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sábado, 13 de maio de 2017

A lua no cinema - Paulo Leminski


A lua foi ao cinema,
passava um filme engraçado,
   a história de uma estrela
que não tinha namorado.

   Não tinha porque era apenas
uma estrela bem pequena,
   dessas que, quando apagam,
ninguém vai dizer, que pena!

   Era uma estrela sozinha,
ninguém olhava pra ela,
   e toda a luz que ela tinha
cabia numa janela.

   A lua ficou tão triste
com aquela história de amor,
   que até hoje a lua insiste:
- Amanheça, por favor!



Rafaela Valverde

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Minha trajetória acadêmica

Em 2010 passei no vestibular da Uneb - Universidade do estado da Bahia para o curso de Pedagogia, que eu não sabia exatamente do que se tratava, mas como achava que queria fazer psicologia, achei que pedagogia tinha semelhanças com psico e lá fui eu. As aulas começaram no dia 12 de abril e ainda era tão menina, ia fazer vinte e um anos e estava noiva. Nessa época eu trabalhava e estudava e só vivia cansada, dormia na aula e não sei como eu consegui lidar com oito matérias assim. Uns dois meses depois fiquei desempregada e minha mãe que me ajudava com a faculdade. Casei no mesmo ano e continuei nos semestres seguintes com as oito disciplinas.

Depois de um tempo comecei a pegar menos matérias e fui ficando atrasada, separada das minhas colegas e amigas que tinha feito naqueles meses. Acredito que  isso tenha me desmotivado bastante, além  de uma monitoria que fiz e não recebi o dinheiro ao qual tinha direito e precisava. Por essas e questões de não gostar e não me adaptar com algumas disciplinas e questões do curso acabei abandonando. Eu não via mais graça em estar ali, fazendo aquele curso. Me sentia sem perspectivas.

Foi nessa época que passei a dar mais atenção ao blog e quis seguir o sonho de escrever, de ganhar dinheiro escrevendo e botei na cabeça que queria ser jornalista. Por que queria escrever de qualquer jeito. Até pensei em fazer letras, mas tinha horror à licenciatura e à sala de aula. Tentei entrar na UFBA em jornalismo e não consegui. No ano de 2013 depois de uns meses fora do Departamento de Educação da Uneb, decidi voltar. Mas durou pouco tempo. Minha falta de afinidade com o curso era latente, eu não me dava bem com a maioria dos professores de lá que eram muito arrogantes. Não tinha motivação para ir até lé, nem para fazer as atividades, nem de olhar para as caras dos professores. Saí de novo e dessa vez pra valer.

Em 2014 depois de mais um Enem tentei novamente o curso de jornalismo na UFBA e não consegui. Porém fiz um vestibular na Unijorge e passei, consegui um FIES e fui fazer jornalismo nesse centro universitário privado. Não me adaptei muito bem lá. A universidade parece um shopping, com praças de alimentação bem grandes e quase nenhum apoio a alunos de baixa renda. Me sentia deslocada, um peixe fora d'água. Fora que a sala que eu estudava era super barulhenta e imatura, me sentia estudando em uma escola de ensino médio. Fora que com boletos todo mês e o salário que eu ganhava não estava dando, daí decidi usar a mesma nota do Enem e ganhar uma bolsa em uma universidade diferente e melhor. Consegui a bolsa e ia começar o semestre no mês de agosto de 2014. Enquanto isso, minhas colegas estavam se formando. 

Faltando poucos dias para começar o semestre na FSBA - Faculdade Social da Bahia eu recebi uma ligação  avisando que não havia formado turma para jornalismo e que o curso estava praticamente extinto na universidade. Eu teria que escolher outro curso ou desistir da bolsa. Dentre os cursos que me ofereceram fiz a merda de escolher um. Eu não acreditava mais que pudesse entrar na UFBA  e seguir a carreira acadêmica que eu tanto sonhava. Então eu escolhi psicologia. Entrei sem semestre definido e pegava disciplinas introdutórias misturadas com as mais avançadas e não entendia os conceitos básicos tendo certa dificuldade em acompanhar. Sentia o tempo todo que me formaria sem nenhuma perspetiva, não me sentia feliz ali, nem no curso e nem na faculdade. Fora que é perto do campus da UFBA em que estudo hoje e pegava os mesmos ônibus que vários alunos da Federal que ali desciam e ficava pensando que meu lugar era ali, que um dia eu gostaria de descer antes, naqueles ponto.

O que começou a me tirar daquele curso e daquela faculdade foi a dificuldade em estudar. Os textos eram longos e meu tablet havia quebrado, me impossibilitando de ler a maioria dos textos. Eu teria que tirar xerox ou imprimir todos e não tinha grana para isso, apesar de estar trabalhando na época. Comecei a tirar notas ruins e a faltar nas aulas de sábado, já que trabalhava aos finais de semana. Eu sabia que tinha que sair dali e exatamente no meio do ano de 2015, no SISU do meio do ano eu decidi que eu iria para a UFBA em qualquer curso. E eu entrei em Letras. De primeira. Sabe se que as notas de corte desses cursos são bem baixas e não foi tão difícil. Fiquei muito feliz. Acho que foi um dos poucos dias mais felizes que tive naquele ano. Dia 15 de junho de 2015. A universidade estava em greve, fiz matrícula, mas só comecei a ter aulas em janeiro de 20016, ano passado e hoje estou no quarto semestre e realmente estou onde eu merecia, precisava e queria estar. Eu dou aulas particulares de Português e agora vou assumir salas de aula em uma escola estadual. Eu estou muito feliz e realizada na minha vida acadêmica. Eu amo ensinar. Eu já faço pesquisa e sou bolsista de Iniciação Científica. Eu vejo  a realização do meu sonho chegando, chegando aos poucos. Eu tenho contato mais direto com literatura, algumas disciplinas de literatura do curso são fascinantes e eu adoro entrar naquele portão todos os dias. Por mais que a coisa não seja fácil. É muito estudo. É tudo bem diferente de todas as universidades em que já estive. Mas eu adoro, finalmente me encontrei.

Não desista do seu sonho, não hesite em sair de algo que não te faz bem, onde você não quer estar. Saia e vá atrás do que realmente você quer. Porque uma hora dá certo. Essa é a loucura da minha vida acadêmica até agora, minhas desistências e conquistas. 



Rafaela Valverde

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Retrato - Cecília Meireles


Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?




Rafaela Valverde

terça-feira, 25 de abril de 2017

Texto que minha amiga Fernanda fez para mim ♥

Recebi esse maravilhoso texto da minha amiga Fernanda no domingo, meu aniversário. Eu amei! Me emocionei demais com essa genial definição de mim. Só quem é muito boa com as palavras e me conhece bem demais é capaz de me descrever tão bem. Obrigada, miga. Te amo, também, amei a homenagem.
A referida foto é essa abaixo:





Você pra mim é como uma rosa. Flor que sabe ser aroma e espinho. Amor e dor. Pode perfumar e também perfurar. Pode estar tanto no início quanto no fim. Pode vir em variações dependendo de quem observar. As vezes num vermelho intenso e esplêndido, outras num branco poético e de paz. Pode refletir o romantismo dos que te querem como presente ou a brutalidade de quem tenta do seu jardim te arrancar. 
Escrevo isso na tentativa de eternizar-te em mim como és na sua mais pura essência: Flor! 
Gosto muito dessa foto e mais ainda de você. E enquanto pudermos e quisermos, serei apreciadora da tua beleza e felicidade. Feliz vida, flor da minha!♥♥





Rafaela Valverde

quarta-feira, 5 de abril de 2017

A máquina de moer mulheres - Aline Valek


Tec, tec, tec. Ouve o som? É o barulho das engrenagens funcionando perfeitamente, fazendo tudo correr como deveria. Com a precisão de um relógio, movem-se os mecanismos dessa máquina gigante, antiga, mas que ainda funciona que é uma beleza para cumprir seu principal objetivo: triturar mulheres.

São muitas as engrenagens e complexos seus movimentos, mas se você der um ou dois passinhos para trás, pegando alguma distância para vê-la como um todo, é possível observar que seu funcionamento, na verdade, é tão simples que dispensa a existência daqueles volumosos manuais de instruções.

Para que funcione, é preciso abastecê-la com a ideia de que mulheres não são pessoas. São santas ou deusas; carne barata ou lixo; mas nunca pessoas. Então basta colocar uma mulher de um lado – e tec, tec, tec, soará a máquina, ruidosa – para vê-la sair do outro lado devidamente transformada em vítima.

Uma mulher agredida por seu marido. Ou assassinada pelo seu ex. Ou uma moça agredida por um desconhecido a quem ousou dizer “não”. Ou ainda uma jovem violentada por mais de trinta homens. São inúmeras as possibilidades. Todas demonstram como estão funcionando direitinho as engrenagens.

Funciona assim: primeiro, cria-se a ideia de que os corpos das mulheres estão à disposição. Que é ok violentar e agredir mulheres. Até engraçado, ou mesmo esperado. Então uma mulher sofre a violência. Se denuncia, os mecanismos de fazer com que seja desacreditada logo são postos para funcionar:

– Estava usando a roupa certa? Era recatada e do lar? Usava drogas? O que estava fazendo sozinha? Será que não queria prejudicar o homem e inventou tudo?

Na era medieval ou nos tempos de internet, o modus operandi é o mesmo: trazem a vítima em praça pública. Devassam sua vida, questionam suas escolhas, tacam pedras. Julgam se é culpada – e só pode ser – caso não se encaixe no padrão de “vítima perfeita”– e nunca se encaixa. Sempre tem um “porém”, um detalhe qualquer que faça com que os julgadores se sintam tranquilizados com a violência que ela sofreu e com o veredicto de “culpada” que ajudaram a carimbar.

– Vai ver ela mereceu – dizem, mas é o tec, tec, tec da máquina que está falando.

Não é, no entanto, máquina totalmente automática: precisa de braços para funcionar. Em primeiro lugar, precisa dos braços (e corpos inteiros) daqueles que puxam o gatilho, dão o soco, abusam psicologicamente ou estupram. Mas esses operadores da máquina quase não são visíveis daqui. Somem. Há outras engrenagens na frente tapando a visão, fazendo com que sejam esquecidos. 

São engrenagens operadas pelos braços de delegados, juizes ou policiais que constrangem as vítimas que denunciam. Pelas pessoas que questionam a vítima com um ímpeto que não direcionam aos agressores. Por quem acha que ela pediu. Por quem acredita que ela mereceu. Por quem compartilha vídeos e fotos que expõem a violência que ela sofreu. Por quem faz piadas com o assunto. Por quem faz malabarismos para provar que não foi tão grave assim. Por quem passa adiante a ideia de que mulheres é que precisam aprender a temer e a entrar na linha. Por quem aprova e incentiva o comportamento dos homens que agridem.

São tantos braços operando tantos mecanismos que fica fácil encobrir e esquecer dos verdadeiros culpados e dos mecanismos que os criaram; à esta altura, a mulher que sofreu a violência é a única responsável, ainda que dê para ouvir o som de seus ossos sendo triturados nas engrenagens na máquina de moer mulheres: tec, tec, tec.

Vê como os mecanismos funcionam em perfeita sincronia? As engrenagens da frente e de trás, as que possibilitam e as que justificam, são as que movem as engrenagens sujas de sangue, que violentam e matam, que mastigam a mulher, por dentro e por fora, para depois cuspir. Se uma mulher é triturada, não foi por uma peça ou outra; mas pela máquina inteira.

É preciso mais que um, dois ou trinta homens para violentar uma mulher: é preciso uma multidão validando toda a violência, colocando a máquina da opressão para funcionar. Enquanto as mulheres são isoladas, os agressores nunca estão sozinhos.

Da mesma forma, para fazer essa máquina parar de funcionar, não basta tirar uma peça ou outra. É preciso arrancar todas. Tirar todo o combustível. Arrebentar fios e engrenagens. Talvez por isso os mecanismos tenham funcionado há centenas de anos, sem parar: porque há mais braços ocupados em fazer a máquina de moer mulheres funcionar do que ocupados em destruí-la. Onde estão os seus?

Não há nada que indique que as engrenagens deixarão de funcionar. Mas, enquanto funcionar uma máquina tão antiga quanto a crueldade, não podemos dizer que vivemos em uma sociedade avançada. A existência dessa máquina nos mantém eternamente presos ao passado.

E assim ela segue, com seu tec, tec, tec ininterrupto. Dessa vez, foram trinta homens ao mesmo tempo violentando uma garota. Da próxima, serão cinquenta? Cem? Quantos agressores são necessários para confirmar a existência da violência? A capacidade da máquina de moer mulheres cresce em progressão geométrica, enquanto seus mecanismos permanecem invisíveis para muita gente.

Tec, tec, tec. A máquina produz mais vítimas hoje. Tec, tec, tec. Mais mulheres serão vítimas amanhã. Não é possível saber quando isso irá parar. Mas o primeiro passo para chegar a essa resposta está na atitude de enxergar a máquina – e então perceber que é possível se recusar a ser uma das engrenagens.



Rafaela Valverde

O beijo na boca - Fabrício Carpinejar




Casais que não se beijam na boca estão se separando. Vão se tornando amigos, parentes, irmãos, até se esquecerem de caminhar de mãos dadas. Vão se apartando do cheiro da pele, do gosto do abraço, das provocações infantis de corredor, das pernas alisadas no fundo da coberta.

O beijo na boca é a autêntica aliança, o ouro que vinga, a certidão que não desbota. Só que me refiro ao beijo mesmo, de girar o corpo, o pescoço, o rosto. Selinho não conta, onde os lábios são uma carta para quem já está distante. Beijo seco também não vale, onde não há a ameaça de morder os lábios.

O beijo molhado é que une. Um beijo úmido por dia renova o amor. O beijo de quem tem saudade dos tempos apaixonados, um beijo que ainda sopre de volta os elogios ditos um para o outro. O beijo sussurrado, em que os sons tremem com as respirações próximas.

O beijo que não tenha a necessidade de ser pensado demais senão surge sem jeito, forçado, cinematográfico. O beijo que seja um segredo a dois, que você extravie o horário e suspenda a noção do lugar. O beijo que toque uma canção dentro, que desperte a vontade de dançar.

O beijo de língua não permite o vazio crescer, a lacuna, o lapso. Pois uma ausência dentro de casa ainda tem conserto, duas ausências não têm como recuperar – o par esqueceu o amor em algum lugar das lembranças e não correu para reaver.

O beijo de língua desfaz as formalidades, os medos e a educação que esfriam a relação. Beijo de língua é beijo para combater o tédio, a mecânica repetida dos gestos. Beijo de língua salva os desaforos, perdoa as críticas e as cobranças. É como uma janela batendo com a chegada da chuva, uma porta batendo com o vento. É um susto que põe o coração a bater de novo.

Nem o sexo resolve o que o beijo faz. A transa sem beijo é apenas desafogo, catarse, apego de bichos. O beijo com língua é o que nos singulariza entre os animais. Casais felizes sempre se buscam pela boca. É uma receita simples de longevidade. Sem o beijo, a pessoa tem a vontade de largar tudo e ficar sozinha. Com o beijo, ela não perde a vontade de largar tudo, mas com a diferença de querer levar junto aquele que ama.



Rafaela Valverde

sexta-feira, 24 de março de 2017

Livro O lado bom da vida - Matthew Quick


Tenho O lado Bom da Vida desde 2014. O que motivou a compra foi o filme, que assisti antes e o Oscar de Jennifer Lawrence por interpretar Tiffany. Comprei e li uma vez de forma rasteira, sem prestar muita atenção. Li só por ler e não gostei. Até tentei vender esse livro no ano passado, mas ainda bem que não vendi porque eu o reli e amei. Achei um bom livro, leitura agradável, apesar  de muito futebol americano, personagens bastante humanos, reais. Pelo menos em relação a certas mudanças de comportamento e problemas  que todo mundo tem, sabe? Bem, vou parar de divagar sobre o livro e vou ao que realmente interessa.

Esse livro foi escrito por Matthew Quick e lançado em 2008 virando logo um best seller nos EUA e em seguida sendo traduzido para outros países e obtendo o mesmo sucesso. Enfim, o livro traz a história de Pat Peoples, um professor de história que se vê numa clínica psiquiátrica, tendo que lidar com uma nova vida e com o "tempo separados" que é o que ele chama  a separação da esposa Nikki. Alguns anos passam enquanto ele está internado na clínica e quando ele sai algumas coisas estão bastante mudadas.

Ele conhece Tiffany e iniciam uma amizade. Pat aguarda obedientemente o que ele pensa que é apenas um período separado, mas sua esposa Nikki já se divorciou dele, não existe mais possibilidade de volta. Mas Pat acredita tão ingenuamente no restabelecimento do seu casamento que chega emociona, sabe? Ele luta para mudar e se transforma numa pessoa melhor, já que não havia sido um bom marido, ele passa a malhar e ler os livros que sua esposa tanto queria que ele lesse. Enfim, Pat passa por um longo processo de sofrimento e mudança. É quase catártico observar essa mudança. É uma história de superação muito gostosa de ler. Eu recomendo!



Rafaela Valverde

quarta-feira, 15 de março de 2017

Batom


Encarava o espelho do banheiro. Olhos inchados. Chorara. Suspirou. Passou o batom roxo. Lá fora, tudo ok.
Peixes alimentados, plantas regadas. Saiu pelos fundos, pegou elevador de serviço. Mais três andares até décimo oitavo, terraço.
O sol já estava  se pondo. Mesa posta: vinho, flores e velas. Sentou olhando o horizonte, sentiu o vento roçar seu rosto e ensaiou um sorriso.
 O vinho era seco, tomou uma taça. O sol descia rápido. Também queria ir embora. O celular marcava 17:57, desligou. Passara vinte minutos, acendeu um cigarro.
Sem cerimônia, agora bebia no gargalo. últimos gole e tragada coincidiram.
Espelho na mão, passou dessa vez batom vermelho. Levantou, desamarrou o hobby, vestia sua melhor camisola.
Subiu na balaustrada, fechou os olhos e pulou.




Rafaela Valverde

sexta-feira, 10 de março de 2017

Resenha acadêmica de Nove Noites - Bernardo de Carvalho - Parte III


Alguns dados foram encontrados, mas o jornalista optou em não atribuir juízos de valor às informações encontradas. Mas o fato era que ele, o americano, não gostava de estar no Brasil. Ele queria ir embora e escrevia isso em cartas sempre que tinhao portunidade.   Não   se   sabia   o   motivo   exato,   por   exemplo,   ele   poderia   ter   alguma inimizade com alguém, o que poderia ter resultado um homicídio e não um suicídio. Sim, houve essa especulação na grande colcha de retalhos que se tornou Nove Noites 

.Já quase no finalzinho do livro em um dos momentos narrados por Manoel Perna, ele conta que durante essas nove noites que esteve conversando com Buell Quainteve certeza que todas as histórias que ele contou pareciam confissões, mas de alguma coisa além do que parecia realmente estar contando. “Foi a preparação da sua morte.”Manoel afirmou ainda que não acreditava que ele, Buell, pudesse ter feito algo errado,mas que pudesse estar tentando dizer que se mataria em breve.

Nove Noites é um livro rico e em alguns casos se torna até meio repetitivo no que diz respeito à ausência de informações precisas sobre a morte de Buell Quain. Dessa forma, o livro traz narrativas dentro de uma narrativa. Já no final há uma nova história: o pai do jornalista-narrador está em um hospital internado ao lado de um velhinho bem doente que pode ter conhecido o antropólogo americano. Isso ele conclui depois de investigar o idoso já moribundo. Essa parte encerra o livro com chave de ouro, já que não se espera o que pode vir dessa nova narrativa apresentada dentro de um hospital. É surpreendente essa nova possível nova perspectiva da história. O que deixa ela ainda mais genial. O idoso internado é um fotógrafo que pode ter convivido com Buell um tempo e pode ser autor de uma icônica foto do americano. Ele envia cartas para diversas pessoas   nos  EUA  e   vai   até lá tentar   descobrir  mais algo   sobre   essa possível ligação. Na volta encontra se com um jovem “orgulhoso e entusiasmado” que vinha estudar os índios brasileiros. Perplexo, o jornalista brasileiro pensa em como aquela situação é irônica e como os mortos podem atormentar os vivos.




Essa resenha foi solicitada como forma de avaliação junto com um debate sobre o livro para a disciplina de Literatura Brasileira e a Construção da Nacionalidade do curso de Letras da UFBA- Universidade Federal da Bahia. E foi escrita por mim.



Rafaela Valverde

Resenha acadêmica de Nove Noites - Bernardo de Carvalho - Parte II


Ora, era justamente a ideia que Bernardo de Carvalho rechaça. Os índios devem ser tratados como gente, como os seres humanos que são. Com seus defeitos e suas virtudes. A ideia que ainda se tem sobre o índio é que além de ele ser passivo, é  oco e superficial.   Índio   não pensa,  índio   só   quer   umas   lembrancinhas  e alguém   que   os defenda. Essa é a ideia paternalista que o livro pretende desbancar. E consegue. O livro passeia por histórias e emoções, o livro vai e vem. E assim será esse texto, ele vagueará pelas histórias  contadas  em   Nove  Noites   e  pelo   mistério que   ronda  o  suicídio   do etnólogo americano.

Dessa forma, há de se falar da morte, da vida, das cartas e de tudo mais que possa ser interessante sobre a vida de Buell Quain. Essa busca pela vida do antropólogo está   diretamente   ligada   à   vida  do   narrador.  A  análise   desse   texto   buscará   ser   tão obsessiva quanto a busca dele. Portanto trechos e parágrafos se vão se misturar e se intercalar para contar essa (s) história (s).

O narrador, depois de adulto, retornou à comunidade dos  Krahô, acompanhado de   um   antropólogo  conhecido.   Ele   conheceu   o   velho   Diniz,   único   membro   da comunidade vivo que conheceu Quain quando ainda era menino. Havia a esperança de que ele falasse sobre local em que o americano havia sido enterrado e outras questões. O velho Diniz mal havia sido apresentado ao jornalista e foi logo pedindo seu gravador. Negando educadamente, ele informa que precisa dele para trabalhar, o índio rebate: “Lá em   São   Paulo   você   compra   um   igualzinho   e   manda   pelo   correio.”   É   um   trecho marcante, pois evidencia o quão os índios são humanos, o quão os índios que moram no Brasil são realmente brasileiros. Enfim comprovam que índio é gente e gosta de todas ascoisas que todas as outras pessoas gostam. O velho Diniz conta que os índios chamavam Buell   de   “Cãmtwýon”,   sendo   logo   questionado   sobre   o   significado.   Mas   não   há significado específico, ao contrário do que se pensa que sejam os nomes indígenas. Mais um estereótipo quebrado. 

Diniz   ainda  conta   que   o   antropólogo   americano  raspou  a   cabeça,   enquanto tomava banho no rio, no dia seguinte à sua chegada: ajudou em um parto, deu nome ao recém-nascido, mas não queria participar de nada. Não se envolvia em nada e passava dias escrevendo, não bebia muito e costumava ouvir música às vezes. Era um homem bastante   reservado.   Diniz   achava   que   ele   havia   enlouquecido   depois   que   recebera algumas cartas. Nessas cartas, que foram queimadas por ele antes de morrer, haveria anotícia de que a mulher o havia traído com o irmão.

Mas   essa   história   não   é   verdadeira.   Há   muitas   contradições   e   versões desencontradas sobre as possíveis causas do seu suicídio. A mãe e a irmã dele afirmam que ele nunca havia sido casado e não tinha irmão. Só irmã, mãe e um pai que eranmédico, mas não muito próximo dele. Há ainda várias hipóteses sobre o momento da sua morte: “foi se cortando todo, ainda de dia, descendo sangue”, depois “queimou dinheiro.” Havia ainda informações sobre ele ter queimado as cartas que recebera, pois elas nunca foram encontradas. Ele teria se cortado no pescoço e nos braços e depois se
enforcado. Enfim, como se vê, não há uma informação só sobre o inesperado caso.

Há relatos que o etnólogo sofria e que estava se cortando (foi questionado nomomento) e ele afirmara que “precisava amenizar o sofrimento, extinguir a sua dorcruciante.” Em geral, as pessoas atribuem o suicídio a sofrimento à depressão e é fácil perceber que o homem tinha picos  de tristeza  e crises existenciais. Ele em  alguns momentos interagia e estava bem. No momento seguinte, porém mudava o seu humor e se trancava.

“Ele se enforcou com a corda da rede num pau grosso, inclinado, quando os índios fugiram,” afirmou o velho Diniz. Pediu que fosse enterrado ali mesmo e seu pedido foi atendido. A sepultura foi marcada com talos de buriti e nenhuma polícia ou outra autoridade foi ao local. Não houve exumação nem abertura de inquérito e nem há registro em nenhum cartório ou fórum.

 A morte de Buell Quain foi esquecida, teve certa repercussão na época, mais entre o meio antropológico, além de ter sido um americano morto em terras Brasileiras. Nem a mãe e a irmã vieram ao Brasil ou solicitaram o envio do corpo. Não. Ele ficou esquecido lá nos confins do norte do Brasil. A colcha de retalhos de informações e especulações sobre esse suicídio nunca foi concluída. As costuras não combinam entres i e sempre há alguma discrepância entre elas. Nunca se chegará a nenhuma conclusão sobre o que teria levado o jovem americano a se matar.

Foi   observado   que   há   algumas   insinuações   sobre   uma   possível homossexualidade   do   etnólogo.   Em   alguns   trechos   das   narrativas   apontam   como estranha a ausência de mulheres na vida dele. Ele não tinha amantes, não olhava para as índias, não era dado a aventuras sexuais, era bastante recluso. Outro ponto que pode ser interpretado como insinuação sobre a sexualidade de Buell seria uma das últimas cartas que ele escreveu ao cunhado, e somente a ele, antes de morrer. Para muitas pessoas poderia passar despercebido, mas não é esse o caso. Há também o fato de ele não se dar bem com o pai, seria um indício?

Em determinados momentos do texto é narrada  a viagem do jornalista, sessenta e  dois anos  depois. Ele mantém  um relacionamento mais  próximo com  os   índios, participa de rituais e reconstrói algumas imagens sobre os indígenas. Pôde ainda sentir um pouco a  sensação de estar próximo aos índios  e pesquisou bastante a vida do antropólogo. Cartas e fotos por exemplo. Em uma carta escrita em 4 de julho, menos de um mês antes de morrer ele escrevia: “Duvido de que em algum outro lugar no mundo existam culturas indígenas tão puras. Mas, a despeito de todas as virtudes do Xingu, gostaria   de deixar   o   Brasil   definitivamente   e   limitar   meu   trabalho   a   regiões.” Ele reclamava das dificuldades de trabalhar com índios brasileiros. “Acredito que isso possa ser atribuído à natureza indisciplinada e invertebrada da própria cultura brasileira.” Ou seja, os indígenas brasileiros, já naquela época não eram passivos como se imagina. E quase nada se alterou na cultura do povo brasileiro.



Continua...


Rafaela Valverde

Resenha acadêmica de Nove Noites - Bernardo de Carvalho


Livro que foi publicado em 2002 e  recebeu   o   prêmio  Portugal  Telecom de Literatura Brasileira, Nove Noites é o sexto livro de Bernardo de Carvalho. Ele mescla fatos da vida do antropólogo norte-americano Buell Quain com a vida do narrador. No dia 02 de agosto de 1939, cinco meses após chegar ao Brasil em sua segunda visita, Quain  se   suicidou   aos   27   anos.  Ele   vivia   com   a   comunidade  indígena   Krahô,   noTocantins, quando decidiu tirar a própria vida.

O narrador, sessenta e dois anos depois, resolve investigar obsessivamente o caso, após ler um artigo no jornal que fazia rápida menção ao suicídio de Quain. Ele segue pistas, contata pessoas que poderiam estar ligadas ao antropólogo e vai até a região conhecer os Krahô, a fim de tentar saber informações sobre esse misterioso suicídio. Ele usa o pretexto de que vai escrever um romance. E a partir dessa obsessão as histórias começam a ser contadas, de forma intercalada.

 O   livro,   na   verdade   pode   ser   encarado   como   uma   colcha   de   retalhos   de especulações sobre o que teria motivado o suicídio do jovem antropólogo. Mas uma colcha de retalhos genial. Bernardo de Carvalho – que já afirmou que o livro é “uma combinação de memória e imaginação” – soube desenvolver muito bem a narrativa a partir de fatos reais. Em uma entrevista para a Revista Trópico, Bernardo afirma que queria escrever um romance que não fosse paternalista e que mostrasse os índios como eles realmente são. Afirma ainda que queria fugir de diversas outras abordagens que são paternalistas. 

Quain era uma pessoa solitária, não se envolvia muito com os índios, até porque assim foi orientado antes  de   aqui chegar.  Porém,   se isolar   era uma   escolha muito particular dele. Não se sabia muito sobre o antropólogo que viveu meses entre os Krahô. Tanto que após a sua trágica morte especulava-se na possibilidade de uma doença, como por exemplo, a lepra. Havia também falatórios sobre sífilis. De tudo se falou. Afinal, era preciso justificar de alguma forma aquela odiosa tragédia.

O Brasil vivia no período do Estado Novo e assim alguns estrangeiros que por aqui viviam poderiam vir a ser vigiados – pelo menos é o que é contado no livro – em caso de serem comunistas ou algo parecido. Dessa forma, a reserva de Quain sobre a sua vida se tornava ainda maior. Essa reserva aumentou ainda mais em torno do seu suicídio.

Manoel Perna, engenheiro que conheceu e conversou com o etnólogo conta diversas informações sobre a personalidade e costumes de Quain. Inclusive é da estada do americano em sua casa que surge o nome do livro, já que foram nove noites de histórias contadas. Essas nove noites foram dias de abrigo para Quain que viajava. O que Manoel conta é o resumo das histórias de Buell nessas nove noites que foram alternadas: a primeira em um momento, a segunda em outro e mais sete em outra
viagem do etnólogo. Eles conversavam sobre muitos assuntos e o engenheiro afirma que chegou a conhecer um pouco a personalidade do misterioso homem.

O narrador, que é obcecado por essa história entrevistou Lévi-Strauss em Paris. Ele se pronunciou sobre sua visita ao Brasil e sobre a emoção que sentiu quando soube das pequenas culturas indígenas que estavam sendo ameaçadas de extinção, ou sendo exterminadas aos poucos. Strauss afirmou ainda que “toda cultura tenta defender sua identidade”. É possível perceber no livro, alguns relatos e narrativas se comunidades indígenas que lutavam entre si, a fim de se preservar cultural ou territorialmente. 

Ou seja,  não   necessariamente   era   o   homem   branco   que   ameaçava   a   existência   dessas comunidades. Eles mesmos lutavam e guerreavam. Esse fato já desconstrói algumas ideias paternalistas de que o índio é “coitadinho” e que o homem branco era o único algoz. Porém, apesar de alguns conflitos, a maioria das tribos mantinha uma relação amistosa. Antes de visitar os Krahô, Quain havia visitado a comunidade dos Trumai e achado os “chatos e sujos”, eles pediam várias coisas materiais para ele, que sempre recusava. 

Parece que ele já estava pensando em morte, pois segundo Manoel Perna afirmou, por exemplo, que o americano falara que os Trumai viam na morte uma saída para seus problemas  – “uma libertação dos seus temores e sofrimentos.” Há ainda relatos de Perna sobre possíveis prenúncios de morte que ele poderia ter recebido. Em um ritual dos Trumai, através do qual buscava- se a cura de uma mulher. Era uma cerimônia, muito fechada e foi informado a Quain que se entrasse ele morreria. Ele ignorou e  entrou   mesmo assim.   Em  outra  ocasião,   enquanto caçavam aves  para  a retirada das penas, disseram-lhe que “um pássaro de cabeça vermelha a que chamavam de ‘lê’ era o anúncio da morte para quem o visse. Pouco depois ele deparou com a aparição fatídica e preferiu acreditar que lhe pregavam uma peça.”  

Manoel   Perna   afirma   que   ao   lembrar-se   das   histórias   do   antropólogo,   só chegava à mente dele a imagem do corpo do antropólogo enforcado, cortado com gilete no pescoço e nos braços, com sangue pelo corpo, pendurado acima de uma poça de sangue. Foi essa a cena que os índios descreveram para ele, quando foram dar a notícia. Nove Noites traz diversas questões, as quais são impossíveis de serem todas analisadas nesse texto. Porém, há a pretensão de abarcar o máximo possível de questões trazidas pelo livro. Questões sobre o antropólogo americano, questões sociais e políticas da época, questões indígenas, entre outras.

O narrador, que é jornalista, conta as histórias das suas andanças pelas florestas.Sua primeira viagem foi em 1967, quando tinha seis anos. Ele foi acompanhado pelo pai, que procurava fazendas para comprar. Comprara duas: uma na região do Araguaia e outra na região do Xingu. Nessas fazendas ele viveu algumas aventuras na infância, inclusive um acidente de avião com o pai. Ele nem imaginava que retornaria um dia àquelas matas para investigar obsessivamente circunstâncias de um suicídio. Em sua narrativa ele afirma, entre outras coisas, que ficou guardada em sua memória a imagem do Xingu como um inferno e que ele não “entendia o que dera na cabeça dos índios para se instalarem lá.” Para ele parecia burrice, um masoquismo ou até mesmo uma espécie de suicídio. O antropólogo que o levou à região, em 2001 também se questionava o porquê de os índios estarem instalados ali.

 Entre algumas coincidências entre o narrador e Quain, há o fato de ele ter estado, 62 anos depois, no mesmo local e data em que se suicidara o etnólogo: dia 02 de agosto.   O americano escrevia muitas cartas a seus amigos e parentes. Algumas, não chegavam a ser enviadas, como essa que seria para Margaret Mead, escrita no dia 04 de julho   de   1939   com   o   seguinte   trecho:   “O   tratamento   oficial   reduziu   os   índios   à pauperização. Há uma crença muito difundida (entre os poucos que se interessam pelo índios) de que a maneira de ajuda-los é cobri- los de presentes e ‘elevá-los a nossa civilização’ [...]”


Continua...



Rafaela Valverde




Bem sucedida e solitária


Parece que serei a mulher bem sucedida na carreira, escritora, acadêmica, com teses e muitas leituras. E por aí mesmo vou ficar. Não que isso não me satisfaça, é maravilhoso! Mas o que vai ficando claro a medida em que os anos vão passando é que não serei a mulher amada e que ama; não serei a mulher com um casamento bem sucedido e com amor.

Esses sonhos românticos não são para mim, deixo para os afortunados na vida, cujo sorriso demonstra a felicidade de estar ao lado de alguém. Parece que não nasci afeita aos lados românticos da vida. Ou eu tento me afastar deles ou eles se afastam de mim. Já vi que amor não é para mim. Até sinto, mas não vivo. E não tenho nenhuma esperança de viver novamente.

Eu tenho andado muito desiludida com todas essas questões românticas. Eu não quero mais saber de romantismo. Eu serei a representante oficial da mulher moderna, livre e bem sucedida. Mas sozinha, Sabe, não exatamente aquele sozinha de não ter ninguém por perto. É  a solidão que vem no final do dia - que é a hora de compartilhar coisas; é a solidão de não ter ninguém para abraçar a gente, para acariciar a gente, é a sensação de estar sempre calada ou de conversar com espelhos.

Outra sensação que tem se apoderado de mim nos últimos dias é a se eu realmente sirvo para ser amada, ou se sou mulher para encontros casuais e relações rápidas. Talvez sim, é provável que sim. Já tive meu pequeno conto de fadas, já tive meu momento. Agora ele já passou e é à minha carreira que irei me dedicar agora. Pelo menos ela não me faz sofrer.



Rafaela Valverde

sexta-feira, 3 de março de 2017

Livro Nos Bastidores da Censura - Deonísio Silva


Terminei ontem de ler o livro Nos bastidores da censura: sexualidade, literatura e repressão pós-64 de Deonísio da Silva. É um livro de não ficção publicado pela primeira vez em 1989, ano que eu nasci e cinco anos após o fim da ditadura militar no Brasil. Comprei esse livro por acaso em uma feirinha de livros baratos num shopping. Custou 10 golpínhos e me interessei por ele devido à minha pesquisa na Iniciação Científica que é sobre a escrita feminina nos anos 1970, justamente período da ditadura militar.

Inclusive utilizei duas citações do livro no meu relatório parcial de pesquisa, entregue ao CNPq. Gostei bastante do livro, principalmente no que diz respeito à análise literária  feita de forma crítica e contundente. Não gostei muito das partes que eram descritos os documentos de processos, etc.

Pois bem, o livro trata basicamente da censura do livro Feliz Ano Novo de Rubem Fonseca que havia sido lançado em meados dos anos setenta, no momento em que se autorizava uma abertura, ou distensão durante o regime militar. Há também informações e análises sobre outros livros, mas esse é o principal livro analisado, até porque Rubem processo a união e o ministro que havia autorizado a proibição do livro. Segundo o regime o livre feria "a moral e os bons costumes" e precisava ser retirado dos pontos de vendas.

Ao contrário do que se pensou, a procura pelo livro aumentou e o processo se espalho por anos. Vários argumentos que forma utilizados pelos advogados do autor, são justificados no livro através da crítica literária. Todos os contos do livro são analisados e conforme informações dos censores, eles incitam violência, impunidade e homossexualidade. Alguns fatos são bem curiosos e gostei muito de descobrir. Um dos livros mais baratos e mais úteis que já comprei. 




Rafaela Valverde

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Nove Noites - Bernardo de Carvalho

.

Estou mergulhada num livro como há muito tempo não ficava. É claro que a resenha crítica solicitada pelo professor de Literatura Brasileira me impeliu à tal empreitada, mas realmente a leitura desse livro é apaixonante. O livro é  Nove Noites de Bernardo de Carvalho, já tinha ouvido falar no autor, bem por alto, mas nunca havia lido nada dele. Amei essa experiência de ler Nove Noites. Ele traz muitas questões, mas muitas mesmo, sobretudo no que se refere às comunidades indígenas tão estereotipadas por nós.

Há muitas desconstruções. Na verdade, a disciplina é toda de  desconstrução de conceitos bizarros que estão em nossa cabeça desde a tenra infância. Fiquei muito apaixonada por Nove Noites, especificamente. É um livro de ficção e memória como afirmou o próprio autor.  Ele mescla a vida do narrador ou narradores com relatos da vida de Buell Quain, antropólogo americano que se suicidou aso 27 anos enquanto vivia em uma comunidade indígena no Brasil.

Eu escrevi uma resenha crítica, ou seja lá o que for aquilo, de cinco folhas sobre o livro que é genial. Deixa o leitor preso até o final a fim de saber se aquele mistério será resolvido. Pelo menos eu fiquei presa, em alguns momentos fascinada pela história. Mas o livro, que eu carinhosamente chamei de colcha de retalhos, não elucida o suicídio do jovem etnólogo. Sim, vou logo dando spoiler, porque com um livro maravilhoso desse não há spoiler que estrague a leitura.

Por que o americano se matou? Onde está enterrado seu corpo? Onde estão as cartas que ele recebeu pouco antes de morrer? Essas perguntas, entre outras, são deixadas sem resposta no decorrer do livro. Mas o que mais importa é como essas perguntas são feitas. Ainda assim, o final do livro conseguiu ser surpreendente para mim devido a alguns desdobramentos da narrativa. Amei Nove Noites!



Rafaela Valverde

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Arte de amar - Manuel Bandeira


Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.







Rafaela Valverde

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Escuta - Maria da Conceição Paranhos

Eu faço parte do grupo de pesquisa Edição de textos teatrais censurados da área de filologia do ILUFBA. E  estou pesquisando a poeta, cronista, ensaísta e professora da UFBA Maria da Conceição Paranhos. Estou descobrindo alguns poemas dela e deixo esse aqui hoje com vocês.




Ocorre que há uns lapsos na história,
há uns lapsos. Então vêm, videntes,
relatar histórias conhecidas
em noites longas de calor, insônia.
Ouvimos. Pacientemente.
Sob discursos jazem outras vozes.

Necessário cantar.
Animais se aninham ao nosso ânimo,
baixam seu brado à espera da canção.
E os leões de pedra dos portões
deixam rolar os globos que os sustentam.

Falamos línguas obscenas.
Não. Endureceu-se o ouvir.
Indefinidamente?
Afrontar a rija espada dos confrontos,
permitir soluções, se o peito arfa
curvado de rajadas imprudentes.
Se não se deixa a alma nesses lances
em que transidos vagamos dementes,
como afrontar as rugas, decifrar mensagens
(não correm ventos nas paisagens mortas,
largadas ao relento)?

Necessário é amar.
Primeiro e último tormento






Rafaela Valverde

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Estrela da manhã - Mário de Andrade


Eu queria a estrela da manhã
Onde está a estrela da manhã?
Meus amigos meus inimigos
Procurem a estrela da manhã

 Ela desapareceu ia nua
Desapareceu com quem?
Procurem por toda à parte

Digam que sou um homem sem orgulho
Um homem que aceita tudo
Que me importa?
Eu quero a estrela da manhã

Três dias e três noite
Fui assassino e suicida
Ladrão, pulha, falsário

Virgem mal-sexuada
Atribuladora dos aflitos
Girafa de duas cabeças
Pecai por todos pecai com todos

Pecai com malandros
Pecai com sargentos
Pecai com fuzileiros navais
Pecai de todas as maneiras
Com os gregos e com os troianos
Com o padre e o sacristão
Com o leproso de Pouso Alto
Depois comigo

Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas
      [comerei terra e direi coisas de uma ternura tão simples
Que tu desfalecerás

Procurem por toda à parte
Pura ou degradada até a última baixeza
Eu quero a estrela da manhã.


Rafaela Valverde

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Hino Nacional - Carlos Drummond de Andrade

Precisamos descobrir o Brasil!
Escondido atrás das florestas,
com a água dos rios no meio,
o Brasil está dormindo, coitado.
Precisamos colonizar o Brasil.

O que faremos importando francesas
muito louras, de pele macia,
alemãs gordas, russas nostálgicas para
garçonnettes dos restaurantes noturnos.
E virão sírias fidelíssimas.
Não convém desprezar as japonesas.

Precisamos educar o Brasil.
Compraremos professores e livros,
assimilaremos finas culturas,
abriremos dancings e subvencionaremos as elites.

Cada brasileiro terá sua casa
com fogão e aquecedor elétricos, piscina,
salão para conferências científicas.
E cuidaremos do Estado Técnico.

Precisamos louvar o Brasil.
Não é só um país sem igual.
Nossas revoluções são bem maiores
do que quaisquer outras; nossos erros também.
E nossas virtudes? A terra das sublimes paixões…
os Amazonas inenarráveis… os incríveis João-Pessoas…

Precisamos adorar o Brasil.
Se bem que seja difícil caber tanto oceano e tanta solidão
no pobre coração já cheio de compromissos…
se bem que seja difícil compreender o que querem esses homens,
por que motivo eles se ajuntaram e qual a razão de seus sofrimentos.

Precisamos, precisamos esquecer o Brasil!
Tão majestoso, tão sem limites, tão despropositado,
ele quer repousar de nossos terríveis carinhos.
O Brasil não nos quer! Está farto de nós!
Nosso Brasil é no outro mundo. Este não é o Brasil.
Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?

Carlos Drummond de Andrade


Rafaela Valverde

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Livro A Garota na Teia de Aranha - David Lagergrantz


O último livro que li em 2016 foi A Garota na Teia de Aranha de David Lagergrantz. Ele é a continuação da trilogia Millenium, trilogia sueca cujo o autor, Stieg Larsson, faleceu em 2004. Ele nem viu seus três livros serem lançados e o sucesso que fizeram. Eu adoro essa trilogia  e descobri por acaso quando tinha TV por assinatura, o filme Sueco Os homens que não amavam as mulheres. A partir daí comecei a pesquisar, vi todos os filmes, inclusive o americano e li os três livros.

No ano passado, houve o lançamento desse quarto livro, escrito pelo jornalista e escritor Davi, citado acima. Eu torci a boca para esse livro, pois só o via como um livro mercadológico lançado pela família de Larsson para ganhar dinheiro. Eu ainda acho isso, com a diferença de que agora eu li e devo admitir que é um bom livro. Apesar de meio repetitivo, David conseguiu captar as áureas dos personagens, especialmente os principais: Lisbeth Salander e Mikael Blomkvist.

O livro traz uma trama, literalmente. Uma trama, uma teia, como o próprio nome já diz, onde os personagens se ligam de alguma forma. O passado de Lisbeth vem mais uma vez à tona com a revelação de novos detalhes que ainda não eram conhecidos pelos leitores dos livros anteriores.

Agora, a história está fortemente ligada à tecnologia e à matemática. O autismo também tratado, com um pouco de fantasia, eu achei. Há algumas outras coisas que são fantasiosas demais, mas vocês terão que ler para saber. Mas o livro é bom, eu gostei bastante e praticamente o devorei. Recomendo a leitura!



Rafaela Valverde

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Livro O Pequeno Príncipe


Demorei de ler O Pequeno Príncipe. Eu já devia ter lido há tempos, mas ficava com preguiça por ser um livro muito manjado. Mas minha irmã me emprestou e eu li. É um livro bem fofo, considerado infantil, mas já vi muito adulto lendo. Foi escrito pelo aviador  francês Antoine de Saint-Exupéry.

Um piloto encontra o Pequeno Príncipe num deserto após a queda do seu avião. Enquanto tenta consertar a aeronave, ele faz amizade com o Pequeno Príncipe que apareceu de um outro planeta, pedindo para que ele desenhasse algumas coisas. 

E como gente grande não entende nada, não sabe nada e ainda aceita tudo, esse livro é um convite para sair da nossa vida real, do nosso mundo adulto. O Pequeno Príncipe, viajante, explorador decide visitar vários lugares. Encontra uma raposa, um bêbado, um geógrafo e assim segue a aventura.

Leitura gostosa e rápida.  Recomendo!



Rafaela Valverde 
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