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sábado, 9 de dezembro de 2017

Sintonia para pressa e presságio - Paulo Leminski

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Escrevia no espaço.
Hoje, grafo no tempo,
na pele, na palma, na pétala,
luz do momento.

Sôo na dúvida que separa
o silêncio de quem grita
do escândalo que cala,
no tempo, distância, praça,
que a pausa, asa, leva
para ir do percalço ao espasmo.

Eis a voz, eis o deus, eis a fala,
eis que a luz se acendeu na casa
e não cabe mais na sala.




Rafaela Valverde

Agosto 1964 - Ferreira Gullar



Entre lojas de flores e de sapatos, bares,

mercados, butiques,

viajo

num ônibus Estrada de Ferro – Leblon.

Volto do trabalho, a noite em meio,

fatigado de mentiras.

O ônibus sacoleja. Adeus, Rimbaud,

relógio de lilases, concretismo,

neoconcretismo, ficções da juventude, adeus,

que a vida

eu a compro à vista aos donos do mundo.

Ao peso dos impostos, o verso sufoca,

a poesia agora responde a inquérito policial-militar.

Digo adeus à ilusão

mas não ao mundo. Mas não à vida,

meu reduto e meu reino.

Do salário injusto,

da punição injusta,

da humilhação, da tortura,

do terror,

retiramos algo e com ele construímos um artefato
um poema

uma bandeira

(do livro Dentro da noite veloz – Ferreira Gullar)





Rafaela Valverde

Livros Outros Jeitos de Usar a Boca de Rupi Kaur e Um Útero é do Tamanho de um Punho de Angélica Freitas

Queria bater vinte livros lidos no ano e consegui. Quero falar aqui sobre quatro deles, que li recentemente e que foram livros bastante comentados e lidos ao longo de 2017. São ele: Outros Jeitos de Usar a Boca Rupi Kaur; Um Útero é do Tamanho de um Punho de Angélica Freitas; Para Educar Crianças Feministas e Sejamos Todos Feministas de Chimamanda Ngozi Adichie.

Resultado de imagem para outros jeitos de usar a boca resenhaDevo dizer que são bons livros, pequenos livros, livros para serem lidos rapidamente. Mas não significa que esses livros não tenham o que dizer. Eles têm e muito. O primeiro é de uma autora indiana, hoje residente no Canadá. O livro desde o início me chamou atenção pelo nome e por uma indicação feita em um quadro de livros na Rádio Metrópole. Daí a curiosidade foi aumentando cada vez mais e um belo dia consegui ler. Os textos foram escritos em formato de poema e são maravilhosos. Chorei um pouco lendo alguns, pois falavam de mim mesma. O sofrimento por amor, pela perda, a dor pelo outro que  foi embora... A cura (que inclusive é um dos capítulos do livro...)Ainda traz questões sobre violência contra mulher, questões de aceitação e amor pórprio. É um livro muito tocante.

quando você estiver machucada
e ele estiver bem longe
não se pergunte
se você foi o bastante
o problema é que
você foi mais que o bastante
e ele não conseguiu carregar 


Esse é um dos poemas ou trechos que mais me marcou, por razões muito óbvias, é só ler o poema e saber que tive uma ou talvez duas estórias assim.  Quem é que não teve? Pois bem, como eu já disse o livro aborda temas muito sérios. Assim, trago mais um trechinho:

sexo exige o consentimento dos dois
se uma pessoa está ali deitada sem fazer nada
porque não está pronta
ou não está no clima
ou simplesmente não quer
e mesmo assim a outra está fazendo sexo
com o seu corpo isso não é amor
isso é estupro 

Nem preciso dizer que amei esse livro não é? O próximo da minha listinha é o ó útero é do Tamanho de Um Punho de Angélica Freitas que tem o mesmo sobrenome que eu e de quem eu nunca tinha ouvido falar. É um livro que aborda questões feministas também e eu nem preciso dizer mais nada, não é mesmo? Sobretudo pelo nome do livro já é possível compreender do que se trata. É uma boa seleção de textos, eu também gostei, apesar de ter me tocado e me identificado menos que o anterior. Esse é o meu trecho selecionado do livro:

a mulher é uma construção
deve ser
a mulher basicamente é pra ser
um conjunto habitacional
tudo igual
tudo rebocado
só muda a cor
particularmente sou uma mulher
de tijolos à vista
nas reuniões sociais tendo a ser
a mais mal vestida
digo que sou jornalista

A postagem ficou muito grande, portanto vou falar um pouco dos livros de Chimananda em uma próxima postagem. Não tenho intenção que isto seja uma resenha, apenas quero registrar e compartilhar com vocês as minhas leituras. São livros tão subjetivos, leiam por vocês mesmos e criem suas próprias opiniões.




Rafaela Valverde




sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Com licença poética - Adélia Prado


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Eu amo esse poema!

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
-- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.





Rafaela Valverde

terça-feira, 28 de novembro de 2017

A rosa de Hiroshima - Vinícius de Moraes

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Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A antirrosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.



Rafaela Valverde

domingo, 26 de novembro de 2017

Emergência - Mário Quintana

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Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
- para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.





Rafaela Valverde

É triste crescer sem conhecer música

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,
Percebo que as novas gerações, os adolescentes de hoje, 2017, estão pobres no que diz respeito a  um mínimo conhecimento musical. E não falo isso com preconceito. Longe de mim. Amo os pré-adolescentes e adolescentes. Mas parece que há um vácuo no que se refere à boa música brasileira, por exemplo. Não estou aqui - e já venho me defender de antemão - dizendo que os meninos ouvem música ruim, até porque não acho isso. Sempre ouvi as músicas "para adolescente" da minha época, mas influenciada por minha mãe, sempre gostei de vários tipos de música, especialmente MPB, samba e tudo mais... Minha mãe sempre foi eclética e sua maternidade na juventude me ajudou muito nesse sentido.

Sou apaixonada por música a ponto de ouvir música o dia todo, todos os dias. Não existe um dia na minha vida que pelo menos eu não cantarole alguma canção, de qualquer ritmo. Cresci ouvindo muitos ritmos diferentes e não posso deixar de falar também de algumas tias, que me influenciaram com contundentes participações durante toda minha vida. Cresci ouvindo Marisa Monte, Kid Abelha, Marina Lima, Caetano Veloso, Elba Ramalho, Sandra de Sá, Fagner, Simone, Cássia Eller, Zélia Duncan, Renato Russo e sua genial Legião; Arlindo Cruz, Benito de Paula. Luis Melodia, Emílio Santiago, Gilberto Gil, Djavan, Ana Carolina, grandes nomes do Axé como Luis Caldas e outros... Nossa, a lista é muito grande e  impossível de ser toda descrita aqui.

O que quero dizer com isso - não é ser saudosista, nem afirmar a "superioridade" da minha geração - não é nada disso... Quero aqui apresentar algumas coisas que tenho pensado ultimamente, sobretudo a partir de contatos que tenho tido com crianças e adolescentes. Dou aula particular e um dos meus ex alunos tem dez anos. Tivemos juntos esse ano e em uma das provas que respondemos trazia a música Homem Aranha de Jorge Vercilo. Conheço essa música há quase quinze anos, já que ela foi lançada em 2003 e conheço e gosto desde seu lançamento. É uma música bastante tocada e difundida em todos esses anos, chega até a enjoar e ele me disse que não conhecia, nunca tinha ouvido e nem quando eu cantei ele reconheceu. Achei aquilo inacreditável. Como é possível alguém, mesmo que seja criança, não conhecer essa música? Fiquei estupefata, não vou mentir! Mas não foi julgamento, foi só susto mesmo. Outro caso foi de minha ex cunhada, de dezesseis anos que não conhecia e nem sei se ainda conhece a música Pais e Filhos de Legião Urbana. Também não acreditei. Uma prima, da mesma idade, não acredita até hoje eu saber cantar, segundo ela, "quase todas" as músicas da Nova Brasil FM...

Posso observar que os pais, nesses casos especificamente, não ouvem muito música, não são apaixonados por música como eu observava minha mãe ser. Essa tradição não está mais sendo passada de pais para filhos. Entendo que as gerações são diferentes, não estou falando sobre isso.  Mas acho muito triste que os  novos jovens não conheçam a riqueza e beleza musical do nosso país... Temos tanta coisa boa, tanto repertório bom, temos música para praticamente tudo. Temos belas poesias sendo interpretadas por cantores geniais... Compositores que musicam poesia. Há um amor nisso tudo que deve ser despertado, cultivado e mantido. A meu ver, está sendo criada uma geração pobre, com pouco conhecimento das mais belas canções do mundo. Isso me deixa muito triste mesmo. Nós, adultos mais velhos temos obrigação de apresentar grandes nomes e grandes letras da MPB para nossas novas gerações. Gosto de Funk, adoro Rap, Pop, sertanejo me conquistou, mas gosto também dos ritmos, vozes, sons e letras de outrora e isso me foi dado, como um grande presente, durante minha infância e adolescência e graças a minha mãe e a algumas dessas tias...




Rafaela Valverde

Motivo - Cecília Meireles


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Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.



Rafaela Valverde

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Filosofia - Ascenso Ferreira

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Hora de comer — comer!

Hora de dormir — dormir!

Hora de vadiar — vadiar!

Hora de trabalhar?

— Pernas pro ar que ninguém é de ferro!






Rafaela Valverde

sábado, 18 de novembro de 2017

Lépida e leve - Gilka Machado

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Lépida e leve
em teu labor que, de expressões à míngua,
O verso não descreve...
Lépida e leve,
guardas, ó língua, em seu labor,
gostos de afagos de sabor.


És tão mansa e macia,
que teu nome a ti mesmo acaricia,
que teu nome por ti roça, flexuosamente,
como rítmica serpente,
e se faz menos rudo,
o vocábulo, ao teu contacto de veludo.


Dominadora do desejo humano,
estatuária da palavra,
ódio, paixão, mentira, desengano,
por ti que incêndio no Universo lavra!...
És o réptil que voa,
o divino pecado
que as asas musicais, às vezes, solta, à toa,
e que a Terra povoa e despovoa,
quando é de seu agrado.


Sol dos ouvidos, sabiá do tato,
ó língua-idéia, ó língua-sensação,
em que olvido insensato,
em que tolo recato,
te hão deixado o louvor, a exaltação!


— Tu que irradiar pudeste os mais formosos poemas!
— Tu que orquestrar soubeste as carícias supremas!
Dás corpo ao beijo, dás antera à boca, és um tateio de
alucinação,
és o elástico da alma... Ó minha louca
língua, do meu Amor penetra a boca,
passa-lhe em todo senso tua mão,
enche-o de mim, deixa-me oca...
— Tenho certeza, minha louca,
de lhe dar a morder em ti meu coração!...


Língua do meu Amor velosa e doce,
que me convences de que sou frase,
que me contornas, que me veste quase,
como se o corpo meu de ti vindo me fosse.
Língua que me cativas, que me enleias
os surtos de ave estranha,
em linhas longas de invisíveis teias,
de que és, há tanto, habilidosa aranha...


Língua-lâmina, língua-labareda,
língua-linfa, coleando, em deslizes de seda...
Força inféria e divina
faz com que o bem e o mal resumas,
língua-cáustica, língua-cocaína,
língua de mel, língua de plumas?...


Amo-te as sugestões gloriosas e funestas,
amo-te como todas as mulheres
te amam, ó língua-lama, ó língua-resplendor,
pela carne de som que à idéia emprestas
e pelas frases mudas que proferes
nos silêncios de Amor!...

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Mapa - Murilo Mendes

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Me colaram no tempo, me puseram
uma alma viva e um corpo desconjuntado. Estou
limitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo,
a leste pelo Apóstolo São Paulo, a oeste pela minha educação.

Me vejo numa nebulosa, rodando, sou um fluido,
depois chego à consciência da terra, ando como os outros,
me pregam numa cruz, numa única vida.
Colégio. Indignado, me chamam pelo número, detesto a hierarquia.

Me puseram o rótulo de homem, vou rindo, vou andando, aos solavancos.
Danço. Rio e choro, estou aqui, estou ali, desarticulado,
gosto de todos, não gosto de ninguém, batalho com os espíritos do ar,
alguém da terra me faz sinais, não sei mais o que é o bem
nem o mal.

Minha cabeça voou acima da baía, estou suspenso, angustiado, no éter,
tonto de vidas, de cheiros, de movimentos, de pensamentos,
não acredito em nenhuma técnica.

Estou com os meus antepassados, me balanço em arenas espanholas,
é por isso que saio às vezes pra rua combatendo personagens imaginários,
depois estou com os meus tios doidos, às gargalhadas,
na fazenda do interior, olhando os girassóis do jardim.

Estou no outro lado do mundo, daqui a cem anos, levantando populações…
Me desespero porque não posso estar presente a todos os atos da vida.

Onde esconder minha cara? O mundo samba na minha cabeça.
Triângulos, estrelas, noites, mulheres andando,
presságios brotando no ar, diversos pesos e movimentos me chamam a atenção,
o mundo vai mudar a cara,
a morte revelará o sentido verdadeiro das coisas.Andarei no ar.

Estarei em todos os nascimentos e em todas as agonias,
me aninharei nos recantos do corpo da noiva,
na cabeça dos artistas doentes, dos revolucionários.

Tudo transparecerá:
vulcões de ódio, explosões de amor, outras caras aparecerão na terra,
o vento que vem da eternidade suspenderá os passos,
dançarei na luz dos relâmpagos, beijarei sete mulheres,
vibrarei nos cangerês do mar, abraçarei as almas no ar,
me insinuarei nos quatro cantos do mundo.

Almas desesperadas eu vos amo. Almas insatisfeitas, ardentes.
Detesto os que se tapeiam,
os que brincam de cabra-cega com a vida, os homens “práticos”…
Viva São Francisco e vários suicidas e amantes suicidas,
os soldados que perderam a batalha, as mães bem mães,
as fêmeas bem fêmeas, os doidos bem doidos.
Vivam os transfigurados, ou porque eram perfeitos ou porque jejuavam muito…
viva eu, que inauguro no mundo o estado de bagunça transcendente.

Sou a presa do homem que fui há vinte anos passados,
dos amores raros que tive,
vida de planos ardentes, desertos vibrando sob os dedos do amor,
tudo é ritmo do cérebro do poeta. Não me inscrevo em nenhuma teoria,
estou no ar,
na alma dos criminosos, dos amantes desesperados,
no meu quarto modesto da praia de Botafogo,
no pensamento dos homens que movem o mundo,
nem triste nem alegre, chama com dois olhos andando,
sempre
em transformação.




Rafaela Valverde

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Novena vespertina



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Ela caminha até o fim e para na esquina
Olha para o entardecer
E sabe que essa é sua sina
Não quer se embrutecer

Precisa continuar serena
Mesmo com essa rotina
Seguiria como uma novena
Já se preparava para a solidão vespertina

Causada pelo tédio
Daquela infinita caminhada
Mas não há remédio

As mãos atadas
Caminha até a esquina
Até o fim!




Rafaela Valverde





domingo, 12 de novembro de 2017

Na Boca - Mário de Andrade

Como ensinar literatura - Zonacurva

 Sobre esse poema, preciso destacar a melhor parte: Felizmente existe o álcool na vida. Hahahahaha


Sempre tristíssimas estas cantigas de carnaval
Paixão
Ciúme
Dor daquilo que não se pode dizer

Felizmente existe o álcool na vida
e nos três dias de carnaval éter de lança-perfume
Quem me dera ser como o rapaz desvairado!
O ano passado ele parava diante das mulheres bonitas
e gritava pedindo o esguicho de cloretilo:
- Na boca! Na boca!
Umas davam-lhe as costas com repugnância
outras porém faziam-lhe a vontade.

Ainda existem mulheres bastante puras para fazer vontade aos viciados

Dorinha meu amor...
Se ela fosse bastante pura eu iria agora gritar-lhe como o outro:
                                                                             [- Na boca! Na boca!




Rafaela Valverde

Outra Vez- Saulo




Música maravilhosa!



Outra noite sem você
Outra vez sem ombro pra recostar
Outra noite sem dormir
Menos uma chance pra sonhar

Fecho os olhos me concentro
Talvez o pensamento me mostre um filme seu
Te veja feliz, te veja cantando
Pra me tirar a saudade e aliviar a dor
Queria estar perto de você

Ouvir suas historias de princesa
Ver o seu sorriso de menina
E sentir sua pureza, te aconselhar como amigo
Te livrar do perigo, te desejar sorte
Te abraçar forte e dizer

Faz tempo que eu não vejo o sol
Faz tempo que eu ando só
Faz tempo que eu não sou seu namorado amor
'Tô' sem saber o que fazer
Queria ficar com você
Se for pra enlouquecer que seja do seu lado




Rafaela Valverde

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Pronominais - Oswald de Andrade


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Esse é um poema interessante para pensar sobre a língua portuguesa, sobre a fala, suas mudanças e espontaneidade. Gosto dessa reflexão se que se faz na obra, tão simples, resumindo as discussões que fazemos no curso de Letras.
Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco 
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro.



Rafaela Valverde

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Cinismo - Tati Bernardi

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E o único jeito de ser mais malandro 
que a tristeza é sendo cínico.
E lá vai a garota. 
Comprar pão quente com seu cinismo. 
Comprar absorvente com seu cinismo. 
Amar com seu cinismo. 
Porque só o cinismo vence a tristeza.
Porque só o cinismo é mais triste do que a tristeza. 
E eu virei um muro alto feito de pedras cheias de pontas. 
Tudo isso só porque eu quero tanto um pouco de carinho 

que acabei ficando com medo de não ganhar.



Rafaela Valverde

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Tuas Mãos - Pablo Neruda

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Quando tuas mãos saem,
amada, para as minhas,
o que me trazem voando?
Por que se detiveram
em minha boca, súbitas,
e por que as reconheço
como se outrora então
as tivesse tocado,
como se antes de ser
houvessem percorrido
minha fronte e a cintura?

Sua maciez chegava
voando por sobre o tempo,
sobre o mar, sobre o fumo,
e sobre a primavera,
e quando colocaste
tuas mãos em meu peito,
reconheci essas asas
de paloma dourada,
reconheci essa argila
e a cor suave do trigo.

A minha vida toda
eu andei procurando-as.
Subi muitas escadas,
cruzei os recifes,
os trens me transportaram,
as águas me trouxeram,
e na pele das uvas
achei que te tocava.
De repente a madeira
me trouxe o teu contacto,
a amêndoa me anunciava
suavidades secretas,
até que as tuas mãos
envolveram meu peito
e ali como duas asas
repousaram da viagem.




Rafaela Valverde

Os dias sem panelas

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E agora onde estão suas panelas?
Sua indignação?
Jogou a culpa nelas
E agora tá perdidão!
A coisa só faz piorar
Corrupção, sujeira, a gente feito de otário
E a gente não consegue nem chorar
Um bando de salafrário
Lá no topo
Escolhido por nós
E a gente arrastando o corpo
Completamente sem voz
E agora onde estão vocês?
O que fazem com toda essa sujeira?
Empurram para debaixo do tapete,
Assoviam
E fingem que não é com vocês!
E aí? Onde estão suas panelas?




Rafaela Valverde

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Fim

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O cabelo solto passeia no vento
Ela olha para o horizonte
Lá no fim do mar
Procurando alento

Tentou encontrar a fonte
Cansou de procurar
Amor, paz e alimento
O coração já sucumbiu

Não quer mais se enfeitar
Esqueceu o arroubamento
E cansou de imaginar
Sua esperança ruiu

Ninguém ouve seu lamento
Em silêncio, pôs se a gritar
Continua olhando o nada
A natureza brincando com seu corpo

Em um baile de conformismo dançar
Lutar contra, suar frio
Sentir ira e calmaria

Tudo ao mesmo tempo
Enquanto olha pro final do mar




Rafaela Valverde

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Era Uma Vez - Kell Smith





Música é poesia. Espero que não enjoem essa música que nem fizeram com Trem Bala. Oremos!


Era uma vez
O dia em que todo dia era bom
Delicioso gosto e o bom gosto das nuvens
Serem feitas de algodão
Dava pra ser herói no mesmo dia
Em que escolhia ser vilão
E acabava tudo em lanche
Um banho quente e talvez um arranhão
Dava pra ver, a ingenuidade a inocência
Cantando no tom
Milhões de mundos e os universos tão reais
Quanto a nossa imaginação
Bastava um colo, um carinho
E o remédio era beijo e proteção
Tudo voltava a ser novo no outro dia
Sem muita preocupação

É que a gente quer crescer
E quando cresce quer voltar do início
Porque um joelho ralado
Dói bem menos que um coração partido
É que a gente quer crescer
E quando cresce quer voltar do início
Porque um joelho ralado
Dói bem menos que um coração partido

Dá pra viver
Mesmo depois de descobrir que o mundo ficou mau
É só não permitir que a maldade do mundo
Te pareça normal
Pra não perder a magia de acreditar na felicidade real
E entender que ela mora no caminho e não no final
É que a gente quer crescer
E quando cresce quer voltar do início
Porque um joelho ralado
Dói bem menos que um coração partido
É que a gente quer crescer
E quando cresce quer voltar do início
Porque um joelho ralado
Dói bem menos que um coração partido

Era uma vez
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