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quarta-feira, 19 de abril de 2017

Jogos Vorazes e o protagonismo feminino


Reli Jogos Vorazes. Dessa vez li meu próprio livro, sem muita pressa, mas ao mesmo tempo devorando. Porque não tem como ler aquela história sem devorar. Já tinha lido há uns dois anos, mas era emprestado. Se eu já amei a história na época, agora amei mais ainda pois li com mais calma, mais atenta aos detalhes e conceitos, implícitos ou não.

Vejo o livro como um embate do feminismo com o machismo, além de outras questões, já que se trata de uma distopia, com jogos intrinsecamente políticos. Os próprios jogos vorazes que dá nome ao livro vêm de uma situação de opressão que vive um povo em relação aqueles que o governam. Mas, voltando ao embate machismo x feminismo, eu consegui ter algumas percepções que não tinha tido antes.

Katniss Everdeen, a mocinha  rebelde do livro, está sozinha lutando contra um mundo masculino, onde os homens dizem o que ela deve vestir, como se comportar para agradar as pessoas e outro homem, além de o próprio presidente de Panem, o pais distópico em que ela vive, é um homem, que organizou durante anos os jogos. Há ainda os organizadores dos jogos e Haymitch, seu mentor. 

Em alguns momentos percebo que ela se sente mal em estar cercada de tantos homens, já que suas maiores referências na vida atual são mulheres: sua irmã e sua mãe e estão longe, lá no Diistrito Doze. A  única referência masculina era o pai que morreu quando ela ainda era criança. Foi o pai que fez com que Katniss se tornasse a pessoa forte que é. Ele a levava para caçar, ele ensinou como se virar e como usar arco e flecha. A mãe dela é uma mulher totalmente silenciada na narrativa. Talvez propositalmente para que a protagonista tivesse mais luz.

E ela consegue. Mesmo com apelidos como "a garota quente" e a insinuação de que ela deveria agradar e ter um romance com Peeta, já que ele a amava desde sempre, como ele mesmo afirma durante uma entrevista. Todos ou quase todos os momentos do livro vêm com uma carga emocional forte para derrubar Kastniss, para dizer que talvez ela não seja tão forte assim. Mas ela é. E prova isso.

É claro que talvez devêssemos levar em consideração que todo esse jogo de poder dado a uma mulher em um livro, ou três livros, seja uma jogada de marketing intencional. É claro que eu amo essa trilogia e nunca vou deixar de amar, mas também já perdi a inocência há alguns anos.  A gente não aceita mais uma mocinha ingênua e idiota. O mundo mudou e nós mulheres mudamos, queremos e precisamos de protagonistas mulheres fortes e destemidas. E foi o que Jogos Vorazes nos deu em sua trilogia. Uma mocinha que conta sua própria história, que não se cala, que se sustenta a si mesma e a sua família, uma mocinha guerreira que sabe lidar com arco e flecha. Uma mocinha não, uma mulher forte e decidida que apenas fazem os homens acreditarem que ela está fazendo o que eles querem. Viva Jogos Vorazes!



Rafaela Valverde

sábado, 25 de março de 2017

Alguém sabe o que é Brasil?


Esse texto é um pequeno ensaio produzido por mim para avaliação da disciplina Literatura Brasileira e a Construção da Nacionalidade do curso de Letras da UFBA.

Para o novo país, havia a necessidade de definição. Nações europeias já estavam aí há muito mais tempo. O Brasil era novo nessa coisa de ser pátria. As pessoas que habitavam o território brasileiro eram diversas já no período radical.
Um país com jeito de continente: como formar uma unidade? Com engendrar traços em comum que tornassem o povo, ou os povos que aqui viviam minimamente homogêneos? Era realmente possível? O fato é que hoje ainda não somos homogêneos, apesar das inúmeras tentativas. Graças a Deus, graças a todos os deuses, já que somos  um estado laico.
O querer ser nação foi inventado pela Europa, é claro. Ainda no século III no período do Império Romano, onde já existia esse tipo de política para impressionar e para dominar. Em Roma havia exército, guerras, corrupção, brigas políticas e dominação de povos. Segundo Ernest Renan, no texto O que é uma nação? foi a invasão germânica ao território românico que introduz no mundo o princípio da nacionalidade. É claro que esse conceito só seria desenvolvido mais tarde; a invasão foi uma base para o que conhecemos hoje. Portugal trouxe-nos de forma bastante contundente, ideias de nacionalidade como bom representante do continente europeu.
Renan escreve ainda que “[...] a essência de uma nação é que todos os indivíduos tenham muitas coisas em comum, e também que todos tenham esquecido coisas”. Dessa forma, para que uma nação seja nação, a maioria das pessoas deve compartilhar nuances de uma mesma cultura e ao mesmo tempo ocultar o que não interessa dessa mesma cultura. Em geral que é esquecido é algo ruim, ou considerado ruim ou ainda algumas culturas produzidas pelas minorias.  Existe uma crença que para o Brasil ser Brasil, se faz necessário que todos falem o mesmo português, gostem de futebol e carnaval, por exemplo. Ao mesmo tempo ser Brasil é estereotipar povos indígenas e pessoas pretas; é esquecer e ocultar escravidão e massacres desses povos; ser Brasil é acreditar piamente no mito da democracia racial, ser Brasil é  ”esquecer” de muitas outras perebas históricas e sociais de um jeitinho escroto regulamentado por nós mesmos.
Não dá para ser homogêneo. Não é possível que exista homogeneidade quando se trata de seres humanos com culturas, subjetividades e individualidades. Somos iguais perante a constituição brasileira e somos tão diferentes. Somos essencialmente distintos, isso não dá para mudar. Essas diferenças vêm de todos os fatores que já sabemos: miscigenação, intercâmbios culturais, etc. Se não há homogeneidade, tampouco é possível definir o “ser brasileiro” apenas por esse jeito de se pensar que é ser brasileiro. Não dá para definir através de futebol, carnaval, língua e novela. Aliás toda essa trama bem conduzida e interligada de que todo brasileiro gosta dessas coisas foi criada politicamente. Isso é óbvio. Como eu disse no início, era necessário vender o novo país ao mundo. E quanto a isso, meu texto é até repetitivo.
Vejamos: somos tão criativos em alguns casos que até o jeitinho brasileiro varia de região para região; duvido que o cara que burla qualquer coisa lá no Sul, burle da mesma forma que burlamos aqui no Nordeste. Nem todos gostamos de futebol, ou entendemos suas regras, como é o meu caso. O carnaval também não é unânime por aqui. Há também heterogeneidades na língua. Com dialetos e sotaques, ela não é igual em nenhum estado brasileiro.
Assim, não dá para definir nacionalidade através desses aspectos. Mas o que é ser brasileiro, afinal? “Uma nação é uma alma, um princípio espiritual.” (RENAM, P. 18) Para ele é invisível, para mim uma mentira. A nação brasileira inventada para satisfazer o resto do mundo é uma falácia.

 O próprio Renam afirmou em seu texto, que é preciso uma boa dose de  esquecimento para formação de nações.  Dessa forma exterminamos a maioria dos nossos índios, matamos pessoas pretas todos os dias. Essas ações, conscientes ou não, ajudam a ocultar o que não queremos em nossa pátria. O lado da história que queremos é o lado narrado pelo homem branco.
Nossa história começou a ser contada, como até hoje é, por homens brancos, europeus, heterossexuais. Histórias ou estórias que narram a grandeza do homem europeu que fez o favor de achar o Brasil e nos salvar dos povos indígenas selvagens que aqui viviam. Obrigada, gente!
A carta de Pero Vaz de Caminha é um dos exemplos da contação dessa estória, sim, para histórias fantasiosas é estória! A lenda do surgimento do Brasil e da nacionalidade brasileira estava esquecida e foi resgatada para ser um símbolo de brasilidade e orgulho da terra maravilhosa em que nascemos, olha que sorte!
O texto Quem foi Pero Vaz de Caminha? De Hans Ulrich Gumbrecht traz informações e reflexões importantes para refutar a carta. Caminha não só esteve aqui por apenas dez dias como também  não se sabe quase nada sobre o homem que primeiro descreveu o Brasil. Há várias outras questões no texto, listo aqui algumas delas: Pero Vaz de Caminha só esteve presente na expedição do “descobrimento” por causa de suas habilidades  para escrever. Portanto, ele já veio com essa função pré- determinada. Ou seja, a carta não foi fruto do fascínio de Caminha pelo país. Não era literatura, era um documento oficial para ser entregue ao rei de Portugal. Um relatório sobre o recém-achado país que serviria para enriquecer ainda mais a corte portuguesa. A carta descreve vários momentos  desses dez dias de convivência com  os índios: as comidas, os rituais. As danças, as relações sociais e os costumes. Tudo meio piegas  e estereotipado. O Brasil é um país rico e perfeito e é aqui que vamos nos estabelecer trazer nossos presos e extrair toda riqueza que for possível.
O texto, tratado até como literário, pode ser considerado o marco inicial dos textos nacionalistas, que montam o Brasil e o brasileiro baseado em conceitos que pretendem vender o país como paraíso tropical, com  um jeitinho malandro e lindas mulheres.
O termo nacionalismo traz uma ideia patriótica intrínseca, mas não é tão fácil definir. Não há um significado só. Nação e nacionalismo são o que querem que a gente pense que é. Para Benedict Anderson: “Nação, nacionalidade, nacionalismo, todos provaram ser de dificílima definição que dirá de análise.” (p.28)
Se Anderson está afirmando isso, quem sou eu para tentar aqui definir qualquer um desses termos. Mais a frente, o autor discute nação como algo inventado, como “uma comunidade política imaginada, [...] limitada e ao mesmo tempo soberana.” (p.22)
Dessa forma, há de se concluir que o Brasil enquanto essa nação alegre, festiva e receptiva, não existe. Não existe porque não existe um só Brasil, mas Brasis. Diversos, multiculturais, que vai além do Brasil que querem mostrar ao mundo. Parece que sempre existiu essa mania de querer difundir um Brasil especial, desde Caminha até hoje.
Especialmente a partir de 1930, quando houve uma mudança política no país, essa imagem articulada de um Brasil malandro e festeiro foi distribuída pelo mundo. Filmes, propagandas políticas, jornais, livros e gêneros literários espalhavam nosso jeito maroto de viver. Todos esses meios convergiam para confirmar a versão de Brasil  que pretendiam espalhar. Nós tínhamos e ainda temos um Brasil encomendado. Drummond, ciente disso, perguntou em seu poema Hino Nacional, se o Brasil existe mesmo e se existem mesmo os brasileiros? Esse Brasil e esses brasileiros encomendados e inventados? É a mesma pergunta que eu me faço.  
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Rafaela Valverde


quarta-feira, 15 de março de 2017

Batom


Encarava o espelho do banheiro. Olhos inchados. Chorara. Suspirou. Passou o batom roxo. Lá fora, tudo ok.
Peixes alimentados, plantas regadas. Saiu pelos fundos, pegou elevador de serviço. Mais três andares até décimo oitavo, terraço.
O sol já estava  se pondo. Mesa posta: vinho, flores e velas. Sentou olhando o horizonte, sentiu o vento roçar seu rosto e ensaiou um sorriso.
 O vinho era seco, tomou uma taça. O sol descia rápido. Também queria ir embora. O celular marcava 17:57, desligou. Passara vinte minutos, acendeu um cigarro.
Sem cerimônia, agora bebia no gargalo. últimos gole e tragada coincidiram.
Espelho na mão, passou dessa vez batom vermelho. Levantou, desamarrou o hobby, vestia sua melhor camisola.
Subiu na balaustrada, fechou os olhos e pulou.




Rafaela Valverde

terça-feira, 14 de março de 2017

O parque no domingo



Esse texto é um dos produtos da disciplina Criação Literária  do curso de Letras da UFBA, o tema é As moscas.


Era domingo e o parque estava cheio. A  tarde estava agradável e havia crianças por toda parte. Para a gente era dia de trabalho. Em um banco de cimento estava uma família: três crianças sentadas e um casal arrumando a toalha do piquenique. Brincavam, comiam doces e riam. Eram enormes como todos os humanos. Quase sempre matavam alguma de nós, sem querer. Nossos tamanhos eram desproporcionais, mas precisávamos arriscar.

Nos aproximamos timidamente. É injusto. As moscas voam e são bem mais rápidas. Há poucas notícias sobre mortes de moscas, enquanto há um bombardeamento delas em nossa colônia. Nossas amigas são esmagadas diariamente. Lá  estão as moscas, em cima da família, rondando, experimentando. Estão sempre presentes  e incomodam. Saem impunes. São livres. Voam rápido, saltitam, mesmo que sobre o lixo.

Iniciava o massacre. Algumas foram achatadas por pés ou mão desavisados. Nem toda formiga morria, mas em certos momentos quebravam nossas patinhas, impossibilitando nós de transportar a comida. Vivíamos presas ao chão, enquanto as mocas gozavam de inteira liberdade. Raramente alguém consegue atingir uma mosca. Parecendo, para nós, que as moscas são seres cósmicos super poderosos. Além de tudo, livres! Nossa, que inveja das moscas!

Do outro lado do parque, próximo de um carvalho de duzentos anos, vários pombos comiam farelos. Moscas disputavam espaço com as aves. Iam e voltavam da lixeira para comer restos de frutas, hambúrgueres e outros resíduos pútridos.

Duas moscas conversavam:

- As formigas estão de boa! Comem toda a comida fresca, quanto ficamos com naquinhos mal roubados ou lixo. Ainda temos que  fazer esforço para voar tão rápido.

- É, irmã, elas que têm sorte. Olha para lá, caminhando calmamente até a colônia, quanto eu tô aqui com a a asa machucada, voando para comer.

- Ainda temos que ficar aqui perto desses pombos nojentos, eca!

- Vamos, vamos lá para aquele banco. Aquela família tem bastante doce.





Rafaela Valverde

sexta-feira, 10 de março de 2017

Resenha acadêmica de Nove Noites - Bernardo de Carvalho - Parte III


Alguns dados foram encontrados, mas o jornalista optou em não atribuir juízos de valor às informações encontradas. Mas o fato era que ele, o americano, não gostava de estar no Brasil. Ele queria ir embora e escrevia isso em cartas sempre que tinhao portunidade.   Não   se   sabia   o   motivo   exato,   por   exemplo,   ele   poderia   ter   alguma inimizade com alguém, o que poderia ter resultado um homicídio e não um suicídio. Sim, houve essa especulação na grande colcha de retalhos que se tornou Nove Noites 

.Já quase no finalzinho do livro em um dos momentos narrados por Manoel Perna, ele conta que durante essas nove noites que esteve conversando com Buell Quainteve certeza que todas as histórias que ele contou pareciam confissões, mas de alguma coisa além do que parecia realmente estar contando. “Foi a preparação da sua morte.”Manoel afirmou ainda que não acreditava que ele, Buell, pudesse ter feito algo errado,mas que pudesse estar tentando dizer que se mataria em breve.

Nove Noites é um livro rico e em alguns casos se torna até meio repetitivo no que diz respeito à ausência de informações precisas sobre a morte de Buell Quain. Dessa forma, o livro traz narrativas dentro de uma narrativa. Já no final há uma nova história: o pai do jornalista-narrador está em um hospital internado ao lado de um velhinho bem doente que pode ter conhecido o antropólogo americano. Isso ele conclui depois de investigar o idoso já moribundo. Essa parte encerra o livro com chave de ouro, já que não se espera o que pode vir dessa nova narrativa apresentada dentro de um hospital. É surpreendente essa nova possível nova perspectiva da história. O que deixa ela ainda mais genial. O idoso internado é um fotógrafo que pode ter convivido com Buell um tempo e pode ser autor de uma icônica foto do americano. Ele envia cartas para diversas pessoas   nos  EUA  e   vai   até lá tentar   descobrir  mais algo   sobre   essa possível ligação. Na volta encontra se com um jovem “orgulhoso e entusiasmado” que vinha estudar os índios brasileiros. Perplexo, o jornalista brasileiro pensa em como aquela situação é irônica e como os mortos podem atormentar os vivos.




Essa resenha foi solicitada como forma de avaliação junto com um debate sobre o livro para a disciplina de Literatura Brasileira e a Construção da Nacionalidade do curso de Letras da UFBA- Universidade Federal da Bahia. E foi escrita por mim.



Rafaela Valverde

Resenha acadêmica de Nove Noites - Bernardo de Carvalho - Parte II


Ora, era justamente a ideia que Bernardo de Carvalho rechaça. Os índios devem ser tratados como gente, como os seres humanos que são. Com seus defeitos e suas virtudes. A ideia que ainda se tem sobre o índio é que além de ele ser passivo, é  oco e superficial.   Índio   não pensa,  índio   só   quer   umas   lembrancinhas  e alguém   que   os defenda. Essa é a ideia paternalista que o livro pretende desbancar. E consegue. O livro passeia por histórias e emoções, o livro vai e vem. E assim será esse texto, ele vagueará pelas histórias  contadas  em   Nove  Noites   e  pelo   mistério que   ronda  o  suicídio   do etnólogo americano.

Dessa forma, há de se falar da morte, da vida, das cartas e de tudo mais que possa ser interessante sobre a vida de Buell Quain. Essa busca pela vida do antropólogo está   diretamente   ligada   à   vida  do   narrador.  A  análise   desse   texto   buscará   ser   tão obsessiva quanto a busca dele. Portanto trechos e parágrafos se vão se misturar e se intercalar para contar essa (s) história (s).

O narrador, depois de adulto, retornou à comunidade dos  Krahô, acompanhado de   um   antropólogo  conhecido.   Ele   conheceu   o   velho   Diniz,   único   membro   da comunidade vivo que conheceu Quain quando ainda era menino. Havia a esperança de que ele falasse sobre local em que o americano havia sido enterrado e outras questões. O velho Diniz mal havia sido apresentado ao jornalista e foi logo pedindo seu gravador. Negando educadamente, ele informa que precisa dele para trabalhar, o índio rebate: “Lá em   São   Paulo   você   compra   um   igualzinho   e   manda   pelo   correio.”   É   um   trecho marcante, pois evidencia o quão os índios são humanos, o quão os índios que moram no Brasil são realmente brasileiros. Enfim comprovam que índio é gente e gosta de todas ascoisas que todas as outras pessoas gostam. O velho Diniz conta que os índios chamavam Buell   de   “Cãmtwýon”,   sendo   logo   questionado   sobre   o   significado.   Mas   não   há significado específico, ao contrário do que se pensa que sejam os nomes indígenas. Mais um estereótipo quebrado. 

Diniz   ainda  conta   que   o   antropólogo   americano  raspou  a   cabeça,   enquanto tomava banho no rio, no dia seguinte à sua chegada: ajudou em um parto, deu nome ao recém-nascido, mas não queria participar de nada. Não se envolvia em nada e passava dias escrevendo, não bebia muito e costumava ouvir música às vezes. Era um homem bastante   reservado.   Diniz   achava   que   ele   havia   enlouquecido   depois   que   recebera algumas cartas. Nessas cartas, que foram queimadas por ele antes de morrer, haveria anotícia de que a mulher o havia traído com o irmão.

Mas   essa   história   não   é   verdadeira.   Há   muitas   contradições   e   versões desencontradas sobre as possíveis causas do seu suicídio. A mãe e a irmã dele afirmam que ele nunca havia sido casado e não tinha irmão. Só irmã, mãe e um pai que eranmédico, mas não muito próximo dele. Há ainda várias hipóteses sobre o momento da sua morte: “foi se cortando todo, ainda de dia, descendo sangue”, depois “queimou dinheiro.” Havia ainda informações sobre ele ter queimado as cartas que recebera, pois elas nunca foram encontradas. Ele teria se cortado no pescoço e nos braços e depois se
enforcado. Enfim, como se vê, não há uma informação só sobre o inesperado caso.

Há relatos que o etnólogo sofria e que estava se cortando (foi questionado nomomento) e ele afirmara que “precisava amenizar o sofrimento, extinguir a sua dorcruciante.” Em geral, as pessoas atribuem o suicídio a sofrimento à depressão e é fácil perceber que o homem tinha picos  de tristeza  e crises existenciais. Ele em  alguns momentos interagia e estava bem. No momento seguinte, porém mudava o seu humor e se trancava.

“Ele se enforcou com a corda da rede num pau grosso, inclinado, quando os índios fugiram,” afirmou o velho Diniz. Pediu que fosse enterrado ali mesmo e seu pedido foi atendido. A sepultura foi marcada com talos de buriti e nenhuma polícia ou outra autoridade foi ao local. Não houve exumação nem abertura de inquérito e nem há registro em nenhum cartório ou fórum.

 A morte de Buell Quain foi esquecida, teve certa repercussão na época, mais entre o meio antropológico, além de ter sido um americano morto em terras Brasileiras. Nem a mãe e a irmã vieram ao Brasil ou solicitaram o envio do corpo. Não. Ele ficou esquecido lá nos confins do norte do Brasil. A colcha de retalhos de informações e especulações sobre esse suicídio nunca foi concluída. As costuras não combinam entres i e sempre há alguma discrepância entre elas. Nunca se chegará a nenhuma conclusão sobre o que teria levado o jovem americano a se matar.

Foi   observado   que   há   algumas   insinuações   sobre   uma   possível homossexualidade   do   etnólogo.   Em   alguns   trechos   das   narrativas   apontam   como estranha a ausência de mulheres na vida dele. Ele não tinha amantes, não olhava para as índias, não era dado a aventuras sexuais, era bastante recluso. Outro ponto que pode ser interpretado como insinuação sobre a sexualidade de Buell seria uma das últimas cartas que ele escreveu ao cunhado, e somente a ele, antes de morrer. Para muitas pessoas poderia passar despercebido, mas não é esse o caso. Há também o fato de ele não se dar bem com o pai, seria um indício?

Em determinados momentos do texto é narrada  a viagem do jornalista, sessenta e  dois anos  depois. Ele mantém  um relacionamento mais  próximo com  os   índios, participa de rituais e reconstrói algumas imagens sobre os indígenas. Pôde ainda sentir um pouco a  sensação de estar próximo aos índios  e pesquisou bastante a vida do antropólogo. Cartas e fotos por exemplo. Em uma carta escrita em 4 de julho, menos de um mês antes de morrer ele escrevia: “Duvido de que em algum outro lugar no mundo existam culturas indígenas tão puras. Mas, a despeito de todas as virtudes do Xingu, gostaria   de deixar   o   Brasil   definitivamente   e   limitar   meu   trabalho   a   regiões.” Ele reclamava das dificuldades de trabalhar com índios brasileiros. “Acredito que isso possa ser atribuído à natureza indisciplinada e invertebrada da própria cultura brasileira.” Ou seja, os indígenas brasileiros, já naquela época não eram passivos como se imagina. E quase nada se alterou na cultura do povo brasileiro.



Continua...


Rafaela Valverde

Resenha acadêmica de Nove Noites - Bernardo de Carvalho


Livro que foi publicado em 2002 e  recebeu   o   prêmio  Portugal  Telecom de Literatura Brasileira, Nove Noites é o sexto livro de Bernardo de Carvalho. Ele mescla fatos da vida do antropólogo norte-americano Buell Quain com a vida do narrador. No dia 02 de agosto de 1939, cinco meses após chegar ao Brasil em sua segunda visita, Quain  se   suicidou   aos   27   anos.  Ele   vivia   com   a   comunidade  indígena   Krahô,   noTocantins, quando decidiu tirar a própria vida.

O narrador, sessenta e dois anos depois, resolve investigar obsessivamente o caso, após ler um artigo no jornal que fazia rápida menção ao suicídio de Quain. Ele segue pistas, contata pessoas que poderiam estar ligadas ao antropólogo e vai até a região conhecer os Krahô, a fim de tentar saber informações sobre esse misterioso suicídio. Ele usa o pretexto de que vai escrever um romance. E a partir dessa obsessão as histórias começam a ser contadas, de forma intercalada.

 O   livro,   na   verdade   pode   ser   encarado   como   uma   colcha   de   retalhos   de especulações sobre o que teria motivado o suicídio do jovem antropólogo. Mas uma colcha de retalhos genial. Bernardo de Carvalho – que já afirmou que o livro é “uma combinação de memória e imaginação” – soube desenvolver muito bem a narrativa a partir de fatos reais. Em uma entrevista para a Revista Trópico, Bernardo afirma que queria escrever um romance que não fosse paternalista e que mostrasse os índios como eles realmente são. Afirma ainda que queria fugir de diversas outras abordagens que são paternalistas. 

Quain era uma pessoa solitária, não se envolvia muito com os índios, até porque assim foi orientado antes  de   aqui chegar.  Porém,   se isolar   era uma   escolha muito particular dele. Não se sabia muito sobre o antropólogo que viveu meses entre os Krahô. Tanto que após a sua trágica morte especulava-se na possibilidade de uma doença, como por exemplo, a lepra. Havia também falatórios sobre sífilis. De tudo se falou. Afinal, era preciso justificar de alguma forma aquela odiosa tragédia.

O Brasil vivia no período do Estado Novo e assim alguns estrangeiros que por aqui viviam poderiam vir a ser vigiados – pelo menos é o que é contado no livro – em caso de serem comunistas ou algo parecido. Dessa forma, a reserva de Quain sobre a sua vida se tornava ainda maior. Essa reserva aumentou ainda mais em torno do seu suicídio.

Manoel Perna, engenheiro que conheceu e conversou com o etnólogo conta diversas informações sobre a personalidade e costumes de Quain. Inclusive é da estada do americano em sua casa que surge o nome do livro, já que foram nove noites de histórias contadas. Essas nove noites foram dias de abrigo para Quain que viajava. O que Manoel conta é o resumo das histórias de Buell nessas nove noites que foram alternadas: a primeira em um momento, a segunda em outro e mais sete em outra
viagem do etnólogo. Eles conversavam sobre muitos assuntos e o engenheiro afirma que chegou a conhecer um pouco a personalidade do misterioso homem.

O narrador, que é obcecado por essa história entrevistou Lévi-Strauss em Paris. Ele se pronunciou sobre sua visita ao Brasil e sobre a emoção que sentiu quando soube das pequenas culturas indígenas que estavam sendo ameaçadas de extinção, ou sendo exterminadas aos poucos. Strauss afirmou ainda que “toda cultura tenta defender sua identidade”. É possível perceber no livro, alguns relatos e narrativas se comunidades indígenas que lutavam entre si, a fim de se preservar cultural ou territorialmente. 

Ou seja,  não   necessariamente   era   o   homem   branco   que   ameaçava   a   existência   dessas comunidades. Eles mesmos lutavam e guerreavam. Esse fato já desconstrói algumas ideias paternalistas de que o índio é “coitadinho” e que o homem branco era o único algoz. Porém, apesar de alguns conflitos, a maioria das tribos mantinha uma relação amistosa. Antes de visitar os Krahô, Quain havia visitado a comunidade dos Trumai e achado os “chatos e sujos”, eles pediam várias coisas materiais para ele, que sempre recusava. 

Parece que ele já estava pensando em morte, pois segundo Manoel Perna afirmou, por exemplo, que o americano falara que os Trumai viam na morte uma saída para seus problemas  – “uma libertação dos seus temores e sofrimentos.” Há ainda relatos de Perna sobre possíveis prenúncios de morte que ele poderia ter recebido. Em um ritual dos Trumai, através do qual buscava- se a cura de uma mulher. Era uma cerimônia, muito fechada e foi informado a Quain que se entrasse ele morreria. Ele ignorou e  entrou   mesmo assim.   Em  outra  ocasião,   enquanto caçavam aves  para  a retirada das penas, disseram-lhe que “um pássaro de cabeça vermelha a que chamavam de ‘lê’ era o anúncio da morte para quem o visse. Pouco depois ele deparou com a aparição fatídica e preferiu acreditar que lhe pregavam uma peça.”  

Manoel   Perna   afirma   que   ao   lembrar-se   das   histórias   do   antropólogo,   só chegava à mente dele a imagem do corpo do antropólogo enforcado, cortado com gilete no pescoço e nos braços, com sangue pelo corpo, pendurado acima de uma poça de sangue. Foi essa a cena que os índios descreveram para ele, quando foram dar a notícia. Nove Noites traz diversas questões, as quais são impossíveis de serem todas analisadas nesse texto. Porém, há a pretensão de abarcar o máximo possível de questões trazidas pelo livro. Questões sobre o antropólogo americano, questões sociais e políticas da época, questões indígenas, entre outras.

O narrador, que é jornalista, conta as histórias das suas andanças pelas florestas.Sua primeira viagem foi em 1967, quando tinha seis anos. Ele foi acompanhado pelo pai, que procurava fazendas para comprar. Comprara duas: uma na região do Araguaia e outra na região do Xingu. Nessas fazendas ele viveu algumas aventuras na infância, inclusive um acidente de avião com o pai. Ele nem imaginava que retornaria um dia àquelas matas para investigar obsessivamente circunstâncias de um suicídio. Em sua narrativa ele afirma, entre outras coisas, que ficou guardada em sua memória a imagem do Xingu como um inferno e que ele não “entendia o que dera na cabeça dos índios para se instalarem lá.” Para ele parecia burrice, um masoquismo ou até mesmo uma espécie de suicídio. O antropólogo que o levou à região, em 2001 também se questionava o porquê de os índios estarem instalados ali.

 Entre algumas coincidências entre o narrador e Quain, há o fato de ele ter estado, 62 anos depois, no mesmo local e data em que se suicidara o etnólogo: dia 02 de agosto.   O americano escrevia muitas cartas a seus amigos e parentes. Algumas, não chegavam a ser enviadas, como essa que seria para Margaret Mead, escrita no dia 04 de julho   de   1939   com   o   seguinte   trecho:   “O   tratamento   oficial   reduziu   os   índios   à pauperização. Há uma crença muito difundida (entre os poucos que se interessam pelo índios) de que a maneira de ajuda-los é cobri- los de presentes e ‘elevá-los a nossa civilização’ [...]”


Continua...



Rafaela Valverde




Bem sucedida e solitária


Parece que serei a mulher bem sucedida na carreira, escritora, acadêmica, com teses e muitas leituras. E por aí mesmo vou ficar. Não que isso não me satisfaça, é maravilhoso! Mas o que vai ficando claro a medida em que os anos vão passando é que não serei a mulher amada e que ama; não serei a mulher com um casamento bem sucedido e com amor.

Esses sonhos românticos não são para mim, deixo para os afortunados na vida, cujo sorriso demonstra a felicidade de estar ao lado de alguém. Parece que não nasci afeita aos lados românticos da vida. Ou eu tento me afastar deles ou eles se afastam de mim. Já vi que amor não é para mim. Até sinto, mas não vivo. E não tenho nenhuma esperança de viver novamente.

Eu tenho andado muito desiludida com todas essas questões românticas. Eu não quero mais saber de romantismo. Eu serei a representante oficial da mulher moderna, livre e bem sucedida. Mas sozinha, Sabe, não exatamente aquele sozinha de não ter ninguém por perto. É  a solidão que vem no final do dia - que é a hora de compartilhar coisas; é a solidão de não ter ninguém para abraçar a gente, para acariciar a gente, é a sensação de estar sempre calada ou de conversar com espelhos.

Outra sensação que tem se apoderado de mim nos últimos dias é a se eu realmente sirvo para ser amada, ou se sou mulher para encontros casuais e relações rápidas. Talvez sim, é provável que sim. Já tive meu pequeno conto de fadas, já tive meu momento. Agora ele já passou e é à minha carreira que irei me dedicar agora. Pelo menos ela não me faz sofrer.



Rafaela Valverde

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Livro A Garota na Teia de Aranha - David Lagergrantz


O último livro que li em 2016 foi A Garota na Teia de Aranha de David Lagergrantz. Ele é a continuação da trilogia Millenium, trilogia sueca cujo o autor, Stieg Larsson, faleceu em 2004. Ele nem viu seus três livros serem lançados e o sucesso que fizeram. Eu adoro essa trilogia  e descobri por acaso quando tinha TV por assinatura, o filme Sueco Os homens que não amavam as mulheres. A partir daí comecei a pesquisar, vi todos os filmes, inclusive o americano e li os três livros.

No ano passado, houve o lançamento desse quarto livro, escrito pelo jornalista e escritor Davi, citado acima. Eu torci a boca para esse livro, pois só o via como um livro mercadológico lançado pela família de Larsson para ganhar dinheiro. Eu ainda acho isso, com a diferença de que agora eu li e devo admitir que é um bom livro. Apesar de meio repetitivo, David conseguiu captar as áureas dos personagens, especialmente os principais: Lisbeth Salander e Mikael Blomkvist.

O livro traz uma trama, literalmente. Uma trama, uma teia, como o próprio nome já diz, onde os personagens se ligam de alguma forma. O passado de Lisbeth vem mais uma vez à tona com a revelação de novos detalhes que ainda não eram conhecidos pelos leitores dos livros anteriores.

Agora, a história está fortemente ligada à tecnologia e à matemática. O autismo também tratado, com um pouco de fantasia, eu achei. Há algumas outras coisas que são fantasiosas demais, mas vocês terão que ler para saber. Mas o livro é bom, eu gostei bastante e praticamente o devorei. Recomendo a leitura!



Rafaela Valverde

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Vem ni mim 2017!

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Eis que o ano maluco de instabilidades chegou ao fim. Teve  muita bagunça no Brasil em 2016. Aliás, o Brasil é o país da bagunça, e como se já não bastasse todos os problemas que temos, em 2016 tivemos instabilidade econômica e política.

O ano passado foi melhor que 2015 para mim, mas ainda foi um ano difícil. Um ano cansativo e com pouco dinheiro. Foram muitas tretas, noites em dormir, assuntos para conversar e textos para ler. Sorrisos, festas e paixão, Paixão pela vida, paixão por mim mesma, paixão por outra pessoa.

Um ano cheio de fatos marcantes, imprevisíveis e com coisas boas também. Um período que não volta mais, um ano findado é um livro todo preenchido. O outro que começa é um livro em branco que podemos escrever tudo de novo. É uma metáfora manjada, mas bem ilustrativa.

Engraçado como o tempo passa e como a gente acha estranho um ano que estava logo ali, mas que já tem quatro anos. Acabei de compartilhar uma foto minha de 2013 e apareceu no Facebook, há quatro anos. Como assim? 2013 foi ontem.

Mas enfim, esse é o tempo. Essa é a nossa vida. Essa é a graça da vida: saber que vamos envelhecer e morrer. Sem isso a vida não teria sentido. Agora é foco total em 2017. Foco total em ser feliz. Em continuar sendo feliz! Tenho mais um ano novinho em folha para sorrir, para viver, para sair, para amar, para ler, etc. 

Eu só tenho o que agradecer pelo ano que passou. Aprendi muito, tive saúde, estudei bastante, fui para outro estado, arranjei um ótimo namorado, entrei num curso de inglês, fiz um curso de preparação de tortas no Senac. Enfim, fiz muitas coisas que tive vontade e esse ano farei muito mais. Eu sou muito grata! Vem ni mim 2017!



Rafaela Valverde

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Livro Lua de Mel - James Patterson


Lua de Mel de James Patterson foi um presente do meu queridíssimo e fofo namorado. Eu simplesmente amei esse livro, desde o início não consegui desgrudar dele. O livro é bem escrito e a narrativa alterna entre personagens diferentes. Há a presença do autor heterodiegético e autodiegético. E isso dá uma maior dinâmica à narração e aos acontecimentos do livro que é alucinante, parece aqueles filmes de ação, sabe?

Pois é, o livro é muito bom. Ficou passando na minha cabeça como se fosse um filme e eu fiquei até pensando em formas de roteirizá-lo. Coisas de gente doida que acha que pode ser roteirista, mas enfim... O livro traz a história de Nora Sinclair, bonita, sensual, inteligente... Uma designer de interiores que sabe se divertir. Para isso ela usa os homens e usar é a palavra mais certa para Nora.

Ela é perigosa apesar da cara de santa, apesar da beleza que enfeitiça, ela é má. E prefere os ricos, com muito dinheiro nas ilhas Cayman. Mas às vezes eu achei que Nora era muito burra ou realmente muito crente na impunidade, já que ela não tomava muitos cuidados aos cometer seus crimes, ela nem despistava e às vezes vacilava. Por que não existe crime perfeito.

Mas o detetive John O'Hara chega para tentar desmascarar Nora. O que ele não sabe exatamente é que ela não tem limite e pode fazer muitas coisas para se safar. Ainda assim não existe crime perfeito e o detetive que se intitula "durão" vai fazer poucas e boas para desvendar essa mistério, provar as maldades de Nora e coloca-la na cadeia.

Rafaela Valverde

domingo, 4 de setembro de 2016

Livro P.S. Eu te amo

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Terminei agorinha de ler o livro P.S Eu te amo que é o primeiro romance da irlandesa Cecelia Ahern. Eu já tinha visto o filme, mas ele nem chega perto do livro e sua intensidade. O livro foi lançado em 2004. O livro traz uma das personagens mais fortes e intensas que eu tive a oportunidade de conhecer nos últimos tempos: Holly.

Holly e Gerry se conheciam e namoravam desde a adolescência e ficaram casados por sete anos, mas após algumas dores de cabeça, Gerry é diagnosticado com um tumor no cérebro e mesmo depois de cirurgias e radioterapia ele morre. Morre e deixa Holly que vivia em função dele sozinha. Sozinha e devastada. Com o coração cheio de amor e a mente cheia de inconformismo diante da perda do homem que amou a vida toda.

O amor dos dois foi muito intenso. Gerry não quer deixá-la desamparada, sozinha. Ele sabe o quanto ela vai sofrer, então ele acha que precisa fazer alguma coisa para que ela não sofra tanto. Eles haviam discutido algumas vezes sobre uma lista de afazeres que ele faria para Holly. Ainda assim, não imaginava que a lista de tarefas viria após a sua morte.

Mas ele faz a lista. Próximo ao seu aniversário de 30 anos e após a morte do marido, Holly recebe uma encomenda. Uma lista com dez cartas que devem ser lidas pelos próximos dez meses, uma em cada mês. Assim ela o faz. Em meio aos seus dias depressivos e amargurados, Holly encontra um norteador para sua vida e também algo que a ligue ao marido, a presença dele.

Em cada carta há uma instrução que ela segue obedientemente e algumas dessas instruções a fazem perder alguns medos e lutar diante da falta de vontade de levantar da cama e da falta de vontade de viver sem Gerry. Eu me identifiquei com Holly, primeiro por que ela tem trinta anos, não se formou, não tem emprego e é insegura com a vida e com o futuro. Ela é sensível e gentil como eu, além de ter uma personalidade forte. Além disso a descrição dela para o seu sofrimento pela morte do marido é bem parecida com a dor que eu passei recentemente pela "morte" do meu. Claro que foram mortes diferentes, no meu caso foi o fim de um relacionamento traumático mas que me fez perder a vontade de viver, sentir uma dor física, uma vontade de chorar o tempo todo... A gente, eu e Holly chegamos ao fundo do poço, mas conseguimos emergir. Claro que a morte é muito mais dolorosa, mas eu me identifiquei com muitas coisas que ela sentiu. Enfim, eu amei o livro! De verdade. É um livro até meio clichê em algumas partes mas bem escrito e em muitas páginas bastante engraçado, me arrancou muitas gargalhadas. Recomendo!



Rafaela Valverde

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Como não enlouquecer com tantas obrigações? Aprendendo a desacelerar...

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A gente vive correndo. Corre, corre e anda. Luta contra o tempo e quando percebe o tempo já passou. Quando a gente se dá conta o ano já acabou e lá vêm as luzes irritantes de natal. A gente faz exercício fala sobre astrologia, bebe num barzinho com amigos, estuda, trabalha, dorme pouco, cumpre a promessa de vida que recebemos ao nascer.

De repente a gente passa a observar com mais detalhes as vidas dos outros. As pessoas correm. Todas elas. Ainda que os objetivos sejam diferentes está todo mundo meio que no mesmo barco. De repente aquela fulaninha que era totalmente o oposto da gente na escola, e se escondia atrás da cara de santa, decide levar uma vida meramente tradicional que não condiz exatamente com a imagem que fazíamos dela.

É claro que ninguém fica para sempre com ideias de quando tinha 15, 16 anos. As pessoas mudam o tempo todo. Nós mudamos e essa é, para mim, uma boa característica, principalmente se for para melhor. Mas o que eu falo é sobre a pressão que temos de levar vidas padronizadas e tradicionais. Namorar anos com a mesma pessoa, se formar, noivar, casar, depois filhos... Sempre nesse ordem cronológica.

Uma ordem ditada por quem? Por todos. Somos pressionados desde que saímos da adolescência. Somos ejetados para a vida adulta cheios de obrigações e prazos que temos que cumprir antes dos 30, ou seja em menos de dez anos. O que será que as pessoas estão pensando ao tratar seus filhos assim? Em tratar gente jovem assim? Como se fossem seus capachos!

O resultado de tudo isso é a formação de jovens cansados, colunas idosas, doenças psíquicas, pânico, ansiedade, suicídios... É isso o que a gente tem passado correndo todos os dias, dormindo quatro, cinco horas. Começando o dia muito cedo e terminando muito tarde devido as milhares de obrigações que somos obrigados a abarcar. Sem reflexão, sem crítica e em alguns casos sem ética.

Alguns podem dizer que nossa vida mudou muito em relação aos jovens de gerações passadas. Hoje temos tecnologia e muitas facilidades. Mas se vocês soubessem o ônus disso tudo. Nós vivemos cansados, a gente dorme mas não descansa, a gente vive correndo e não olha mais para o outro. E não é de propósito, simplesmente TEMOS QUE CORRER! Senão não dá tempo. Não há flexibilidade de nenhum lado, principalmente da universidade que continua tratando os atuais estudantes como os de antigamente. Eram muito poucos e em sua maioria não precisam trabalhar ou não tinham tanta concorrência. Não precisavam se acabar tanto. Sinceramente: eu sei que hoje a gente têm mais obrigações do que as que vocês tinham. Trabalho, estágio, Iniciação Científica, TCC, curso de línguas, vida social, visita à casa de parentes, mestrado, teses, trabalhos, seminários, milhares de textos, prazos, pressão, pressão... Olheiras, cansaço mental, esquecimento, café, drogas para dormir, drogas para se manter de pé! E ainda temos que ter opiniões e ser engajados. Ah faça me um favor!

Hoje depois de um desabafo em sala de aula uma professora conversou comigo e me questionou se realmente vale a pena se acabar tanto para cumprir todos os prazos que a sociedade e a vida exigem. Ela argumentou com literatura, com a experiência de vida que ela tem e com o oposto que ela é, já que ela sempre foi certinha e cumpridora de tudo. O que eu aprendi hoje é que não adianta tentar abarcar tudo com as nossas pequenas mãos. Alguma coisa sempre vai ficar de fora. E é bom que fique, nossa sanidade mental agradece.

Hoje cheguei em casa e relaxei. Comi um balde de pipoca vendo minha série atual decidi arrumar parte do meu guarda roupa que estava um caos. Sim, o meu quarto, os meus pertences estavam uma bagunça por causa de todas as minhas obrigações acadêmicas. Mas hoje eu decidi dar um basta e relaxei. Nada mais vai tirar a  minha paz, se não der para estudar tudo ou entregar tudo eu não o farei. Eu só não posso enlouquecer como estava fazendo nos últimos dias por causa das inúmeras atividades que tenho!




Rafaela Valverde

Por que você não arruma namorado? Fabrício Carpinejar

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Você não entende como não começa um relacionamento, como não se apaixona novamente, como não muda de vida.

Reclama da ausência de opções. É bonita, inteligente, divertida.

Minha hipótese é que não abandonou o passado.

Mantém flertes com o ex indiferente, ou continua saindo com sujeito que jamais assumirá o romance.

Raciocina que, enquanto não vem o escolhido, o príncipe, pode se entreter com velhas paixões.

Mas todos pressentem quando uma mulher está enrolada, todos intuem o caso mal resolvido, e não se aproximam.

Não virá ninguém para espantar os corvos e dissolver essa atmosfera pesada de Prometeu.

É trabalho em vão soterrar o precipício. Mulher desinteressada é impossível.

Ninguém ousará quebrar o monopólio de sua dor.

Você cheira a encrenca, cheira fidelidade a um terceiro. Seus ouvidos estão lentos, sua boca paira em distante lugar, seus olhos se distraem seguidamente.

Não tem brilho na pele, porém tensão nos ombros.

Sua respiração é um poço de suspiros.

Vive ansiosa por notícias, por reatos, mensagens. Não presta atenção, não se entrega para as casualidades.

Quem enxerga fantasmas não vê os vivos.

Não dá para começar um novo amor sem abandonar os anteriores. Errada a regra que a gente somente esquece um amor antigo por um novo.

Está com o corpo fechado, costurado, mentindo que já não sofre mais com as cicatrizes.

Espera herança, não sai para trabalhar ternuras.

Mendiga retornos, não cria memória.

Sua nudez não responde ao pedido da curva. Nem balança com a música favorita.

Está tomada do carma, do veneno, do ressentimento.

Pensa que está bem, mas está em luto. Uma mulher em luto não permite arrebatamentos, afasta-se na primeira gentileza que receber, recusa a prosperidade das pálpebras piscando nos bares e restaurantes.

Você nunca vai encontrar seu namoro, seu casamento, sua paz, se não terminar de se arrepender.

É preciso guardar o máximo de ar, ir ao fundo, descer na tristeza e nadar para longe dela.

Não amará outro alguém sem solucionar pendências, sem recusar o homem que não a merece, o homem que não vai embora e tampouco fica.

Não amará outro alguém sem abandonar algumas horas de alívio em motéis.

Não amará outro alguém se não bloquear as recaídas, se insistir em ressuscitar as promessas.

Uma mulher nunca será inteira se mantém romances quebrados.

Nunca estará presente.

Nunca estará aqui.

Entenda, minha amiga, só ama quem está disposta a ser amada.



Rafaela Valverde

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Harry Potter e a Pedra Filosofal - J. K. Rowling

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Terminei de ler o livro Harry Potter e a Pedra Filosofal, o primeiro livros da saga do bruxo e sua turma. Há tempos que eu sentia interesse em ler, mas achava meio infantil eu nessa altura da vida ler Harry Potter né. Mas como fui idiota, é uma estória atemporal e pode ser lida por qualquer faixa etária.

É uma leitura gostosa, engraçada e que prende quem está lendo. Me peguei várias vezes dando risada durante a leitura. Risada alta.  Me diverti muito e me encantei com a estória. Nada mal ter um pouco de fantasia na vida afinal de contas. Não vou falar nada sobre o enredo do filme que foi lançado em 2001. A maioria já conhece.

Pois quem não leu o livro pelo menos viu o filme e já é bem fã. Na verdade não conheço ninguém que tenha lido ou visto o filme e que não seja fã. São fãs até bem histéricos, eu achava. Ou acho. Ah não vou mudar de opinião só por que li e também virei fã. É isso, são meio fanáticos literalmente, mas certamente têm um motivo. Ou vários motivos. Eu achei a estória encantadora. Aventura, mistério, humor e são páginas muito bem escritas. É isso, mais uma PotterHead no mundo. Eu! Que venham os próximos livros de HP, que venham minhas próximas leituras. Porque ler é a coisa mais incrível do mundo!


Rafaela Valverde




terça-feira, 21 de junho de 2016

Dicas para melhorar a escrita

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Para melhorar a escrita há duas coisas essenciais: a leitura, muita leitura mesmo e a prática, o exercício da escrita. Uma pessoa que lê muito e exercita quase diariamente a escrita consegue ver claramente a sua evolução e melhoria no desempenho. Ao longo de anos, a melhora na escrita pode ser gritante.

Essas são as dicas principais para quem quer começar ou melhorar o que já começou. A prática da leitura e a prática da escrita. Outras dicas também podem, ao longo do tempo formar ótimos escritores.

O uso de frases curtas, com pontos parágrafos ao invés de períodos longos são fundamentais para uma escrita dinâmica, objetiva e concisa. Com certeza vai facilitar a vida do leitor. O leitor, esse o personagem principal. É com ele que a escrita do texto deve se preocupar. O leitor deve querer ler o texto até o fim. Portanto o texto deve ser o mais objetivo possível. Períodos muito longos, não dão pausas para a leitura, confundem o leitor e retira-lhe a atenção, fazendo com que ele não se lembre mais o que estava lendo lá no início.

Além disso as frases curtas auxilia na diminuição de erros com vírgulas, concordância, entre outros. A técnica ainda garante a clareza do texto. Clareza é fundamental. O texto deve dizer para que veio! E para que a clareza seja efetiva se faz necessário evitar palavras no gerúndio. Melhor escrever o verbo no infinitivo e colocar um ponto.

É necessário ainda se livrar de palavras que estão demais no texto e estão apenas ocupando a função de "encher linguiça". Optar por palavras mais simples, que o significado seja sabido pelo leitor ajuda na melhor leitura. A voz ativa ao invés da passiva também garante mais objetividade ao texto. Deve se também evitar o uso de artigos indefinidos, pronomes possessivos, demonstrativos e outras expressões e palavras que pesem, que sejam acessórios. Quanto menos acessórios melhor! 

Clareza, objetividade, concisão, dinâmica, coerência e coesão são básicos para a construção de um bom texto. Sem alguns desses aspectos talvez um texto nem possa ser considerado um texto. Coesão e coerência serão temas de um outro texto. Mas a mensagem que fica mesmo é: leia, treine e você escreverá bem a cada dia e a cada ano, afinal ninguém nasceu escritor.


Fonte de estudo: Livro A arte de escrever bem de Dad Squarisi e Arlete Salvador


Rafaela Valverde

Livros Para Não Suicidar - Nívia Maria Vasconcellos e A civilização do espetáculo - Mario Vargas Llosa

Li os livros Para não suicidar de minha ex professora Nívia Maria Vasconcellos e o livro A civilização do Espetáculo de Mario Vargas Llosa. O primeiro eu comprei na mão da própria autora e o segundo consegui baixar e li no tablet. O primeiro livro é um livro de contos. Contos tristes, reflexivos e até mesmo cruéis. Mas densos.

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Contos fortes e ao mesmo tempo tão cotidianos e banais. Essa para mim foi a riqueza maior do livro que pode ser considerado um livro bem feminista a depender de quem leia ou como leia. Bem, eu decidi fazer um texto sobre os dois livros porque são livros simples, de contos ou ensaios. Não têm muitos detalhes para ser contados.

O livro de Llosa como já era de se esperar faz uma crítica à nossa sociedade atual. Crítica a educação. a política, a cultura a religião. Há críticas ferrenhas aos nossos tempos. Os tempos da pouca cultura, da pouca leitura, os tempos das Redes Sociais e da religião. Os tempos. Os maus tempos. É um livro filosófico, denso e difícil de ler, sobretudo para quem não tem costume.

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Rafaela Valverde

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Biblioteca Pública dos Barris está fechada: a quem interessa?

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Em um estado e em um país em que a leitura não é valorizada e quase ninguém lê, a maior biblioteca do estado encontra se fechada ao público há vários dias. No dia 10/06, uma sexta feira ainda pudemos adentrar no prédio para estudar, porém antes de 17h havia um rapaz nas portas de vidro fechando-as e controlando para que ninguém entrasse, só saísse. Ele me informou que era devido a uma greve dos seguranças que estavam sem receber e resolveram paralisar por tempo indeterminado. Só voltariam quando recebessem os salários atrasados. Justo.

O setor de empréstimo estava fechado. Grades com cadeado. Isso é uma falta de respeito com os frequentadores. Que são poucos, mas geralmente jovens que não têm condições de comprar livros e que realmente se importam com a leitura. Já vi também muitos idosos lá no setor de empréstimo. São essas pessoas que ficam prejudicadas, pois para quem frequenta e gosta de ir às bibliotecas faz muita falta.

Eu acho isso uma total e completa falta de respeito e já registrei uma reclamação na Ouvidoria do estado. Porque é isso que nós cidadãos devemos fazer. Devemos reivindicar nossos direitos e reclamar de algo que esteja nos prejudicando. Nesse caso, eu estou precisando de meus livros para incrementar minhas leituras tanto para fruição quanto para adquirir conhecimento e não posso tê- los. 

Realmente gosto de bibliotecas, sempre gostei e frequento a biblioteca central há uns dez anos e exijo que o funcionamento seja restabelecido. Vou ficar batendo nessa tecla e vocês não sabem o que é mexer com os livros e com a biblioteca de alguém. Se não tem dinheiro para pagar os funcionários da segurança, diminua os gastos do nosso dinheiro para benefícios e salários altíssimos dos políticos, inclusive o governador que deveria cuidar muito mais da parte educacional e cultural do estado já que afirma o tempo todo que se importa tanto com a educação. 




Rafaela Valverde
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