvas
achei que te tocava.
De repente a madeira
me trouxe o teu contacto,
a amêndoa me anunciava
suavidades secretas,
até que as tuas mãos
envolveram meu peito
e ali como duas asas
repousaram da viagem.




Rafaela Valverde

Os dias sem panelas

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E agora onde estão suas panelas?
Sua indignação?
Jogou a culpa nelas
E agora tá perdidão!
A coisa só faz piorar
Corrupção, sujeira, a gente feito de otário
E a gente não consegue nem chorar
Um bando de salafrário
Lá no topo
Escolhido por nós
E a gente arrastando o corpo
Completamente sem voz
E agora onde estão vocês?
O que fazem com toda essa sujeira?
Empurram para debaixo do tapete,
Assoviam
E fingem que não é com vocês!
E aí? Onde estão suas panelas?




Rafaela Valverde

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

A vagina - Maria Teresa Horta

Maria Teresa Horta


É cálida flor
E trópica mansamente
De leite entreaberta às tuas
Mãos

Feltro das pétalas que por dentro
Tem o felpo das pálpebras
Da língua a lentidão

Guelra do corpo
Pulmão que não respira

Dobada em muco
Tecida em água

Flor carnívora voraz do próprio
suco
No ventre entorpecida
Nas pernas sequestrada.




Rafaela Valverde

Fim

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O cabelo solto passeia no vento
Ela olha para o horizonte
Lá no fim do mar
Procurando alento

Tentou encontrar a fonte
Cansou de procurar
Amor, paz e alimento
O coração já sucumbiu

Não quer mais se enfeitar
Esqueceu o arroubamento
E cansou de imaginar
Sua esperança ruiu

Ninguém ouve seu lamento
Em silêncio, pôs se a gritar
Continua olhando o nada
A natureza brincando com seu corpo

Em um baile de conformismo dançar
Lutar contra, suar frio
Sentir ira e calmaria

Tudo ao mesmo tempo
Enquanto olha pro final do mar




Rafaela Valverde

Como Eu era Antes de Você - Jojo Moyes

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O livro Como Eu era Antes de Você da escritora inglesa Jojo Moyes é de 2013 traz a história de Louisa Clark e Will Traynor, os protagonistas mais autênticos dos últimos tempos. Lou é uma jovem de 26 anos sem perspectiva, sem sonhos e ambição. Ainda mora - em uma pequena cidade, rodeada por um antigo castelo - com os pais e dorme em um minúsculo quartinho.

Um dia, o café em que ela trabalhava há anos fecha, o que faz Lou perder o emprego e se ver ainda mais perspectivas. Até que, decidida a não ficar desempregada, Lou resolve ir, a contragosto, à uma entrevista para a vaga de cuidadora. Lou finalmente conheceu a bela mansão dos Traynor. E após uma entrevista, mesmo sem acreditar, conseguiu o emprego.

Will não recebe muito bem a nova cuidadora, mas aos poucos uma amizade vai sendo construída, com muito esforço por parte de Lou. Ao mesmo tempo, senti um pouco de egoísmo por parte dela em achar que ele teria que estar feliz e satisfeito, mesmo de ser paraplégico. Mas entendo que fazia parte do trabalho dela colocá-lo para cima, deixá-lo feliz e ela tentou muito até conseguir. Além disso tem a questão da composição de personagens. Nenhum personagem é uma coisa só. Aliás nenhuma pessoa é uma coisa só. Louisa se mostrou muito dedicada, sobretudo com a amizade  e afeto que surge entre eles.

Com o tempo os personagens vão se construindo e a gente percebe o quanto eles são complexos, especialmente os principais. Eu me apaixonei por Will e Lou. Eram engraçados e possuíam química, sintonia... Enfim, foram escritos para isso. Aliás, é um livro muito bem escrito, com boas tiradas, conflitos de gente como a gente, como desemprego, problemas familiares, financeiros, etc... Em muitas coisas me senti muito parecida com Louisa: a irmã mais velha que não sabia muito bem o que queria, sem emprego e preocupada com o bem estar da família.

Em vários momentos do livro eu ri alto. Há muitas coisas engraçadas. Mas também há muitas questões importantes a serem tratadas, além de emocionantes, como os momentos em que Will ficava doente. Chorei muito no final do livro, mas durante a leitura eu me diverti muito. Em alguns momentos a narrativa mudava um pouco e a história passa a ser contada a partir do ponto de vista da mãe, do pai e do enfermeiro de Will, além da irmã de Louisa. Dá nos visões diferentes da mesma história. Pontos de vista diversos sobre um mesmo ponto da história. Isso deu ainda mais dinamismo à estória.

Confesso que tive um pouco de preconceito com o livro no início. Por ser um livro bem popular, bastante falado e que virou até filme, fiquei meio receosa de ter um novo Cinquenta Tons de Cinza nas mãos. Mas o livro me surpreendeu muito. Gostei bastante e com certeza é um dos melhores livros que li ultimamente. Com certeza vou comprá-lo um dia, já que o exemplar que eu li é da minha irmã.

Para finalizar esse pequeno texto de impressões, gostaria de ressaltar que é um livro triste e diferente dos clichês que vemos por aí. Não há "final feliz." O feliz é todo o decorrer do livro, a alegria e os desafios de viver, apesar de tudo. É essa a principal mensagem que o livro passa: "viva a vida, porque ela vai acabar." Outro ponto que quero ressaltar é que ficaria ainda menos clichê se não houvesse o romance, o amor romântico entre os dois.  Achei desnecessário. A grande amizade que se desenvolveu entre eles já seria suficiente, mas acredito que o romance surja mais por uma questão comercial mesmo. Atrair mais leitores com paixão. Mas, ainda assim, não são dois jovens desmiolados, são duas pessoas maduras, que já passaram muitas coisas e se encontraram no momento certo de suas vidas. Aprenderam um com o outro e nos deram uma linda e triste estória.




Rafaela Valverde

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Era Uma Vez - Kell Smith





Música é poesia. Espero que não enjoem essa música que nem fizeram com Trem Bala. Oremos!


Era uma vez
O dia em que todo dia era bom
Delicioso gosto e o bom gosto das nuvens
Serem feitas de algodão
Dava pra ser herói no mesmo dia
Em que escolhia ser vilão
E acabava tudo em lanche
Um banho quente e talvez um arranhão
Dava pra ver, a ingenuidade a inocência
Cantando no tom
Milhões de mundos e os universos tão reais
Quanto a nossa imaginação
Bastava um colo, um carinho
E o remédio era beijo e proteção
Tudo voltava a ser novo no outro dia
Sem muita preocupação

É que a gente quer crescer
E quando cresce quer voltar do início
Porque um joelho ralado
Dói bem menos que um coração partido
É que a gente quer crescer
E quando cresce quer voltar do início
Porque um joelho ralado
Dói bem menos que um coração partido

Dá pra viver
Mesmo depois de descobrir que o mundo ficou mau
É só não permitir que a maldade do mundo
Te pareça normal
Pra não perder a magia de acreditar na felicidade real
E entender que ela mora no caminho e não no final
É que a gente quer crescer
E quando cresce quer voltar do início
Porque um joelho ralado
Dói bem menos que um coração partido
É que a gente quer crescer
E quando cresce quer voltar do início
Porque um joelho ralado
Dói bem menos que um coração partido

Era uma vez

Eu escrevo

Resultado de imagem para escrever


Eu escrevo porque tudo dentro de mim exige
Escrevo por ser um caminho sem volta
Escrevo por estar no meu âmago esse tal desejo
O ato de escrever é o maior que em mim existe
É o que me faz estar viva e querer continuar
A vida precisa ser registrada
E escrevendo assim a é
E aproveitando o ensejo
Vivo muito mais
Para ter o que escrever
Quem não vive não tem bagagem
Assim como quem não lê
Não sei como alguém vive sem ler
Não sei como consegue 
Ler é inspirar
Escrever é expirar
Um interna
O outro externa
Eu não sei os outros, mas eu vivo para escrever
E escrevo para viver
Coisas indissociáveis
Inseparáveis
Eu escrevo porque tudo dentro de mim exige
Escrevo por ser um caminho sem volta
Escrevo porque minha mente implora
À noite, mergulhada na ansiedade eu penso:
"Preciso escrever sobre isso amanhã..."
E às vezes
As palavras dançam em meus pensamentos
Para que eu não as esqueca
Escrevo porque assim foi determinado
Em algum momento antes de eu nascer
Ou sei lá pode ter sido depois também
Não sei
Eu sei que eu escrevo
Porque o que sinto é intenso demais para ficar apenas na minha cabeça
E a forma de saírem daqui, meus sentimentos e as loucuras que penso é através da escrita
Ainda não encontrei forma melhor
Eu escrevo porque tudo dentro de mim exige
Escrevo por ser um caminho sem volta
Eu escrevo
Eu apenas escrevo
Escritora
Narradora da vida e dos fatos cotidianos
Faço graça escrevendo
Conto coisas escrevendo
Falo de mim escrevendo 
Vivo escrevendo
Caneta, papel, lápis, tela, teclado.
Eu escrevo
E sempre vou escrever
Porque o momento pede
A vida exige
E eu preciso
Desesperadamente
Escrever
É só o que eu faço
É o que eu faço de melhor
É o que me satisfaz
É a minha cachaça
É a minha vida!
É o que eu nasci para fazer
É o que me faz tão igual a todo mundo e ao mesmo tempo tão diferente.




Rafaela Valverde


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