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sexta-feira, 19 de maio de 2017

Transbordante


O que buscar lá fora se tudo que me faz bem está aqui dentro?
Por que buscar coisas lá fora se tudo está aqui?
Pra que procurar qualidades em outras pessoas se você já as tem?
Tudo que me satisfaz está aqui, em você
Tudo que eu gosto você faz
O que eu preciso você tem
Eu não preciso de mais ninguém
Quando eu te falo você não acredita
Mas não há ninguém como você
Estar com você me faz tão bem
Há anos que sua presença me faz ótima, que é melhor que bem
Eu realmente não preciso de ninguém
Mas você não é ninguém
E eu preciso de você
Não para viver
Não para ser feliz, afinal eu já sou feliz!
Mas preciso de você para tornar minha vida melhor
Também para me transformar nesse poço de sorrisos
Sim, quando estou perto de você, eu transbordo de alegria
A felicidade me toma por completo
Eu me fecho nesse mundinho em que você está
E esqueço do que se passa no mundo lá fora
Nada lá fora importa!
Aí no outro dia tenho que voltar ao tempo presente, à vida real
É duro demais não ter você
É injusto ter que procurar lá fora o que eu tenho aqui dentro
É injusto, principalmente, porque eu nunca vou achar
O poço da felicidade de estar com você esvazia um pouco quando vou embora
Mas o meu amor é um poço muito maior
Não enche, não transborda e nunca vai acabar
Agora, me diga, você que tem resposta para tudo:
O que eu faço com esse amor?



Rafaela Valverde

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Passional


Você diz que sabe quem é
Você diz que se conhece
Você diz que me conhece
Mas, ora bolas, quem é que sabe mesmo de si?
Eu não sei, você não sabe, o mundo não sabe
O mundo nem sabe que fim terá!
O mundo não sabe nada
Agora, imagine você!
Você não sabe de nada
Eu vejo que estou em seu olhar
Mas você nega
Você é engraçado
Não se entrega
Não se apoia
É orgulhoso
Tem medo
Você diz que sabe de si
Você diz que se conhece
Você diz que me conhece
E que eu sou a mesma
Você se auto - engradece
Não que esteja errado
Se engrandeça mesmo
Brilhe mesmo
Pense em você mesmo
Mas não minimize nosso amor
Seja quem e o que você quiser
Só não ache que tudo isso é menor
Você pode não amar
Mas não desame quem ama
Você pode não se dedicar ao amor
Mas deixa minha dedicação
Você pode se conhecer
Pode me conhecer
Só não mate minha presença em seus olhos
Não esnobe meu amor
Ele, meu bem, ainda vai te salvar de você mesmo.



Rafaela Valverde


domingo, 14 de maio de 2017

Pausa nos estudos


Estávamos sentados estudando para as provas finais. Geralmente a universidade ficava bastante agitada nesse período de provas, mas naquele horário a biblioteca estava calma, com poucas pessoas circulando. A sala em que estudávamos estava mais escura que o normal e passou pela minha cabeça que talvez uma das lâmpadas tivesse queimado.

Realmente queria estudar, pois não tinha ido muito bem esse semestre. Ele porém, não parecia muito interessado nos textos. Foi enfiando a mão embaixo da minha saia, o que eu prontamente reivindiquei. Estávamos em um lugar público. E daí, ele disse. Ninguém tá vendo, disse em seguida. Realmente sua mão estava por debaixo da mesa e não dava para quem tivesse de longe ver nada.

Deixei sua mão ali. Ela era macia, firme e delicada ao mesmo tempo. Não sei como isso era possível mas era. Ele sabia me masturbar deliciosamente bem. Ia massageando meu clitóris e eu ia ficando cada vez mais molhada com aquela mão familiar em mim. Nunca tínhamos feito nada assim em público e eu percebia em seu rosto que ele estava se divertindo.

Ele me lançava olhares safados e passava a língua ao redor dos lábios. A essa altura apenas fingíamos que estudávamos. Ninguém estava mais interessado em teoria linguística quando havia um pequeno incêndio acontecendo por ali. Eu sorria e ao mesmo tempo olhava disfarçadamente para os lados. Me surpreendi com minha desfaçatez, não me imaginava sendo assim.

Em um determinado momento da nossa aventura bibliotecária, suspirei alto e recostei na cadeira, desistindo de vez dos textos. Eu já estava perto de gozar e precisava me concentrar. Ele passeava com mais força por dentro de mim, mas uma força precisa que sabia do que eu gostava. Gozei soltando alguns pequenos gemidos e relaxei totalmente. Ele tirou a mão debaixo da minha saia e lambeu os dois dedos que antes estavam dentro de mim.

Arrumamos os materiais impacientemente e corremos para a residência universitária, onde ele morava. Ficava bem perto dali e fomos rápido para manter a chama. Os amassos começaram na porta mesmo, já fui tirando a camisa dele e quando já estávamos na cama, ele levantou minha saia, que era comprida, arrancou minha calcinha e começou a me chupar bem devagar. Uma delícia. Gozamos juntos, com a sensação  de que tínhamos estudado bastante e que criaríamos nossas próprias teorias.



Rafaela Valverde

sábado, 13 de maio de 2017

A lua no cinema - Paulo Leminski


A lua foi ao cinema,
passava um filme engraçado,
   a história de uma estrela
que não tinha namorado.

   Não tinha porque era apenas
uma estrela bem pequena,
   dessas que, quando apagam,
ninguém vai dizer, que pena!

   Era uma estrela sozinha,
ninguém olhava pra ela,
   e toda a luz que ela tinha
cabia numa janela.

   A lua ficou tão triste
com aquela história de amor,
   que até hoje a lua insiste:
- Amanheça, por favor!



Rafaela Valverde

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Minha trajetória acadêmica

Em 2010 passei no vestibular da Uneb - Universidade do estado da Bahia para o curso de Pedagogia, que eu não sabia exatamente do que se tratava, mas como achava que queria fazer psicologia, achei que pedagogia tinha semelhanças com psico e lá fui eu. As aulas começaram no dia 12 de abril e ainda era tão menina, ia fazer vinte e um anos e estava noiva. Nessa época eu trabalhava e estudava e só vivia cansada, dormia na aula e não sei como eu consegui lidar com oito matérias assim. Uns dois meses depois fiquei desempregada e minha mãe que me ajudava com a faculdade. Casei no mesmo ano e continuei nos semestres seguintes com as oito disciplinas.

Depois de um tempo comecei a pegar menos matérias e fui ficando atrasada, separada das minhas colegas e amigas que tinha feito naqueles meses. Acredito que  isso tenha me desmotivado bastante, além  de uma monitoria que fiz e não recebi o dinheiro ao qual tinha direito e precisava. Por essas e questões de não gostar e não me adaptar com algumas disciplinas e questões do curso acabei abandonando. Eu não via mais graça em estar ali, fazendo aquele curso. Me sentia sem perspectivas.

Foi nessa época que passei a dar mais atenção ao blog e quis seguir o sonho de escrever, de ganhar dinheiro escrevendo e botei na cabeça que queria ser jornalista. Por que queria escrever de qualquer jeito. Até pensei em fazer letras, mas tinha horror à licenciatura e à sala de aula. Tentei entrar na UFBA em jornalismo e não consegui. No ano de 2013 depois de uns meses fora do Departamento de Educação da Uneb, decidi voltar. Mas durou pouco tempo. Minha falta de afinidade com o curso era latente, eu não me dava bem com a maioria dos professores de lá que eram muito arrogantes. Não tinha motivação para ir até lé, nem para fazer as atividades, nem de olhar para as caras dos professores. Saí de novo e dessa vez pra valer.

Em 2014 depois de mais um Enem tentei novamente o curso de jornalismo na UFBA e não consegui. Porém fiz um vestibular na Unijorge e passei, consegui um FIES e fui fazer jornalismo nesse centro universitário privado. Não me adaptei muito bem lá. A universidade parece um shopping, com praças de alimentação bem grandes e quase nenhum apoio a alunos de baixa renda. Me sentia deslocada, um peixe fora d'água. Fora que a sala que eu estudava era super barulhenta e imatura, me sentia estudando em uma escola de ensino médio. Fora que com boletos todo mês e o salário que eu ganhava não estava dando, daí decidi usar a mesma nota do Enem e ganhar uma bolsa em uma universidade diferente e melhor. Consegui a bolsa e ia começar o semestre no mês de agosto de 2014. Enquanto isso, minhas colegas estavam se formando. 

Faltando poucos dias para começar o semestre na FSBA - Faculdade Social da Bahia eu recebi uma ligação  avisando que não havia formado turma para jornalismo e que o curso estava praticamente extinto na universidade. Eu teria que escolher outro curso ou desistir da bolsa. Dentre os cursos que me ofereceram fiz a merda de escolher um. Eu não acreditava mais que pudesse entrar na UFBA  e seguir a carreira acadêmica que eu tanto sonhava. Então eu escolhi psicologia. Entrei sem semestre definido e pegava disciplinas introdutórias misturadas com as mais avançadas e não entendia os conceitos básicos tendo certa dificuldade em acompanhar. Sentia o tempo todo que me formaria sem nenhuma perspetiva, não me sentia feliz ali, nem no curso e nem na faculdade. Fora que é perto do campus da UFBA em que estudo hoje e pegava os mesmos ônibus que vários alunos da Federal que ali desciam e ficava pensando que meu lugar era ali, que um dia eu gostaria de descer antes, naqueles ponto.

O que começou a me tirar daquele curso e daquela faculdade foi a dificuldade em estudar. Os textos eram longos e meu tablet havia quebrado, me impossibilitando de ler a maioria dos textos. Eu teria que tirar xerox ou imprimir todos e não tinha grana para isso, apesar de estar trabalhando na época. Comecei a tirar notas ruins e a faltar nas aulas de sábado, já que trabalhava aos finais de semana. Eu sabia que tinha que sair dali e exatamente no meio do ano de 2015, no SISU do meio do ano eu decidi que eu iria para a UFBA em qualquer curso. E eu entrei em Letras. De primeira. Sabe se que as notas de corte desses cursos são bem baixas e não foi tão difícil. Fiquei muito feliz. Acho que foi um dos poucos dias mais felizes que tive naquele ano. Dia 15 de junho de 2015. A universidade estava em greve, fiz matrícula, mas só comecei a ter aulas em janeiro de 20016, ano passado e hoje estou no quarto semestre e realmente estou onde eu merecia, precisava e queria estar. Eu dou aulas particulares de Português e agora vou assumir salas de aula em uma escola estadual. Eu estou muito feliz e realizada na minha vida acadêmica. Eu amo ensinar. Eu já faço pesquisa e sou bolsista de Iniciação Científica. Eu vejo  a realização do meu sonho chegando, chegando aos poucos. Eu tenho contato mais direto com literatura, algumas disciplinas de literatura do curso são fascinantes e eu adoro entrar naquele portão todos os dias. Por mais que a coisa não seja fácil. É muito estudo. É tudo bem diferente de todas as universidades em que já estive. Mas eu adoro, finalmente me encontrei.

Não desista do seu sonho, não hesite em sair de algo que não te faz bem, onde você não quer estar. Saia e vá atrás do que realmente você quer. Porque uma hora dá certo. Essa é a loucura da minha vida acadêmica até agora, minhas desistências e conquistas. 



Rafaela Valverde

O que eu sei


Eu sei que trocamos juras de amor. Estávamos deitados de conchinha. Eram 4:26 de uma madrugada qualquer. Fazia frio. Quem raciocina no frio? E de madrugada? Ninguém. Eu sei também que aquelas juras podem não ter sido verdadeiras, a promessa de que estaríamos sempre juntos não vingou. Seguimos separados e eu sei que é assim que vamos ficar.

Eu sei que você não levou nada daquilo a sério. Depois daquelas madrugadas vieram outras, outras que ficávamos acordados fazendo planos para um futuro. Esse futuro hoje é tão distante e inexistente que eu nem sei porque perdemos tanto tempo assim falando nele. Talvez porque nos amássemos. Naquela época era tudo mais fácil, éramos muito jovens e ainda não tínhamos descoberto as maldades da vida adulta. Sabe, gente adulta estraga tudo. Complica tudo. Não gosto muito da adulta sem sonhos que me tornei hoje.

Não tenho sonhos, nem expectativas. Não imagino nós dois juntos. Eu apenas me aproveito de você para ter inspiração para escrever, porque meus leitores gostam. Por incrível que pareça, há pessoas que gostam das minha ladainhas. Mas eu não penso em nós dois tendo futuro. Eu só vejo nós dois separados mesmo, mas eu finjo que acredito pois isso rende textos, afinal de contas isso que eu sinto por você tem que servir para alguma coisa, não é?

Eu sei. Eu sei muitas coisas. Mas o que eu sei mesmo é que foi tudo da boca para fora. O que eu disse e o que você disse. Pois, afinal de contas, quando jurei te esperar até oitenta anos eu não imaginava que ia demorar tanto. E quando você disse que eu nunca mais iria chorar e que você estaria cuidando de mim para sempre era mentira. Não sei muito bem se uma mentira deliberada ou se você se enganou e se atrapalhou todo no meio do caminho.

Vai demorar. Está demorando. Isso eu já constatei há tempos. O que você acha? Que eu vou te esperar aqui mais dez, vinte, trinta anos?  Você acha mesmo que eu vou te esperar até quando não tiver mais nenhuma melanina em meu cabelo e quando meus ossos forem tomados pela osteoporose? Se você acha isso mesmo saiba que você está certo. Estou aqui esperando, o tempo que for necessário, no meu canto, sem expectativas e calada, só esperando minha hora, se ela chegar. Se não, paciência, mas eu estarei com meu dever cumprido. Estarei aqui, sempre aqui, incondicionalmente. Indo a festas, viajando, estudando, conhecendo outras pessoas de vez em quando; bebendo e fumando um cigarro, esperando o tempo passar lentamente.  Eu posso não saber tudo, mas sei que é o que eu quero e devo fazer, é esperar por você e cumprir aquelas promessas das 4:26 de uma madrugada qualquer.



Rafaela Valverde


quarta-feira, 3 de maio de 2017

Quando você está aqui


De repente tudo vira coisa de casal. De repente não quero mais ir ao cinema sozinha e percebo que você é aquela pessoa que  eu procurava para conversar sobre os filmes cabeça que eu tanto assisto. Um belo dia acordo sozinha na cama e te procuro do lado, deve ter sido reflexo do final de semana em que dormi com você.

As coisas que eu fazia sozinha antes, hoje ficam muito mais divertidas com você. Mesmo aquele disco triste do Legião Urbana que escuto quando estou triste para ficar mais triste ainda, fica melhor quando escuto com você. Porque você entende a minha necessidade de ouvir músicas tristes e também você é umas das poucas pessoas que conhece o disco e se deixou influenciar pelo meu gosto musical e hoje gosta tanto dele quanto eu.

Sobre cozinhar sozinha ouvindo uma música e bebendo vinho? Isso perdeu a graça também. Eu sempre quero ter você por perto. é incrível como preciso sempre compartilhar algo com você. Óbvio que tenho  meus momentos de estar sozinha. Quem não precisa ficar consigo mesmo às vezes? Mas a primeira pessoa que penso quando quero companhia é você.

Nos momentos em que preciso comemorar alguma nota boa, alguma pequena conquista é em você que eu penso. Ultimamente tudo virou coisa de casal: pretextos para te ver. Jantar à luz de velas, aquela música mais sensual. Imagino logo a gente na cama, se enroscando. Ah, seu beijo! Eu não preciso de mais nada, eu não preciso de mais ninguém. Minha felicidade se resume a minha plenitude como pessoa e se resume a você na minha vida. Se você estiver aqui tudo fica mais completo, a minha felicidade se torna mais realista.

Você e sua racionalidade trazem mais equilíbrio para minha loucura, especialmente para aquelas loucuras noturnas que impedem meu sono profundo de acontecer. Sou notívaga, você também é. Dormimos ao raiar do dia conversando, ouvindo aquelas músicas loucas do Youtube ou fazendo amor. E que amor! Que delícia de amor, o que a gente faz. Seu cheiro me enlouquece e sei que o meu também, meu cheiro fica no seu travesseiro de manhã, quando vou embora. 

Enfiados no edredom, nossa vida rende. Rende histórias, rende tudo que passamos e tudo o que ainda queremos passar e viver juntos. Nossa vida fica mais larga quando estamos juntos, mais forte. Somos bons em tudo. Tudo o que fazemos juntos dá certo, nossa parceria dá certo, sempre deu. Eu e você somos um. Não precisamos nos completar, mas nos suplementamos, somos melhores um com o outro. É assim que enxergo a gente. Quando estou sem sono observo as estrelas da minha sacada e imagino que estar ao seu lado é o que eu mais quero. A minha vida toda, até  envelhecer.

Saindo da varanda, olho para minha maior estrela dormindo em minha cama. Você respira calmamente e quase sorri. Sei que também está feliz. Sei que se sente todo bobo em relação a mim. Sei que me ama. E de repente sinto uma paz. Me enfio debaixo das cobertas e me enrosco em você. De repente tudo vira coisa de casal. De novo. E eu gosto disso.



Rafaela Valverde


terça-feira, 2 de maio de 2017

Trem - Bala - Ana Vilela


Não é sobre ter todas as pessoas do mundo pra si
É sobre saber que em algum lugar, alguém zela por ti
É sobre cantar e poder escutar mais do que a própria voz
É sobre dançar na chuva de vida que cai sobre nós

É saber se sentir infinito
Num universo tão vasto e bonito, é saber sonhar
Então fazer valer a pena
Cada verso daquele poema sobre acreditar

Não é sobre chegar no topo do mundo e saber que venceu
É sobre escalar e sentir que o caminho te fortaleceu
É sobre ser abrigo e também ter morada em outros corações
E assim ter amigos contigo em todas as situações

A gente não pode ter tudo
Qual seria a graça do mundo se fosse assim?
Por isso eu prefiro sorrisos
E os presentes que a vida trouxe para perto de mim

Não é sobre tudo que o seu dinheiro é capaz de comprar
E sim sobre cada momento, sorriso a se compartilhar
Também não é sobre correr contra o tempo pra ter sempre mais
Porque quando menos se espera, a vida já ficou pra trás

Segura teu filho no colo
Sorria e abraça os teus pais enquanto estão aqui
Que a vida é trem bala, parceiro
E a gente é só passageiro prestes a partir

Laiá, laiá, laiá, laiá, laiá
Laiá, laiá, laiá, laiá, laiá

Segura teu filho no colo
Sorria e abraça os teus pais enquanto estão aqui
Que a vida é trem bala, parceiro
E a gente é só passageiro prestes a partir




Rafaela Valverde

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Retrato - Cecília Meireles


Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?




Rafaela Valverde

Há dez anos eu fazia 18


Há dez anos eu completava dezoito anos, eu achava, assim como todo adolescente, que os dezoito anos abririam portas e tornariam a vida mais fácil, ou mais feliz. Ou pelo menos diferente. A gente sempre trata as idades como etapas. Na verdade, o tempo ou uma determinada quantia de tempo. Até os dezoito, antes dos trinta, depois dos trinta, etc. Sempre há rótulos e demandas a depender da década em que se vive.

A gente não se dá conta e acaba sendo a mesma pessoa que foi no ano e na idade anterior, mas a gente muda muito. E é claro que em dez anos muitas coisas mudam, inclusive na aparência e no peso. Engordamos e melhoramos. Deixamos os óculos de lado e evoluímos intelectualmente e muitas outras mudanças. Eu, por exemplo, ao contrário de dez anos atrás, adoro poesia. Eu não tinha paciência nenhuma para poemas. Eu tinha problemas de auto estima e me achava feia.

Eu tinha dezoito anos e quando a gente tem essa idade tem muito pouco o que mostrar além das aparências. Ainda não construímos nada, salvo em raras exceções, não temos experiência e ainda estamos começando a vida, aprendendo e adquirindo experiências. Dessa forma, as aparências são bastante valorizadas mesmo.  Funciona assim: "fulaninho é feio, cicraninho é gordo e feio..."

Bom, pelo menos é assim que eu vejo hoje. Não é porque os meninos são malvados, não. É porque são adolescentes. Eu fui adolescente e há dez anos, há apenas dez anos eu completava dezoito. E sem que eu me desse conta os anos foram passando, as coisas foram acontecendo e eu fui mudando. Muita coisa aconteceu. Mudei de empregos, de cursos na faculdade, casei, separei, sofri, chorei, sorri, me divertir, viajei. A vida foi passando e fui me tornando quem sou hoje.

E com certeza hoje não vejo apenas aparência no espelho, nem minha e nem das outras pessoas. Somos muito mais que um corpo magro, ou um cabelo liso e uma pele perfeita, somos seres humanos. Com subjetividades, peculiaridades, sentimentos e atitudes. É isso, dez anos é um período curto ao mesmo tempo que é uma grande quantidade de anos. Depende do ponto de vista, depende do que se faz em dez anos. Eu aprendi muito, eu sou outra pessoa. Bem mais gorda, sem óculos, cacheada e sem química, com uma mente aberta, escritora, independente que sabe o que quer da vida. Eu cresci!




Rafaela Valverde

terça-feira, 25 de abril de 2017

Texto que minha amiga Fernanda fez para mim ♥

Recebi esse maravilhoso texto da minha amiga Fernanda no domingo, meu aniversário. Eu amei! Me emocionei demais com essa genial definição de mim. Só quem é muito boa com as palavras e me conhece bem demais é capaz de me descrever tão bem. Obrigada, miga. Te amo, também, amei a homenagem.
A referida foto é essa abaixo:





Você pra mim é como uma rosa. Flor que sabe ser aroma e espinho. Amor e dor. Pode perfumar e também perfurar. Pode estar tanto no início quanto no fim. Pode vir em variações dependendo de quem observar. As vezes num vermelho intenso e esplêndido, outras num branco poético e de paz. Pode refletir o romantismo dos que te querem como presente ou a brutalidade de quem tenta do seu jardim te arrancar. 
Escrevo isso na tentativa de eternizar-te em mim como és na sua mais pura essência: Flor! 
Gosto muito dessa foto e mais ainda de você. E enquanto pudermos e quisermos, serei apreciadora da tua beleza e felicidade. Feliz vida, flor da minha!♥♥





Rafaela Valverde

Apaixonamentos


Apaixonamentos estão fora de questão
Sabe, aqueles em que ficamos bobos
Sem saber o que fazer ou falar
Isso não tem mais cabimento por aqui
Não há mais quem caia nessa
Pelo menos entre as gentes que se prezem
Apaixonamentos não têm vez!
Encantamentos são estupidez!
Não adianta fingir que é mais forte que o mundo
Se cai nessas ciladas
Feito idiota
Mas aqui essas coisas estão fora de questão, repito
Não  há o que se discutir
Aqui não entram mais, em meu peito
Esses típicos apaixonamentos
De quem anda à toa por aí
Sem saber como andar
E para onde ir
Apaixonamentos não!




Rafaela Valverde


segunda-feira, 24 de abril de 2017

Recife - Erel 2017


Estive esse mês pela primeira vez em Recife Pernambuco. Fui ao Erel - Encontro Regional dos Estudantes de Letras. Fui apresentar pela primeira vez meu trabalho de pesquisa. Tivemos alguns perrengues, eu e meus amigos, em relação ao acampamento e à organização do evento realizado pela UFPE, mas fora isso amamos Recife.

Eu pelo menos gostei bastante. Visitamos Olinda e Porto de Galinhas que são municípios próximos da capital. Essa foto acima é de Recife antiga, Marco Zero. Primeiro lugar que fui. Além de atividades acadêmicas na universidade, turistamos bastante na cidade e região. Tenho que dizer que sempre rola alguma comparação e eu senti inveja de Recife por dois motivos principais, claro que foram só cinco dias que estive lá, então minha análise é superficial. Então, os pontos que tive inveja da cidade foi que Recife conserva seus prédios históricos e consequentemente sua história. Pode ter problemas do tipo mas meus olhos encantados de turista viu poucos prédios mal conservados e nenhum em ruínas e perto de cair.

Como eu disse, pode ser que meus olhos tenham se enganado, mas foi essa a impressão que tive. A segunda inveja de Recife é relacionada à limpeza urbana. Sinceramente, alguém dizer que Salvador é uma cidade limpa deve ser cego. Soteropolitanos são muito mal educados e em a cada canteiro, bueiro e canto da nossa cidade é possível encontrar alguma embalagem de picolé ou garrafa de água. É só sair olhando atentamente os cantos da cidade, que vê fácil, fácil a sujeira de Salvador.

Eu observei os cantos de Recife também. Pouco, pelos poucos dias que passei lá, não é suficiente, mas ainda assim, notei que os cantos entre a rua e meio fio não têm garrafas de água, nem palitos de picolé como aqui na minha amada cidade. Perto da UFPE tem várias barracas de lanches e ponto de ônibus, por ali dá até para ver talvez um papel de bala ou outro que o vento leva, mas é diferente da sujeira que parece que brota do solo de Salvador. Enfim, eu acho que é mais uma questão de educação mesmo, já que o cidadão soteropolitano atira quantidades enormes de lixo pelas janelas dos ônibus e carros. É isso, é só minha impressão sobre alguns fatos que observei na cidade. E fora que Recife já tem BRT que é um tipo de ônibus mais rápido, com pontos específicos e que dizem que há anos que terá em Salvador também. Enfim, amei Recife, Ipojuca que é onde Porto de Galinhas e Olinda.




Rafaela Valverde

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Jogos Vorazes e o protagonismo feminino


Reli Jogos Vorazes. Dessa vez li meu próprio livro, sem muita pressa, mas ao mesmo tempo devorando. Porque não tem como ler aquela história sem devorar. Já tinha lido há uns dois anos, mas era emprestado. Se eu já amei a história na época, agora amei mais ainda pois li com mais calma, mais atenta aos detalhes e conceitos, implícitos ou não.

Vejo o livro como um embate do feminismo com o machismo, além de outras questões, já que se trata de uma distopia, com jogos intrinsecamente políticos. Os próprios jogos vorazes que dá nome ao livro vêm de uma situação de opressão que vive um povo em relação aqueles que o governam. Mas, voltando ao embate machismo x feminismo, eu consegui ter algumas percepções que não tinha tido antes.

Katniss Everdeen, a mocinha  rebelde do livro, está sozinha lutando contra um mundo masculino, onde os homens dizem o que ela deve vestir, como se comportar para agradar as pessoas e outro homem, além de o próprio presidente de Panem, o pais distópico em que ela vive, é um homem, que organizou durante anos os jogos. Há ainda os organizadores dos jogos e Haymitch, seu mentor. 

Em alguns momentos percebo que ela se sente mal em estar cercada de tantos homens, já que suas maiores referências na vida atual são mulheres: sua irmã e sua mãe e estão longe, lá no Diistrito Doze. A  única referência masculina era o pai que morreu quando ela ainda era criança. Foi o pai que fez com que Katniss se tornasse a pessoa forte que é. Ele a levava para caçar, ele ensinou como se virar e como usar arco e flecha. A mãe dela é uma mulher totalmente silenciada na narrativa. Talvez propositalmente para que a protagonista tivesse mais luz.

E ela consegue. Mesmo com apelidos como "a garota quente" e a insinuação de que ela deveria agradar e ter um romance com Peeta, já que ele a amava desde sempre, como ele mesmo afirma durante uma entrevista. Todos ou quase todos os momentos do livro vêm com uma carga emocional forte para derrubar Kastniss, para dizer que talvez ela não seja tão forte assim. Mas ela é. E prova isso.

É claro que talvez devêssemos levar em consideração que todo esse jogo de poder dado a uma mulher em um livro, ou três livros, seja uma jogada de marketing intencional. É claro que eu amo essa trilogia e nunca vou deixar de amar, mas também já perdi a inocência há alguns anos.  A gente não aceita mais uma mocinha ingênua e idiota. O mundo mudou e nós mulheres mudamos, queremos e precisamos de protagonistas mulheres fortes e destemidas. E foi o que Jogos Vorazes nos deu em sua trilogia. Uma mocinha que conta sua própria história, que não se cala, que se sustenta a si mesma e a sua família, uma mocinha guerreira que sabe lidar com arco e flecha. Uma mocinha não, uma mulher forte e decidida que apenas fazem os homens acreditarem que ela está fazendo o que eles querem. Viva Jogos Vorazes!



Rafaela Valverde

segunda-feira, 17 de abril de 2017

As histórias dos livros usados


Eu gosto de comprar livros usados, geralmente em sebo ou nas ruas. Não são necessariamente velhos, e sim antigos, donos de histórias e cheios de histórias de seus donos. Trocadilhos à parte, sabemos que quando compramos livros usados, eles sempre vêm carregados de significados, de histórias de outras pessoas, de outras vidas. Há nomes que indicam os antigos donos, há marcas nas páginas e sublinhas.

Em alguns livros que eu comprei têm dedicatórias que contam, por si só histórias. Gosto de ficar imaginando que são para mim. Imagino que alguém muito especial me deu aquele livro e o abraço com força. Vai que de repente aquela pessoa especial se materialize. Nunca se sabe o que cada nome ou dedicatória vai nos fazer lembrar.

No meu livro Jogos Vorazes, que comprei em um sebo têm uma dedicatória super fofa, com uma letra caprichada e diz mais ou menos assim: "espero que esse livro te deixe mais inteligente do que já é." Eu achei isso tão lindo. Dizem que dar livro é elogio e eu concordo com isso. Alguém que recebe um livro que levou tempo para ser escolhido deve se sentir agraciado.

Claro que também há o outro lado. Alguém vendeu ou trocou em um sebo um livro que ganhou. A pessoa deve ter tido seus motivos, é óbvio. Até eu já troquei livros que ganhei de presente em sebo. E não me arrependi. A pessoa que ganhou pode ter morrido e a venda é obra da família, ou então pode ser um relacionamento que acabou, ou simplesmente a pessoa pode estar se mudando e simplesmente não tem mais espaço para alocar os livros. Enfim, são inúmeros os motivos que podem levar os livros até o sebo, enfim. É só uma pequena reflexão sobre livros usados e antigos. E s histórias que eles contam, histórias intrínsecas nos livros, mas escrita pelos seus donos.


Rafaela Valverde


segunda-feira, 3 de abril de 2017

Andando em círculos


Tudo é muito confuso. Eu não sei se você me quer. Na verdade eu sei que não quer. Eu só não gosto de admitir e fico mergulhada nesse vão imundo. Estou presa em você, estou presa nesse sentimento cheio de limo e bolor. Não porque é um sentimento sujo, mas porque já dura tempo demais. Me pergunto e  pergunto a Deus quando vai acabar. Se vai acabar. E por que não acaba? Qual a razão disso ainda corroer meu peito me trazendo lágrimas aos olhos em madrugadas modorrentas.

Tenho medo. O medo me persegue constantemente. Tenho medo da ansiedade e a ansiedade me deixa com medo. Desconto tudo na comida, na bebida e no cigarro. Claro, não posso me entregar a você, então me entrego aos vícios prazerosos que um dia acabarão com minha vida. Eu não ligo. O dia de hoje é mais um dia desses últimos anos em que eu estou vivendo sem você. Não muito bem, talvez apenas sobrevivendo e cumprindo minhas obrigações como  uma cidadã decente.

Eu não sei o que temos. Eu sei que já tivemos alguma coisa. Mas escorreu pela minhas mãos como água. Nosso amor foi sólido durante esses anos, mas acabou rapidamente como um rio escoando para bem longe de mim. Não sei, não. Acho que eu espanto você. Acho que não sou o que você procura e em todos esses anos só agora você descobriu. Não culpo você. A vida é assim mesmo, nós somos assim mesmo. Seres humanos toscos, cheios de indecisões e defeitos.

Toda a minha esperança foi embora no dia que você se foi de vez. Ao longo dos dias em que não vi você voltando, durante aqueles dias vazios e sombrios eu matei a minha esperança. No lugar dela ficou um buraco fundo, parece um poço. Ele se enche de lágrimas quando você me chama de maluca quando eu digo que te amo. Ele, o poço, nunca vai transbordar, derramar e se cansar. Parece que não. Ele tem sede, ele enche e seca. Para logo em seguida encher de novo. Um círculo vicioso miseravelmente baixo, que me faz passar por uma enorme humilhação diante do mundo. Sim, é tudo muito confuso. E mesmo que você passe noites inteiras conversando comigo, você nunca vai conseguir ter noção de tudo o que eu sinto, você nunca vai saber como é esse poço sem fundo, vazio e escuro dentro de mim.

É, eu sei. Pareço chata, às vezes. E sou mesmo. Sou chata. Até eu mesma já enchi de mim. Não suporto mais me ver te amando. Grito mentalmente que não deveria sentir essas coisas que já duram uns dez anos, mas elas insistem em se manter aqui. Enchendo meu saco, me perturbando. Mas eu juro, eu juro mesmo, que não vou mais terceirizar essas coisas e não vou mais passar isso para você. Você não vai mais precisar lidar com isso, eu juro. Você vai mesmo esquecer que eu existo, porque sim, eu vou sumir dos seu campo de visão. Me perdoe. Mas eu não sou maluca. Eu apenas te amo.



Rafaela Valverde


quarta-feira, 29 de março de 2017

Aquele nosso tesão



Eu estou sem me depilar há dias. Esse não é o momento para fazer sexo, mas ele está bem aqui, atrás da porta, no lado de fora, esperando por mim. Eu sei o que vai acontecer se eu abrir. A gente não consegue se desgrudar. É uma atração tão intensa  que às vezes acho que nossos corpos já foram xifópagos em algum momento da história da humanidade.

Nos encontramos sem querer na rua, depois de um tempo sem nos ver, e eu casualmente, respondi que ainda morava no mesmo endereço. É claro que eu sabia que ele viria, mas não tão rápido. Amo e odeio essa agonia que estou sentindo. Fechei os olhos e tentei controlar minha respiração arfante. Virei e abri a porta.

"Oi." Falei sem olhar seus olhos. Ele abriu aquele sorriso e respondeu um "oi" maroto. Olhar safado e sorrisinho de canto de boca. "O que você tá fazendo aqui?" Respondeu: "Posso entrar?" Respirei fundo e me afastei da porta abrindo espaço para ele entrar. "Uau, reformou!"  Revirei os olhos e sorri. "Só uma pinturinha. Quer beber alguma coisa?" 

"Você." Olhei pela primeira vez em seus olhos. Estava tremendo, excitada. "E talvez uma cerveja, sei que sua geladeira é fã de cerveja." Mordi os lábios e fui até a cozinha, que era contígua à sala, separada apenas por um pequeno balcão. Peguei a pequena garrafa de cerveja e entreguei a ele que sentou na mesma poltrona de sempre.

"Você ainda não me disse o que veio fazer aqui."  Ele me olhou tomando um longo gole de cerveja. "Disse sim, eu vim beber você."  Levantei os braços, em sinal de protesto. "Não sei porquê você faz isso." Levantei e sentei de frente em seu colo. O beijo com gosto de cerveja mais gostoso da minha vida. "Estou toda molhada." Sussurrei em seu ouvido. "Eu sei." 

Nos amassamos por ali mesmo. Ele arrancou meu vestido e fiquei só de calcinha. Ele estava ereto e eu estava quase enlouquecendo. É muito tesão! É um tesão que amolece cada fibra e estrutura do meu corpo. E não é só tesão, é paixão. Assim, fica tudo mais apimentado. Passava a língua lentamente pelos meus seios, sem pressa e ao mesmo tempo com um desespero indecente, que não dava para resistir. Revirava meus olhos de prazer, gemendo bem baixinho.

O clima esquentava cada vez mais e eu já estava quase pegando fogo. Quando ele enfiou a mão em minha calcinha. 'Está peludinha, adoro quando está assim." Fiquei um pouco surpresa pois é raro encontrar um homem que goste de pelo. Mas essas críticas aos homens deixarei pra depois. Ele está com dois dedos dentro de mim, fecho o olhos e aproveito o momento para começar a gozar. Ele interrompe, me carrega e me leva para o sofá. Começa a me chupar. Só saímos do apartamento na tarde do dia seguinte. Satisfeitos e sem saber quando nos veríamos novamente.



Rafaela Valverde


terça-feira, 28 de março de 2017

Instruções para um poema livre



A construção de um poema
Não deve ser assim tão fácil
Mas deve valer a pena
Alguém há de querer ler
Nenhuma palavra indócil
É preciso saber
Das aventuranças do leitor
Se interessa pelas suas rimas?
E pelos seus versos livres?
E pelas suas ideias de amor?
Isso não é amor
É só poema.
Por isso parei de rimar
O amor também não rima
Que se lixe!
Quero é fazer  um poema
E depois dizer como fazê-lo
Quero ficar famosa
Quero ser o Pessoa
Oh! Mas não vê que é impossível?
Ninguém lê poema como  na época de Pessoa
Ninguém lê mais nada
Especialmente essas histórias ridículas
E essas instruções idiotas de como fazer um poema
Combinadinho, com sextilhas e famílias!
Que se dane!
Como se constrói o que não quer ser construído?
Como assim, o poema tem livre vontade?
Sim, ele surge na penumbra e ressurge no amanhecer
Na ponta dos dedos, como mágica
Se espreme e sai
Mas quando quer
Não quando eu quero e nem da forma que você quer que seja!
Se conforme, o poema tem vontade própria.
E isso é uma droga!
A vida também.
Vicia e mata
Você aproveita a vida, fica presa a ela
É o vício
Depois ela sai de você
Ela te mata
Você morre!
Acabou!
Não tem poema,
Nem construção,
Nem obra,
Nem vida
Mas o  poema
Esse continua valendo a pena!



Rafaela Valverde


sexta-feira, 24 de março de 2017

Livro O lado bom da vida - Matthew Quick


Tenho O lado Bom da Vida desde 2014. O que motivou a compra foi o filme, que assisti antes e o Oscar de Jennifer Lawrence por interpretar Tiffany. Comprei e li uma vez de forma rasteira, sem prestar muita atenção. Li só por ler e não gostei. Até tentei vender esse livro no ano passado, mas ainda bem que não vendi porque eu o reli e amei. Achei um bom livro, leitura agradável, apesar  de muito futebol americano, personagens bastante humanos, reais. Pelo menos em relação a certas mudanças de comportamento e problemas  que todo mundo tem, sabe? Bem, vou parar de divagar sobre o livro e vou ao que realmente interessa.

Esse livro foi escrito por Matthew Quick e lançado em 2008 virando logo um best seller nos EUA e em seguida sendo traduzido para outros países e obtendo o mesmo sucesso. Enfim, o livro traz a história de Pat Peoples, um professor de história que se vê numa clínica psiquiátrica, tendo que lidar com uma nova vida e com o "tempo separados" que é o que ele chama  a separação da esposa Nikki. Alguns anos passam enquanto ele está internado na clínica e quando ele sai algumas coisas estão bastante mudadas.

Ele conhece Tiffany e iniciam uma amizade. Pat aguarda obedientemente o que ele pensa que é apenas um período separado, mas sua esposa Nikki já se divorciou dele, não existe mais possibilidade de volta. Mas Pat acredita tão ingenuamente no restabelecimento do seu casamento que chega emociona, sabe? Ele luta para mudar e se transforma numa pessoa melhor, já que não havia sido um bom marido, ele passa a malhar e ler os livros que sua esposa tanto queria que ele lesse. Enfim, Pat passa por um longo processo de sofrimento e mudança. É quase catártico observar essa mudança. É uma história de superação muito gostosa de ler. Eu recomendo!



Rafaela Valverde

quinta-feira, 16 de março de 2017

Uma manhã


A minha imagem no espelho era deprimente. Olhos inchados e vermelhos, minhas olheiras quase iam até o queixo e  me sentia um caco humano. Meu cabelo estava uma bosta. Não sei como as maioria das mulheres conseguem ser mulheres, administrar tanta coisa, ainda ter cabelo e cuidar dele. Fiquei por uma fração de segundo ali olhando para minha imagem aterrorizante, mas me lembrei que tinha que trabalhar. Ainda era meio da semana e eu com cara de ressaca. O banho foi frio e rápido, como sempre. Eu vivia de saco cheio de tudo, até um banho demorado enchia me irritava. Uma xícara fumegante de café me esperava no balcão. Minha mãe era a única pessoa legal desse mundo. Levei a xícara para o quarto, enquanto tentava entender o que meu cabelo queria de mim.

Peguei a primeira camiseta que vi na minha frente e uma calça jeans. A camisa era rosa. Bom, alguma coisa diferente do meu estado de espírito sombrio, né? A minha apatia estava refletida em tudo que se relacionava a mim. Meu quarto era uma bagunça ridícula e eu sentia dor de cabeça, me lembrei ao olhar ao redor. Tomei umas aspirinas, calcei meu all star e saí de casa. Na rua, as pessoas estavam tão felizes. Não entendo o porquê de as pessoas sempre estarem sorrindo. Tudo é uma porcaria. Não consigo mais ficar satisfeita com algumas coisas. Minha vizinha lava calçada, enquanto escuta sertanejo. Por que alguém lava calçada, gente? A chuva não é para fazer isso? Não entendo isso, as pessoas se comprometem além do que é necessário para fazer coisas desnecessárias.

Continuei andando para chegar ao ponto de ônibus, eu estava atrasada. Já eram quase nove horas. Mas que se dane, eu quero me livrar de tudo e espero que esse emprego voe pelos ares. A minha infelicidade maior é estar trabalhando em um lugar que odeio em uma área que não é a minha só porque paga mais e eu preciso manter a casa. O que minha mãe ganha não dá para muita coisa e ainda tem o tratamento do meu irmão, Vinícius. Ele tem câncer. Todas essas coisas me deixam infeliz. A minha área é muito mal remunerada e valorizada, então minha mãe conseguiu esse emprego na assessoria de um vereador na época da eleição há dois anos. Ganho muito bem, mas odeio trabalhar pra ele. Odeio esse ambiente de política. Odeio a minha vida!

Meu ônibus já saía quando eu cheguei no ponto e não consegui pegá-lo. Praguejei, xinguei a mãe do motorista e toda a sua próxima geração. Eu odeio andar de ônibus. Bem, mais uma coisa para a minha lista de ódios. Respirei fundo e sentei no banquinho do ponto, teria que aguardar o próximo ônibus que chegaria sabe-lá-Deus-quando. Observei as pessoas: todas fingindo felicidade como sempre. Uma mocinha falava ao celular toda derretida com o namorado. As pessoas são patéticas.

Adiante, em frente ao ponto de ônibus, um dos shoppings mais imponentes da cidade. Um lampejo de ideia passou em minha cabeça e eu segui rapidamente seu impulso. Atravessei a rua e ao entrar no shopping entrei no salão de beleza que estava ali, não sei desde quando, na estrada do shopping. Na verdade, eu só havia entrado nesse shopping umas três ou quatro vezes. Adivinhem? Eu também odeio shoppings.

Como era de se esperar e devido ao horário o salão ainda estava vazio. "Quero cortar o cabelo!" A moça olhou para mim confusa. Ela deve ter imaginado que era muito cabelo. E era mesmo. "Curtinho, igual ao da Sandra Anemberg, aquela da globo" Sentei na cadeira e fiquei girando que nem criança. Começou o corte. Cada tufo daquele cabelo horroroso que caía eu me sentia mais leve, mais aliviada, não feliz, mas pela primeira vez em anos eu fazia o que realmente queria e seguia um impulso.

Cerca de meia hora depois o corte era finalizado e eu parecia outra pessoa. Era um corte moderno, repicado. E eu parecia mais jovem. Não bonita, jovem. Esbocei um sorriso, enquanto virava a cabeça de um lado para o outro. Paguei e saí saltitante. Outra ideia era gestada em minha mente.  Peguei um táxi. Que se fodam os ônibus, hoje vou esbanjar. O trânsito estava caótico aquele horário, mas o taxista estava ouvindo rádio e eu estava cantando as músicas. Nunca tinha tido esse comportamento feliz. De repente as coisas mudaram um pouco e fui tomada por uma coragem inesperada. Tinha que tomar decisões na minha vida, o que eu não podia mais era acordar daquele jeito todas as manhãs.

Em um um momento, calei a boca, fechei os olhos e recostei a cabeça no assento do carro, pensei em todas possibilidades e consequências. Quando abri os olhos já estava na frente da câmara de vereadores. Paguei e entrei rapidamente. Sem mais titubeios. Fui até minha sala e através do nosso serviço de comunicação pedi para falar com meu chefe ainda naquela manhã. Ele me recebeu uma hora depois, elogiou meu cabelo e se mostrou surpreso quando eu pedi demissão. "Mas por quê?" "Não quero mais trabalhar aqui, pra você. Tenho alguns projetos que pretendo realizar."  Disse que estava chateado mas não havia o que fazer. Depois de um tempo, saí da câmara. Pra sempre!

Voltei pra casa, de ônibus claro. Assim que entrei em casa, liguei para meu pai: "A partir de hoje você vai arcar com o tratamento de Vini. É seu filho e eu não vou ganhar mais como antes. Saí de lá." Ele estranhou minha atitude e disse que minha mãe não queria ajuda dele. "Ela não tem que querer nada. Não vou mais me sacrificar por que ela não quer que você faça sua obrigação!" Desliguei e fui para o quarto. Bagunça miserável. Comecei pelas roupas espalhadas pelo chão.  E em meio aquela bagunça decidi que bagunça não seria mais uma constante na vida. Com meus originais em mãos, liguei para algumas editoras que uma amiga havia me indicado há dois anos. Vou publicar meus livros. Agora o ano começou. E eu sou outra pessoa.



Rafaela Valverde






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