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terça-feira, 22 de agosto de 2017

Livro Machado - Silviano Santiago - Parte I

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Texto escrito para avaliação da disciplina O Cânone Literário Brasileiro do curso de Letras Vernáculas da UFBA, onde estudo.


Machado é um romance que não é romance. Uma biografia que vai além dos fatos da vida de alguém. Ensaio que já é o espetáculo. Espetáculo protagonizado pelo mímico do Cosme Velho, Machado de Assis. Retratada já em sua fase final, a vida de Machado de Assis foi bastante complexa.

Descendente de escravos, Machado sempre viveu de forma humilde. Conviveu com a escravidão durante grande parte da sua vida, até a abolição. Esta temática esteve bastante presente em sua obra. O livro retrata, porém os últimos quatro anos da sua vida. A partir de cartas escritas entre 1905 e 1908, Silviano Santiago construiu a grande obra biográfico-ensaística-romanceada-pitoresca e rica.

Além de uma grande homenagem, Machado pode ser considerado um bom almanaque de literatura. E não só brasileira. E não só de literatura. Almanaque de história, crítica literária e dos últimos momentos da vida do Bruxo do Cosme Velho.

Como o próprio Silviano Santiago declarou em uma de suas entrevistas: não era possível escrever um livro simples sobre a vida de alguém tão complexo como Machado de Assis. Por isso, o livro tão multifacetado. Não dava para ser uma simples biografia narrando fatos da sua vida e descrevendo dados e anos. Um romance simples, porém, não bastaria. Fazia-se necessário um livro grandioso, para a posteridade.

É claro que a intenção de fazer um livro como esse não é apenas homenagear um grande escritor e o fundador da Academia Brasileira de Letras. Não. Silviano quer deixar para o futuro, algo de si mesmo. O que ele próprio sabe sobre literatura. Seu mestrado na França, ilustrado pelo grande conhecimento em Flaubert não deixa mentir. Além disso, inicia- se a consagração do escritor como cânone da sua geração. Já que Machado foi e ainda é um autor legitimado no Brasil e no mundo. Há ainda de lembrar que o processo de urbanização do Rio de Janeiro, fator que incomodava muito o Bruxo do Cosme Velho, se comparava desde sua composição ao processo de urbanização de Paris. Onde quem esteve? Silviano. Eles estão ligados. Silviano Santiago se liga a Machado. Sua ligação com o escritor está também no fato de que Silviano nasceu, anos depois, na mesma data de morte do mímico: 29 de setembro. Silviano estende seu vínculo. Ele se transporta para o início do século XX e teima em conviver bem próximo ao grande escritor brasileiro.

O livro traz diversas imagens, mas nem precisava: com a confusão organizada entre narrador, autor e personagens, a trama já se estampa. Com uma bem feita metalinguagem, o livro consegue narrar, com literatura, a própria literatura. Além disso, há a descrição detalhada da urbanização do Rio de Janeiro, com seus principais meandros e consequências sociais.

Como já sabemos o cânone ou os cânones são listas de leituras escolhidas e implementadas por alguém. E que esse alguém geralmente é formado por mais de uma pessoa ou até mesmo instituições. Principalmente as universidades e seus grandes doutores críticos. Há a certeza, é claro que essas pessoas e universidades estão imbuídas de poder. A ideia de cânone foi criada e consolidada ao longo da história ocidental. Quando a igreja mandava, o cânone existia para determinar o que os fieis podiam ler ou não. E quem mais já teve poder nesse mundo que a igreja? 

Machado de Assis está no cânone. Ouso até dizer que Machado é ele mesmo, um cânone. Além de escritor, já respeitado na sua época, funcionário Público nomeado pelo imperador, Machado foi também o fundador da Academia Brasileira de Letras, como todos nós já sabemos. Antes, os encontros literários eram realizados na livraria Garnier. Os encontros cresceram tanto que nasceu a academia. A própria ABL – um siglazinha carinhosa – já estabelece um cânone. A lista de cadeiras dos imortais que ali se encontram confirmam bem isso. A rejeição do desconhecido Mário de Alencar também.


Continua...


Rafaela Valverde

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Sem contatinhos

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Não, eu não estou mais afim de ser contatinho. Eu não quero mais ser um dos contatinhos de alguém. Eu não mereço ser só isso. Eu agora estou querendo muito mais que isso. Quando terminei meu último relacionamento, depois de termos reatado há menos de dois meses, eu até fiquei feliz com a solteirice que surgia naquele momento. Mas é claro que tinha que comemorar. Eu não ia ficar por baixo e choramingar o fim de um namoro falido. Tinha mesmo que comemorar minha solteirice e fazer postagens dizendo que ia pegar todo mundo e encher o celular de contatinhos. 

É claro que isso não aconteceu. Desde que terminei meu namoro, em fevereiro, eu só fiquei com uma pessoa e é com quem eu tenho estado, de vez em quando, até então. Porque descobri que não tenho mais interesse em ser e em ter contatinhos. Essa minha fase já passou há um tempo e é algo muito pequeno para mim. 

Eu quero mais, muito mais. Eu sou mais. Eu preciso de mais. Eu quero alguém que eu possa ligar quando algo me acontecer, mesmo que seja uma coisa idiota, apenas algo engraçado, como um tropeço no meio da rua; eu quero alguém que pegue na minha mão quando eu estiver mal e beije minha nuca só pelo ato de me acarinhar. 

Eu quero alguém que cozinhe pra mim, compre vinho e me faça sentir importante. Eu quero acordar com alguém me olhando. Eu quero edredom e brigadeiro em dias frios. Eu quero preparar jantares desastradamente românticos como só eu sei fazer. E quando a comida queimar ou passar do ponto eu quero simplesmente pedir uma pizza e que a pessoa me olhe compreensivamente e diga que essas coisas acontecem e não ajude a me sentir ainda mais culpada.

Eu quero sair para comprar roupas e trazer roupas masculinas junto com as minhas, eu quero escrever poemas e cartas, eu quero me sentir tão especial, mas tão especial, que ninguém  vai ter a capacidade de me colocar para baixo. Eu quero que o assunto flua entre mim e essa pessoa e não apenas ter que ficar inventando assunto e falar do tempo chuvoso.

Eu preciso de algo que meros contatinhos nunca vão me proporcionar. Eu quero uma coisa que saídas casuais, amizades coloridas ou sei lá mais o quê, não vão conseguir dar conta. Eu quero ter com quem compartilhar minha vida, alguém que realmente se interesse por ela. Alguém que me escute, mas também que eu possa escutar. Porque eu amo escutar. Eu quero alguém que só de me olhar já me dispa e me deixe afim de qualquer coisa.

Contatinhos, por melhores que sejam, por darem a ilusão de liberdade, por mais fofas que sejam as pessoas envolvidas ou ainda por mais tempo que dure a amizade colorida, não dá tempo para desenvolver todas essas coisas que eu quero, todas essas coisas que minha alma quer e todas essas coisas que fazem os olhos brilhar as mãos tremer e surgir um envolvimento emocional, real, daqueles que todo mundo pretende ter um dia.




Rafaela Valverde

terça-feira, 6 de junho de 2017

Tristeza indicativa


A dor que eu sinto não tem nome. A psicanálise fala da dor de existir, e acho que a minha dor se aproxima um pouco disso. Não é uma dor de perder um filho, nem os pais, nem o cônjuge... Todas essas dores podem ser nomeadas.  Mas essa que eu sinto é dor de quê?  Eu não sei. Na verdade eu até sei e não suporto mais. E também não é uma dor particularmente física. Mas é física também. 

É física, é emocional, é psíquica. Invisível, mas tão presente que eu não consigo mais ignorá-la. Tem dias que já acordo com ela, presente. Em outros dias acordo bem, só com raiva por ter acordado cedo demais. Mas ao longo do dia a dor chega. Mas há dias, raros, em que ela não vem. E nesses dias me sinto um pouco mais em paz comigo mesma.

Eu não sei dizer que dor é essa. Eu não sei explicar. Não é dor de amor, talvez seja dor de falta dele; não é angústia, não é solidão. É tudo junto e mais um pouco. É tão intenso, é tão triste que só o que me vejo fazendo do nada, é chorar. Lágrimas jorram dos meus olhos, eles só vivem inchados e reclamões, não suportam mais produzir tantas lágrimas.

E assim vou vivendo, carregando essa dor sem nome. Essa dor que pode considerada descabida para muitos, mas para mim não é porque ela está aqui dentro de mim. É uma tristeza que vai e vem, muitas vezes incontrolável. Que me avisa que estou sentindo falta de algo ou de vários algos. É uma tristeza indicativa e insistente.


Rafaela Valverde

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Das 8h às 17h


Nunca me imaginei vestindo um uniforme e trabalhando das oito às dezessete. Assim como nunca me imaginei, nunca trabalhei oito horas na vida. Também nunca tive um salário de mais de três dígitos, pois os salários baixos são mais compatíveis com a carga horária de seis horas por dia. Eu fico tentando entender como será essa rotina, como será a cabeça dessas pessoas que a vivem. Claro que eu tenho minha mãe em casa, mas queria visões de fora sobre perder no mínimo quatro horas por dia só no trânsito - o que é condizente com a realidade do trânsito de Salvador e o tempo gasto parado; depois ainda trabalhar oito, nove horas e ainda passar uma ou duas horas de almoço dentro da empresa, ou nas proximidades. É como se vidas inteiras girassem em torno de empresas, de empregos, de negócios, de lucros. Vejo colegas andando juntos na rua, com os uniformes do trabalho, indo ou voltando do almoço. Sim às vezes escuto as conversas alheias e sei que muito do que conversam se relaciona à empresa ou aos colegas. Penso que é por isso que as pessoas imploram tanto pela chegada da sexta feira, por que ter uma vida que gira em torno de uma atividade laboral deve ser bem extenuante. Eu analisando de fora, vejo que isso é triste, sei lá, não sei bem se é triste a palavra que queria usar. Se eu, só estudando e agora estagiando, às vezes não sobra tempo para estudar imagine então quem trabalha o dia todo e faz uma graduação à noite. Quase não tem tempo de estudar. Deve ser bem puxado e não imagino minha vida girando em torno de nada que não dará lucro a mim mesma. No final do dia as pessoas já saem tão cansadas do trabalho e ainda pegam o trânsito miserável dessa cidade. E no outro dia precisam acordar mais cedo para conseguir chegar no horário, pois também tem trânsito... Eu seria bem infeliz em uma rotina dessa. Não posso chegar aqui e mentir, dizer que é melhor viver refém de uma empresa qualquer do que ficar sem trabalhar formalmente. Sim, porque esse é o discurso da maioria das pessoas que eu conheço e talvez eu seja a maior errada nisso tudo, mas é o que eu penso. Não entendo como as pessoas podem sair desses trabalhos sorrindo, devem ser muito felizes. O resto que sobra das suas vidas deve mesmo ser muito bom para que elas sorriam tanto, porque eu sinceramente não entendo.




Rafaela Valverde

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Impressões da sala de aula


Comecei a dar aulas em uma escola estadual. Nunca pensei que fosse fácil, mas descobri que é bem difícil ser professora. Principalmente em escola pública, onde os meninos são jogados lá, sem ao menos compreender o porquê de estarem ali. Há ainda a falta de estrutura e também o grande uso de tecnologias, como o celular  e vídeos do youtube, que podem atrapalhar bastante a prática docente.

Os meninos ouvem música e ficam com o celular na sala, às vezes tocando música sem o fone de ouvido. Não há nenhuma noção de disciplina, nem do que deve ou não ser feito. Não há noção de hora certa para fazer determinadas coisas. Eu sempre ouvi na minha casa que existia hora para tudo, hora para se divertir e hora de ralar. Eu sempre ouvi que primeiro deve vir a obrigação e depois a diversão.

Percebo que não há respeito nem na presença do professor. Não posso ser hipócrita e dizer que eu fui uma criança e uma pré adolescente maravilhosa e bem comportada. Não fui! Mas os meus pais estavam presentes na escola por tudo que eu aprontasse e era quase sempre. Por mais que no fundo eles achassem que não adiantaria nada, eles iam. Já chegue a tomar uns tapas de minha mãe dentro da escola.

Mas, mesmo sendo rebelde, havia um mínimo de respeito ao professor. Mesmo que eu continuasse a conversar, porque lembro que era uma faladeira na sala, eu pelo menos entrava na sala e sentava na cadeira. Ao contrário de hoje. Os meus alunos não sentam, não param, não se interessam pelos conteúdos e nem me respeitam. Fora que saem da sala toda hora e outros alunos entram na sala a todo momento, me ignorando.

A estrutura da escola pública não ajuda muito a vida do professor não. Algumas salas nem porta têm e quando chove molham tem goteira. Não têm ventiladores e é péssimo estudar assim. Como eu, sozinha, vou fazer os alunos prestarem atenção em mim com tantas distrações e com tanta falta de estrutura? Eu até tento. Converso com eles, fiz um jogo e pretendo fazer o máximo para tornar minhas aulas interessantes mas é bem difícil.

É difícil porque esse interesse pela escola e pelo conhecimento não vem de casa. Os pais não leem. Mas também qual o pai que tem tempo ou dinheiro para comprar livro? Não estou defendendo, pois isso não justifica nada. Essa é uma sensação geral que eu tenho. As pessoas não estão nem aí para nada, não leem, não estudam, não se informam. Só querem saber de festas, alegrias da vida, novelas, youtube, whatsapp... Mas quem condenaria essas pessoas? O caminho do conhecimento é bem árduo.

Eu também gosto de todas essas coisas, mas amadureci cedo e entendi desde nova que havia momento para tudo na vida. Há hora para estudar, para brincar, para dormir. Deve haver uma adequação para tudo na vida, não é mesmo? Mas é isso, essa é uma das minhas reflexões sobre a sala de aula e sobre a prática docente. Espero que eu faça mais!


Rafaela Valverde


terça-feira, 25 de abril de 2017

Texto que minha amiga Fernanda fez para mim ♥

Recebi esse maravilhoso texto da minha amiga Fernanda no domingo, meu aniversário. Eu amei! Me emocionei demais com essa genial definição de mim. Só quem é muito boa com as palavras e me conhece bem demais é capaz de me descrever tão bem. Obrigada, miga. Te amo, também, amei a homenagem.
A referida foto é essa abaixo:





Você pra mim é como uma rosa. Flor que sabe ser aroma e espinho. Amor e dor. Pode perfumar e também perfurar. Pode estar tanto no início quanto no fim. Pode vir em variações dependendo de quem observar. As vezes num vermelho intenso e esplêndido, outras num branco poético e de paz. Pode refletir o romantismo dos que te querem como presente ou a brutalidade de quem tenta do seu jardim te arrancar. 
Escrevo isso na tentativa de eternizar-te em mim como és na sua mais pura essência: Flor! 
Gosto muito dessa foto e mais ainda de você. E enquanto pudermos e quisermos, serei apreciadora da tua beleza e felicidade. Feliz vida, flor da minha!♥♥





Rafaela Valverde

quarta-feira, 5 de abril de 2017

O beijo na boca - Fabrício Carpinejar




Casais que não se beijam na boca estão se separando. Vão se tornando amigos, parentes, irmãos, até se esquecerem de caminhar de mãos dadas. Vão se apartando do cheiro da pele, do gosto do abraço, das provocações infantis de corredor, das pernas alisadas no fundo da coberta.

O beijo na boca é a autêntica aliança, o ouro que vinga, a certidão que não desbota. Só que me refiro ao beijo mesmo, de girar o corpo, o pescoço, o rosto. Selinho não conta, onde os lábios são uma carta para quem já está distante. Beijo seco também não vale, onde não há a ameaça de morder os lábios.

O beijo molhado é que une. Um beijo úmido por dia renova o amor. O beijo de quem tem saudade dos tempos apaixonados, um beijo que ainda sopre de volta os elogios ditos um para o outro. O beijo sussurrado, em que os sons tremem com as respirações próximas.

O beijo que não tenha a necessidade de ser pensado demais senão surge sem jeito, forçado, cinematográfico. O beijo que seja um segredo a dois, que você extravie o horário e suspenda a noção do lugar. O beijo que toque uma canção dentro, que desperte a vontade de dançar.

O beijo de língua não permite o vazio crescer, a lacuna, o lapso. Pois uma ausência dentro de casa ainda tem conserto, duas ausências não têm como recuperar – o par esqueceu o amor em algum lugar das lembranças e não correu para reaver.

O beijo de língua desfaz as formalidades, os medos e a educação que esfriam a relação. Beijo de língua é beijo para combater o tédio, a mecânica repetida dos gestos. Beijo de língua salva os desaforos, perdoa as críticas e as cobranças. É como uma janela batendo com a chegada da chuva, uma porta batendo com o vento. É um susto que põe o coração a bater de novo.

Nem o sexo resolve o que o beijo faz. A transa sem beijo é apenas desafogo, catarse, apego de bichos. O beijo com língua é o que nos singulariza entre os animais. Casais felizes sempre se buscam pela boca. É uma receita simples de longevidade. Sem o beijo, a pessoa tem a vontade de largar tudo e ficar sozinha. Com o beijo, ela não perde a vontade de largar tudo, mas com a diferença de querer levar junto aquele que ama.



Rafaela Valverde

quinta-feira, 30 de março de 2017

Batom II



 Esse texto é um dos produtos da disciplina Criação Literária do curso de Letras da UFBA. Foi modificado algumas vezes e essa é a versão final. Escrito por mim.

Encarava o espelho do banheiro. Solitária. Olhos inchados. Chorara. Divórcio. O marido a deixara pela estagiária. Apaixonara-se. Não podia culpa-lo.  Coisas assim acontecem. A poesia que o atraíra não existia mais. Virara poeta vazia, esquecida. Suspirou. Problemas financeiros. Não voltaria a morar com os pais. Dívidas: prestação do carro e rombo na conta. Todos os problemas vieram de vez. Enxugou as lágrimas que voltavam a cair. Não desistiria agora. Retocou o rímel.  Passou o batom roxo.
          Lá fora, tudo ok. Peixes alimentados, plantas regadas. Saiu pelos fundos. Elevador de serviço. Mais três andares até décimo oitavo, terraço. O sol já estava se pondo. Mesa posta: vinho, flores e velas. Sentou olhando o horizonte, o vento roçava seu rosto. Ensaiou um sorriso.
 O vinho era seco, tomou uma taça. O sol descia rápido. Também queria ir embora. O celular marcava 17:57, desligou. Passara vinte minutos. Acendeu um cigarro. Sem cerimônia, agora bebia no gargalo. Último gole, última tragada. Cigarro no cinzeiro. Cheirou uma rosa e a pôs na garrafa de vinho vazia. Respirou fundo. Olhar parado, oco.
Espelho na mão. Dessa vez, batom vermelho. Levantou, desamarrou o hobby, vestia sua melhor camisola.
Subiu na balaustrada, fechou os olhos e pulou.




Rafaela Valverde


terça-feira, 28 de março de 2017

Instruções para um poema livre



A construção de um poema
Não deve ser assim tão fácil
Mas deve valer a pena
Alguém há de querer ler
Nenhuma palavra indócil
É preciso saber
Das aventuranças do leitor
Se interessa pelas suas rimas?
E pelos seus versos livres?
E pelas suas ideias de amor?
Isso não é amor
É só poema.
Por isso parei de rimar
O amor também não rima
Que se lixe!
Quero é fazer  um poema
E depois dizer como fazê-lo
Quero ficar famosa
Quero ser o Pessoa
Oh! Mas não vê que é impossível?
Ninguém lê poema como  na época de Pessoa
Ninguém lê mais nada
Especialmente essas histórias ridículas
E essas instruções idiotas de como fazer um poema
Combinadinho, com sextilhas e famílias!
Que se dane!
Como se constrói o que não quer ser construído?
Como assim, o poema tem livre vontade?
Sim, ele surge na penumbra e ressurge no amanhecer
Na ponta dos dedos, como mágica
Se espreme e sai
Mas quando quer
Não quando eu quero e nem da forma que você quer que seja!
Se conforme, o poema tem vontade própria.
E isso é uma droga!
A vida também.
Vicia e mata
Você aproveita a vida, fica presa a ela
É o vício
Depois ela sai de você
Ela te mata
Você morre!
Acabou!
Não tem poema,
Nem construção,
Nem obra,
Nem vida
Mas o  poema
Esse continua valendo a pena!



Rafaela Valverde


terça-feira, 7 de março de 2017

Quanto menos sabem, mais falam!


Existem muitas pessoas vazias. A maioria das pessoas não têm nada a oferecer. Só tiram, só sugam. Então, quando a gente é cheia, transbordante, e diferente passa a ser tratada com desdém e indiferença. Digo isso porque passo por isso constantemente. Portanto quem vai desdenhar hoje sou eu.

Gosto de pessoas interessantes. Gosto de conteúdo. Gosto de quem sabe vários assuntos e sabe falar sobre eles. Gosto de pessoas completas, como eu.  Há pessoas, homens e mulheres, que buscam em outras pessoas somente o que eles mesmo podem oferecer: nada. Ou apenas uma aparência vazia, só preenchida com beleza física e olhe lá. 

Essas pessoas não apreciam pessoas e sim aparência; não apreciam a letra, apenas a música; não apreciam a poesia, apenas a prosa barata e ordinária. Algumas mulheres que eu conheço, por exemplo, não se importam se os caras que estão ao lado dela, ou que elas estão querendo "pegar" têm caráter ou conteúdo, não se importam se eles prestam ou não. Contato que sejam gostosinhos, malhados, com barbinhas bem feitas... De preferência devem ter carro e pau grande, mesmo que não saibam usar.

Eu observo muito as pessoas e escuto mulheres valorizando muito tamanho de pau em detrimento de cérebro, conteúdo, bom papo, etc... Poucas pessoas conseguem valorizar gente complexa, que assiste filme de verdade, que  ouve músicas não somente para dançar  e que bate papo sobre política, social, literatura e outros assuntos considerados cabeça.

As pessoas gostam de coisas rasas, porque é mais fácil. É muito mais difícil estudar, ler e ter conteúdo. É muito mais fácil falar de BBB ou se algum novo casal famoso se separou ou vai casar. Ouvir Marília Mendonça num bar, se divertindo dançando é muito mais fácil que ouvir Crioulo e outros raps de protesto, por exemplo. 

É muito mais fácil ser ignorante, não ler nada, não reclamar de nada, ter conversas fúteis. Dá menos trabalho trabalhar o dia todo, a semana toda, sem questionar, pegar engarrafamento e demorar horas para chegar em casa. Tem nada não, no final de semana tem cervejinha e paredão e uma vez ao ano tem carnaval. 

Bem, é esse o meu pequeno desabafo . Eu não estou mais sabendo lidar com esse tipo de gente vazia, que só quer luxo, carro, shows de banda sertaneja e só sabe falar abobrinha. E o pior é que quanto menos sabem, mais falam. Socorro!



Rafaela Valverde

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Filme O Nome da Rosa


O Nome da Rosa é um suspense dramático de 1986, dirigido por Jean-Jacques Annaud e com atuações de Sean Connery, Christian Slater, Elya Baskin, entre outros. A história se passa no século XIV, no ano de 1327, período da Idade Média. Wiliam de Baskerville (Sean Connery), um monge franciscano e Adso von Melk (Christian Slater) seu pupilo, são secretamente convocados para uma missão em um rígido Mosteiro Beneditino na Itália. A missão era investigar a morte de um dos monges. O tradutor grego Adelmo teria sido jogado de um penhasco por alguma força maligna. Wiliam constata, após algumas investigações, que foi suicídio.

Há algo sombrio naquele lugar, Baskerville e seu pupilo têm certeza. Alguém fala logo no início: “o demônio ronda essa abadia”. Dessa forma o filme começa já com esse clima assustador, que claro, é ligado à figura feminina. Ao jovem Adso é atribuída uma imagem feminina e diabólica. Um jovem com olhos femininos.

Porém, um segundo monge morre e seu corpo encontrado de cabeça para baixo dentro de tanque, descartando assim a hipótese inicial de suicídio na morte anterior. Alguns monges associam essa morte como uma profecia do apocalipse, já que as arrumações do corpo supostamente faria referência a uma passagem bíblica do livro de mesmo nome. Aristóteles é citado, já que a vítima estudava as obras dele e as traduzia. A partir desse momento, a credibilidade de Wiliam fica um pouco estremecida e os monges líderes passam a ter dúvidas sobre sua capacidade de investigar o caso.
Coisas vão acontecendo durante as investigações. Wiliam percebe que pode realmente haver ali um assassino. A Comédia de Aristóteles, aquela que fazia parte da Poética e que se perdeu ao longo dos anos, passa a ser discutida por causa do gênero que faz rir. Ele é desvalorizado pela igreja. Um dos monges mais velhos afirma que o riso é demoníaco, deforma o rosto e faz as pessoas parecerem macacos, daí já é possível constatar a sisudez do período e daqueles monges. O riso afastava as pessoas de Deus, por isso a rejeição às Comédias. Esse monge grita de forma categórica que a Comédia de Aristóteles nunca existiu. A Comédia é vista como estimuladora do ridículo, o riso mata o temor Sem o temor não pode haver fé, pois sem temer o demônio não há necessidade de crer na existência de Deus.

O pupilo de Wiliam, Adso, se entrega aos prazeres da carne com uma mulher que rodeia a abadia em troca de comida. A mulher vista como feiticeira, aquela desvia o homem do caminho de Deus. O menino conta a aventura ao seu mestre, como amigo que lhe responde que a vida teria mais paz sem o amor.

Acontece a terceira morte: o corpo de mais um monge é encontrado em uma banheira com folhas de lima. Folhas de lima eram utilizadas em banhos para aliviar dores. Ele havia morrido afogado, após tentar aliviar as dores que sentia. Verifica-se, assim como nos outros monges, que as pontas dos dedos e a língua estavam manchadas de tinta escura. E assim segue o mistério e as investigações.
Wiliam e Adso desconfiam cada vez mais dos segredos que rondam o mosteiro. Eles passam a ir mais a fundo na caça ao assassino. Os segredos estão relacionados a livros: proibidos e espiritualmente perigosos. Há uma torre cheia deles e poucas pessoas podem acessa-los. Chega a constatação de que os três homens morreram por causa de um livro que mata ou pelo qual um certo homem pode matar.
Alguns monges passam a se incomodar com a presença de Wiliam e pedem que ele vá embora e que as investigações sejam finalizadas.

 Mas eles não param de investigar e descobrem um porão nas fundações da torre da biblioteca do mosteiro. Alguns livros proibidos são encontrados. Wiliam afirma que ninguém deveria ser proibido de consultar estes livros de forma livre. Seu pupilo responde que talvez eles sejam muito preciosos e frágeis. Mas ele sabe que não é bem isso, eles contêm uma sabedoria diferente e ideias que podem fazer as pessoas duvidarem de Deus. E a dúvida é a inimiga da fé, ou seja, para acreditar é preciso ter certeza do que acredita. Se há uma possibilidade de dúvida da existência de Deus, em que as pessoas vão acreditar? Como as pessoas vão acreditar na igreja e na bíblia? Portanto, o conhecimento deve ficar oculto, especialmente esse tipo de conhecimento.

Enquanto isso, a mesma mulher que fez Adso se entregar aos prazeres da carne, se envolve em um ritual que pode ser considerado bruxaria, junto com um monge corcunda e um deficiente mental: Salvarote, Eles utilizam um gato preto nesse ritual que é logo associado às mortes dos monges. Ambos são julgados e condenados à fogueira pela inquisição. Nesse mesmo período está acontecendo no mosteiro uma votação que decidirá os gastos da igreja, justificando assim a presença de Wiliam e de outros membros da igreja. Desta forma, com a presença desses nomes da inquisição no mosteiro, é possível a realização da condenação dos envolvidos com bruxaria de forma mais rápida.

Não havia como contestar a inquisição e quem assim o fizesse seria acusado de heresia. Vivia- se a partir de normas estabelecidas por doutrinas cristãs. Não era possível discordar e dizê-lo em voz alta, pois a inquisição matava. E esses livros, os que haviam sido escondidos, eram vetores de discordância, por isso foram taxados como livros proibidos. Em suas páginas foram depositadas veneno, para que quem ousasse lê-los, morresse. O responsável pelo veneno é o mais antigo morador e mais velho monge, Jorge que é cego.

Um incêndio na torre, provocado acidentalmente por Jorge ao tentar fugir após ser descoberto, destrói alguns livros, mas Wiliam consegue salvar alguns livros e a sua própria vida. Os livros têm saberes que não podem mais se perder. Daí o desespero de Wiliam para salvá-los. E mesmo quando é questionado por Adso se se importa mais com livros ou com pessoas, ele não tem dúvida e permanece com a ideia fixa de salvar os livros também, pois sem eles, as pessoas não conseguirão contestar doutrinas e ideias da igreja um dia.

O filme conta com uma fotografia sombria e escura, o que é essencial para o clima sombrio da história e do local. As atuações são fortes e os diálogos são bem construídos. Sean Connery está no melhor papel da sua carreira junto com Christian Slater que ainda menino demonstra um pouco de insegurança, mas segura bem o personagem.

É um filme para se pensar nessas formas de viver durante a Idade Média. O poder da igreja imperava, mulheres, deficientes e quem quer que discordasse ou realizasse práticas condenadas pela igreja, poderia ser condenado à morte. E geralmente era o que acontecia. A inquisição se instaurou no século XIII para investigar e julgar pessoas consideradas hereges, ou seja, aquelas pessoas que discordavam do poder e das ideias da igreja católica.






Rafaela Valverde

sábado, 28 de janeiro de 2017

Minha paixão por música e o Kid Abelha Acústico MTV


Obviamente não sou crítica musical, mas escuto música, mas escuto mesmo. Minha vida toda. Mais de vinte anos que escuto muita música. Minha mãe ouvia de Bee Gees a Luis Caldas. Ela ouvia também muitos hits pop nacionais e internacionais dos anos 80, como a jovem mãe que era. Sempre fui muito apaixonada por música. Virei fá de Marisa Monte aos 11 anos depois de ouvir Amor I Love You senti que eu tinha que saber mais daquela mulher tão afinada. E descobri. Acompanho Marisa até hoje.

Mas há muitos outros artistas que eu acompanho desde a pré adolescência, um deles é a banda Kid Abelha. Estou ouvindo o disco acústico MTV exatamente agora. Esse disco foi gravado em 2002. Eu tinha treze anos. E ele para mim é muito especial. Marcou minha adolescência. O Acústico MTV do Kid Abelha é uma compilação básica dos maiores sucessos do Kid. E nesse momento em que foi lançado, eles voltam à vida da gente e as rádios com Nada Sei. Esse hit estourou na época.

Eu escutava uma vizinha ouvindo e viva pedindo a minha mãe para comprar porque eu queria conhecer mais a banda. Minha mãe um belo dia chegou com uma cópia pirata - não julguem minha mãe, era 2002, vocês sabem quanto custava cds naquela época? - além disso, não tínhamos tanto dinheiro. Até hoje não temos, hahaha. Mas, enfim. Vou contar a história desse disco.

Como eu já havia dito, minha mãe me trouxe esse disco um dia e eu fiquei enlouquecida. Mas depois de um tempo o cd se acabou, arranhou, sei lá, nem lembro direito. Só sei que se perdeu e eu não pude mais ouvi-lo. Mas uns anos depois eu consegui comprar o original, naqueles balaios das Lojas Americanas, baratinho. Comprei com meu salário do Mc Donald's no ano de 2006. Lembro bastante desse dia que tem exatamente onze anos e eu era uma menina tão inocente, cheia de sonhos. Lembro que fiquei muito feliz nesse dia e tenho meu Cd até hoje. Quando peguei para escutar, vi a data e tive a ideia de compartilhar essa história com vocês. É isso. Música é demais. Música é poesia!


Rafaela Valverde


terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Desígnios de Deus


Ontem eu vi o seguinte comentário em uma postagem na internet sobre homossexualidade, não lembro exatamente qual: "não são os desígnios de Deus". Alguém prontamente respondeu que roubar e matar é que não eram os desígnios de Deus e ainda assim as pessoas fazem. O mais engraçado é saber que assassinos e estupradores são acolhidos por diversas religiões. Enquanto gays, só por serem gays são tratados como pecadores, como pessoas erradas, que são julgadas e humilhadas apenas por serem o que são.

Isso quando não são mortos de forma violenta. Simplesmente porque uma sociedade doente não aceita suas orientações. Dá um desgosto ouvir uma pessoa dizer que ser gay é opção sexual. Não. Pelo amor de Deus, ninguém escolhe ser gay, ninguém escolhe viver assim a vida inteira. Ser humilhado, viver escondido e ser agredido a vida toda. Ninguém merece isso. O que não são desígnios de Deus são as coisas absurdas que certas pessoas e instituições fazem aos homossexuais. Especialmente no Brasil que é um dos países que mais mata homossexuais no mundo. Eu já escrevi sobre isso nesse artigo Debates sobre a homofobia. Para quem quiser saber mais.

Mas, voltando ao que algumas pessoas dizem ser desígnios de Deus. Eu não sei o que certas pessoas pensam que são ao falarem em nome de Deus. Uns merdas que aprontaram a vida toda e depois botam a bíblia embaixo do braço e se dizem melhores que os outros. Eu não consigo aceitar certas coisas ditas por essa gente. Gente essa que faz fofoca, intriga, picuinha, pirraça, é porca, preguiçosa e têm todos os defeitos imagináveis. São o que criticam na gente que "é do mundo" e mesmo estando vivendo nesse mundo, usufruindo das coisas boas desse mundo afirmam que "esse mundo não tem nada a oferecer."

São essas pessoas que vomitam merdas desnecessárias na internet e falam que dois homens se beijando (lembrei, era sobre o ator Leonardo Vieira) não é o desígnio de Deus. Quem é que sabe o que essas pessoas fazem nas suas vidas pessoais? Não é desígnio de Deus ficar falando merda e julgando os outros na internet também não, e mesmo assim vocês fazem, seu chatos.



Rafaela Valverde 

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Dona de casa? Eu?


Fui uma esposa agoniada que queria tudo arrumado limpo e tudo pra já! Eu tinha mania de limpeza, na verdade eu tinha mesmo era mania de controle. Eu queria controlar a organização da casa, eu queria que tudo estivesse do meu jeito. Eu era muito nova, casei com 21 anos e hoje eu vejo minhas atitudes como idiotices. 

Quantas coisas eu deixei de aproveitar para ficar limpando a casa? Quantos filmes eu deixei de assistir com meu ex marido, mesmo ele me pedindo tanto para largar tudo e ir deitar para assistir com ele? Quantos livros e textos da faculdade eu deixei de ler por que queria que tudo estivesse perfeito. 

Eu queria ser uma boa esposa e acho que até fui, mas em muitos momentos eu não achei aquilo divertido. Eu não achava engraçado brincar de casinha naqueles momentos, mas ao mesmo tempo eu não entendia que aquela sensação era causada por mim mesma. Eu era insuportável e sinceramente não sei como ele, meu ex marido me suportou durante quatro longos anos.

Mas hoje tudo mudou. Eu sou uma mulher mais madura, que já passou por muita coisa e que sabe que sofrimento ajuda a crescer. Hoje eu faria muita coisa diferente. Hoje eu sou uma pessoa mais relaxada, que ao mesmo tempo em que faz faxina na casa, está com o celular na mão e performando, fazendo a vassoura de microfone. Eu  aprendi a ser uma pessoa mais leve e o que menos importa para mim hoje é se a pia está limpa.

Pouco me importa se o banheiro não pôde ser lavado hoje. Eu posso lavá-lo amanhã, ou semana que vem. Sei lá, o dia que der. O meu bem estar importa mais do que a  higiene da casa. A casa vai sobreviver mesmo que tenha poeira nos móveis, mas eu posso não sobreviver com uma carga muito alta de estresse... Enfim, eu não sei se vou me casar de novo um dia, mas eu sei que não sou mais a louca do controle. Sei que posso até ser considerada, hoje, preguiçosa e relaxada. Eu não ligo. Eu quero é paz. Eu quero é viver bem comigo mesma e os pratos na pia que fiquem lá até quando eu quiser lavar!




Rafaela Valverde

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Grey's Anatomy ♥


Terminei de ver as doze temporadas de Greys Anatomy disponíveis no Netflix. Há muito tempo que ouvia falar dessa série e quando tinha TV por assinatura até dei umas olhadas nela algumas vezes, \ mas alguém me disse: " essa será a melhor série da sua vida." Então fui, relutante, assistir e ver se era isso mesmo.

No início, nos primeiros capítulos da primeira temporada, eu ainda estava meio em dúvida se realmente gostava daquela série alucinante, cheia de casos loucos de medicina. Eu comecei bem devagar inclusive, ainda estava conhecendo os personagens e acabei parando no meio da segunda devido aos tantos afazeres da faculdade.

Mas um belo dia resolvi voltar a ver e fui me encantando aos poucos. Gostei logo de uns personagens de outros não. A série estreou em 2005 e é escrita por Shonda Rhimes, a mesma autora de séries como Scandal e How to Get Away with Murder, ambas que eu adoro. A minha relação hoje com Greys Anatomy é a mesma relação dos outros fãs. Eu adoro essa série. Me emocionei, ri, mas ri muito. Me indignei com algumas atitudes e mortes de alguns personagens.

E tem Cristina Yang. É um caso à parte. Eu e todos que eu conheço amam Yang. Ela é sem dúvida, a melhor personagem da série. A amizade dela com Meredith, a protagonista chatinha e metida a suicida é marcante e o bordão: "você é a minha pessoa" entrou para a minha história e para uma amizade que eu tenho hoje.

Foram casos estranhos, cenas bizarras e ficcionais. Teve gente envolvida com pedra, teve gente atravessa com um ferro no meio do corpo, explosão, afogamento, acidentes de carro, quedas de avião, transplantes, sexo... Muito sexo. Como as pessoas se pegavam dentro do hospital. Um outro destaque que eu quero dar para Grey's é em relação ao destaque que é dado aos personagens negros, que geralmente são médicos respeitados e chefes.  Enfim, cada  personagem é fofo e bem feito. Eu amo essa série.




Rafaela Valverde

sábado, 3 de dezembro de 2016

Mulheres devem segurar suas sacolas sim!!!


Ontem estava no shopping esperando uma amiga e ouvi a seguinte frase de uma mãe falando para o filho: "Você tem que carregar as sacolas porque você é homem. Mulheres não devem carregar nada!" Eu fiquei uns segundo encarando aquela mulher, tentando entendê-la, tentando entender seu argumento. Sem lógica, aliás, já que ela era uma mulher adulta e ele uma criança. Mas o gênero fica acima de ser adulto e criança? Gostaria que alguém me explicasse essa lógica!

Homens não têm que carregar todas as sacolas enquanto as mulheres não carregam nada. Isso é ridículo. Primeiro, homens não são super homens, fortes e poderosos, eles são seres humanos. Seria bom parar de colocar essa imagem para o sexo masculino. É ruim para a gente e ruim para eles, que se vêem obrigados a corresponder a esse estereótipo. E é ruim para a gente porque eles sempre vão ver as mulheres como frágeis e inúteis, que não conseguem nem carregar a sacola das suas compras.

Em segundo lugar, nós mulheres conseguimos e temos plena capacidade de carregar o que for. Temos dois braços, igual aos homens. Somos seres humanos, todos os seres humanos têm braços e eles, os braços, são feitos para isso. Afinal de contas, mulheres que são mães vivem com os meninos para cima e para baixo. Então, apenas parem, mães, de deseducar seus filhos. Eles não merecem isso. As mulheres não merecem isso.

É bem melhor dizer que os homens podem pegar sacolas das mulheres por simples gentileza e educação. E não porque as mulheres não são competentes para carregar, ou não conseguem, não aguentam peso. Eu sempre odiei a frase: "onde tem homem, mulher não trabalha". Passa a imagem que somos seres inúteis diante dos homens. São eles que devem usar força física e precisão. Mulher não, mulher deve ficar sentada esperando que o serviço seja feito. Mulher deve ser delicada. Ah me poupem!

Enquanto esses forem os discursos de mãe de meninos, nada vai mudar. Porém, eu não sei como deter essa reprodução de machismo irrefreado realizado por essas mães. Mas dá uma aflição quando vejo cenas dessas.  E sei que ainda temos muita luta pela frente.


Rafaela Valverde

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

A sabedoria de desistir na hora certa


Eu antes não sabia, mas agora eu já sei. Eu aprendi a viver com a frustração e o conformismo para determinados momentos. Se não há jeito, se os anos vão passar, se a vida vai durar e eu tenho que conviver com isso eu conviverei. Me resigno e aceito, já que não posso mais lutar e mudar determinada situação. A gente precisa saber quando parar.

A gente precisa desistir na hora certa, por mais que tenhamos lutado tanto. Chega uma hora que não dá mais, o esforço fica grande demais, a luta ultrapassa o que podemos suportar e simplesmente a gente desiste. Respiramos fundo e analisamos as opções, mas elas não são mais viáveis.

Eu já passei algumas vezes por situações que exigiram muito de mim. Algumas eu desisti, outras lutei até o fim. Hoje porém, me deparo com uma luta que sei que não vou conseguir ganhar. Eu já consigo me enxergar vivendo daqui a vinte anos frustrada e sem ter tido o que eu realmente quis na vida.

Mas não desisti por causa de preguiça ou covardia. Desisti porque era demais, porque não adiantaria. Desisti porque não há mais sintonia entre mim e a luta, essa luta. Eu me sinto cansada para lidar com ela. Eu estou fraca e por isso vou ter que conviver com isso, com a frustração e talvez, quem sabe, o arrependimento. Mas no momento não há nada que eu possa fazer.

Não sei quantas pessoas se sentem assim diante de coisas difíceis, mas é complicado olhar para trás e prever o futuro e estar entre um e outro. Só esperando o tempo passar para ver se alguma coisa muda. Mas não vai mudar. Se eu tiver que virar uma mulher frustrada quando tiver na meia idade eu vou virar. Porque a gente tem que saber a hora de parar. A hora de desistir de lutar por algo que nunca mais vai acontecer. Isso é ter sabedoria.



Rafaela Valverde

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Não sei quantas almas tenho - Fernando Pessoa



Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.



Rafaela Valverde

domingo, 20 de novembro de 2016

Filme Thelma & Louise - A liberdade e a força feminina


Ontem vi o maravilhoso Thelma & Louise, filme americano de 1991 dirigido por Ridley Scott e estrelado por  Susan Sarandon, Geena Davis e Brad Pitt bem novinho. É uma comédia dramática, aventura que eu considerei bem feminista. O filme foi vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Original e do Globo de Ouro de Melhor Roteiro.

As protagonistas Louise Sawyer (Susan Sarandon) e Thelma (Geena Davis) são amigas e enquanto a primeira trabalha em uma lanchonete, a segunda é uma dona de casa entendiada que vive um relacionamento abusivo com o marido. Entediadas, as duas amigas resolvem viajar num final de semana sem que seus parceiros saibam. 

Durante a viagem, que começou bem, elas se envolvem em um crime e a partir daí passam a fugir da polícia. A trama que segue a partir daí é cheia de confusões. As personagens são ricas, interessantes. Os diálogos são firmes, bem colocados. As viajantes percorrem muitos locais o que torna a fotografia do filme bonita e bem feita. Trazendo muitas vezes, ambientes áridos assim como as cenas e as vidas das fugitivas.

Há muitas questões feministas mostradas no filme. Cenas de misoginia que são combatidas pelas protagonistas, algumas vezes até de forma engraçada. Algumas cenas me chamaram mais atenção. Inclusive o primeiro crime é cometido depois de um estupro, é defesa mas elas dizem: "Quem vai acreditar na gente? Viram você estava dançando de rosto colado com ele." É o que a gente ouve e passa nos dias de hoje.

Há, entre outras, uma cena específica, que me fez gargalhar. Não vou dar detalhes da cena, mas é hilária, nos leva à forra. Nós que somos assediadas diariamente. A dupla cansou de ser assediada e se vinga de maneira graciosa, arrancando muitas risadas. É um filme de liberdade de mulheres e para mulheres. Mulheres fortes, personagens fortes que não baixam a cabeça para o masculino mundo em que vivemos. Os personagens homens as afrontam, as desestabilizam mas elas continuam seguindo em frente. Assim é o personagem J.D vivido magnificamente por Brad Pitt ainda no início da carreira. Um personagem pequeno que entra e sai de cena, não imperceptivelmente. Importante para o clímax da história. 

Thelma e Louise é um filme gostoso de se ver. Serve para reafirmar a força feminina. A mulher que não esmorece e que mesmo quando impedida, procura uma oportunidade de se aventurar. E como somos lutadoras! Queremos nossa liberdade e lutamos por ela. E esse filme é uma ilustração lúdica e aventureira das nossas lutas diárias. 

O final mesmo não sendo convencionalmente feliz ainda assim é feliz. É um dos melhores finais que eu já vi. Selado com um beijo entre essas duas icônicas mulheres nesse clássico e maravilhoso filme. Sim, maravilhoso. Esse entrou na lista dos meus filmes. Mulheres assistam, o que  esse diretor fez por nós há 25 anos!



Rafaela Valverde

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Odeio shopping!


Eu odeio shoppings. Aqueles corredores labirintosos intermináveis. Não sei quem inventou que shopping é coisa de mulher, ou que mulher adora ir ao shopping. Eu tenho mais o que fazer do que ficar andando para lá e para cá dentro de shopping. Dia desse me perdi naqueles corredores para depois descobrir que eu estava bem perto de onde queria ir e andando só fiz me afastar ao invés de chegar.

É claro que eu vou ao shopping. Eu não posso ser hipócrita e dizer que: "nossa, eu sou uma natureba reclusa que se recusa a ir ao shopping." Não, não é a  minha pretensão. E não, eu não sou natureba e nem reclusa. O que quero dizer é que eu e os shoppings não combinamos muito bem. As pessoas ultimamente parecem que andam em um transe, um tipo de "zumibilização" retardante e andam devagar. Muito devagar.  Especialmente dentro do shopping, até porque eles foram construídos para isso mesmo, para que as pessoas pudessem andar devagar e ver as vitrines. As pessoas desfilam, param bem no meio dos corredores e andam com a cabeça baixa enterrada no celular. É uma das coisas que mais me irritam em um shopping, especialmente em datas como a que se aproxima que é a época de final de ano.

Não vou negar que shopping é prático e razoavelmente seguro. Pelo menos comparado com as ruas é mais seguro. Mas  só vou fazer esse tour de mau gosto em casos de extrema necessidade. Pagar contas, sacar dinheiro, usar o banheiro, curtir o cinema ou praça de alimentação são coisas que geralmente eu faço em um shopping. Mas não muito, não sempre. Quase nunca aos domingos. Eu acho que só fui ao shopping aos domingos umas quatro vezes na vida. 

Eu não gosto de muita gente falando, andando e sorrindo ao mesmo tempo. Parece uma vila feliz.Vila dos mentirosos. Vila dos compradores. A vila que sustenta o capitalismo. óbvio que o capitalismo é o sistema em que todos nós vivemos e ao qual não estamos dispostos a abrir mão. Mas shopping é um dos seus símbolos e irritante. 

No shopping você pode ser observado e observar. No shopping você não está sozinho e ao mesmo tempo é tão solitário. No shopping é possível encontrar pessoas, falta de educação, ladrões (sim!), frustração por não conseguir comprar tudo o que se quer. Mas também no shopping é possível encontrar boa comida, confraternização, filmes e livros, conforto e banheiros limpos.

Mas ainda assim eu odeio shopping.


Rafaela Valverde

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