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sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Pela rua...


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Um dia, andando pela rua
Me senti vazia, me senti nua
Não estava mais me sentindo plena
Saia de mim e via aquela cena
De mim mesma caminhando à toa
Tentando ser uma mulher boa
Das que se sentem tristes quando necessário
Mas ainda gostam de fazer aniversário
Isso porque a plenitude vem e nos alcança
Somos dessas, não gostamos de cobrança
Nem precisa
A vida avisa
O momento de mudar
O momento de bradar
Bem alto
Quebro meu salto
Andando pela rua
A tristeza se insinua
Aqui na minha frente
Faz me ver carente
Mas não estou mais
Coisas banais
Voltam a acontecer
Coisas boas até o anoitecer
E eu continuo aqui andando
Pelas ruas vazias cantarolando
Nada mais me atinge, bailando
Na dança que a vida me dá
Feliz pra-lá-de-Bagdá!



Rafaela Valverde




quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

As festinhas da moda para constranger bebês que ainda nem chegaram ao mundo

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Já repararam na obrigação que as pessoas parecem que têm agora em fazer festa de anúncio de sexo de bebê e chá de fralda, quando não dois chás de fraldas; um para a empresa em que trabalha e outro para a família. Eu acho tudo isso as coisas mais ridículas que se pode fazer ao esperar a chegada de um filho. Essas modinhas, espero que passem, causam aversão em mim às pessoas que as realizam. Parece que é o maior acontecimento do mundo. Parece que é a coisa mais extraordinária do mundo, fazer e parir um filho. Saibam que não é. Qualquer ser mamífero pode parir, a única diferença é que somos seres humanos, seres "racionais" e "pensantes" e aparentemente achamos ou temos certeza que mandamos no mundo, mandamos em todo o reino animal. Portanto, só nós mesmos somos capazes de sermos patéticos, de tornar uma coisa tão bonita, tão simples e ao mesmo tempo tão complexa em um circo de horrores...

Minhas reflexões acerca do assunto começaram a partir de um episódio da série Grace e Frankie que assisto e adoro. Mas já pensava nessas coisas há um tempo. O que o episódio trouxe? Um casal descobre que serão pais e fazem uma pequena festinha com a presença da família, que também não gostara muito da ideia de ir à esse tipo de festa e fazia muita galhofa. A festa vai rolando, a família criticando e bebendo para esquecer que estavam ali participando daquele momento patético e no final acabam não descobrindo o sexo do bebê porque o bolo tem recheio lilás, o azul se misturou com o rosa e não chegaram a nenhuma conclusão. O casal virou motivo de chacota para a família e para mim também. Mas, não só o casal, o bebê também. Será que as pessoas já pararam para pensar nisso? Que as coisas ridículas que fazem para "dar as boas vindas" aos filhos podem constranger os bebês antes mesmos de eles chegarem ao mundo? Acho que ninguém para para pensar nisso. E também nem sei se estou certa ao falar isso, eu só acho muito sintomático seguir essas modinhas que transformam o acontecimento de ter um filho constrangedor. As pessoas pensam que estão abafando, postando nas redes sociais, mas, na maioria das vezes estão pagando mico.

Pelo menos na minha opinião. Eu não estou aqui dizendo que o que eu acho das coisas é a verdade absoluta, não. Estou aqui apenas afirmando, e isso tenho direito absoluto, que detesto esse tipo de festa modinha e acho que há muitas coisas mais importantes em que se investir MEU dinheiro. Eu, por exemplo preferiria investir em educação e livros para meus filhos, mas cada um sabe o que faz com seu dinheiro. O mais irônico dessas situações é que esses mesmos pais que gastam horrores fazendo essas festas ridículas, economizam em escolas, não querem comprar livros, nem pagar transporte escolar e reclamam todo ano para comprar material escolar. E os chamados "mêsvesários"? Meu Deus, não tem coisa mais ridícula que essas comemorações mensais em que se gasta um dinheirão e posta fotos temáticas a cada mês...

E quem não faz esse tipo de coisa ou cai na asneira de criticar esses comportamentos idiotas, como eu estou fazendo agora, ainda é taxado como insensível, desnaturado, etc. Na cabeça das pessoas só é legitimada a parentalidade se houver esse tipo de cena e festinha na internet. Caso você não faça nada disso, porque afinal tem uma criança para cuidar ou uma gravidez para administrar, você não é pai ou mãe de verdade. Mas, tá. Pai e mãe são só aqueles que posam tematicamente e pagam mico - e fazem seus filhos pagarem - antes, durante, e depois da chegada de um bebê na família. Falta do que fazer define, na minha opinião.



Rafaela Valverde

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Se todas as garotas - Nikita Gill

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Se todas as garotas fossem ensinadas
como se amar ferozmente
em vez de como competir
umas com as outras
e odiar seus próprios corpos,
que diferente
e bonito mundo
nós viveríamos.





Rafaela Valverde

Nossa dança sensual

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O quarto fica mais quente com a gente dentro. Nus. Dançando movimentos sensuais. Nenhum momento com você é igual, nenhuma de nossas transas é igual, por mais que façamos as mesmas posições, por mais que pareça aquele sexo burocrático típico de casais apaixonados, nunca são as mesmas sensações. É sempre diferente, delicioso. E quando você falou: "deixa eu te chupar um pouquinho", foi tão tesudo de ouvir. Parecia desesperado por fazê-lo. Esse cabelo roçando na minha barriga enquanto está lá embaixo é a carícia mais encantadoramente sensual que pode acontecer...

Adoro quando você tira minha calcinha dessa forma única que me deixa ainda mais te querendo. Beija e lambe partes do meu corpo que eu nem sabia  que eram beijáveis. Eu quando estou embaixo de você me sinto no céu, sufocada por uma sensação que não sei de onde vem. Ou em cima, ou do lado... Todos esses momentos e posições ritmados são incríveis, porque é com você.

Eu não consigo nem descrever como fica meu corpo quando você me toca e daí já partimos para a ação e não consigo pensar em mais nada. A partir daí entramos em um transe inefável e inimaginável. Eu meio que saio de mim e só lembro de como me sinto no final, ofegante e quase infartando depois de gozar.

Alguns desses seus detalhes que te fazem único me deixam enlouquecida de tesão e você sabe do que eu estou falando. Adoro sentar em você e observar essa sua cara safada de cima, é uma visão panorâmica melhor que da Baía de Todos os Santos. Gosto de olhar seu rosto enquanto goza e puxo seu cabelo para cima. Não é por mal, é só porque é muito lindo de ver.

Quero que me coma em todos os cômodos desse apartamento que ainda me parece incauto demais. Você sabe disso, porque eu já te disse, mas não sei qual foi sua reação, aff esses aplicativos de mensagem que não deixam a gente ver a reação do outro, mas vou falar de novo só pra ver sua reação e carinha falsa de timidez. Você vai dar uma risadinha sem graça e nem vou acreditar nisso... E essa gargalhada? E essa voz deliciosa cantando em meu ouvido... É melhor eu parar por aqui mesmo porque estou na sala e tem gente aqui...



Rafaela Valverde  

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Queria experimentar no seu corpo todos os lugares do mundo juntos - Cristiane Neder


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Queria experimentar
todas as alturas do mundo
ao seu lado,
e perder o medo
de andar pelo céu
e conversar com os anjos.
Queria voar
e cair
sem paráquedas
para te abraçar
bem apertado,
e sentir o vento denso
das cordilheiras do Himalaia
e o silêncio e o calor
do Deserto do Saara,
pois no seu corpo
há todos os lugares belos
do mundo juntos
tatuados,
há todas as maravilhas
imaginadas e sonhadas
do planeta terra
na sua mais exata perfeição,
pois por onde você passa
sua pele recebe a energia
de cada lugar especial,
e registra na tua pele
um pouco de cada cultura




Rafaela Valverde

Mulher ao espelho - Cecília Meireles


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Hoje que seja esta ou aquela,
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.

Já fui loura, já fui morena,
já fui Margarida e Beatriz.
Já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.

Que mal faz, esta cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto,
se tudo é tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?

Por fora, serei como queira
a moda, que me vai matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.

Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seus
e morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.

Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscando-se no espelho.





Rafaela Valverde

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Depois de você - Jojo Moyes

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Depois de Você de Jojo Moyes finalizou muito bem a história da vida de Lou, Louisa Clark, personagem apresentada em Como Eu era Antes de Você. A personagem, como não poderia deixar de ser, cresceu muito ao longo dos dois livros. Mas a personagem ainda está perdida na vida. Não faria metade das escolhas que ela fez, mas ainda assim gosto muito de Louisa. 

Nesse livro Lou está em um novo momento da vida. Frequenta um grupo de apoio para aceitar a morte de Will, trabalha num lugar que odeia e está afastada da família. Mas um belo dia alguém aparece em sua vida, fazendo com que ela recue várias vezes antes de voltar a andar para frente. 

A leitura como sempre é muito divertida e flui de maneira muito agradável. Alguns momentos eu até me pegava rindo. Jojo constrói muito bem seus personagens e os fazem ser gente como a gente. Foi o primeiro livro lido em 2018 e acho que comecei muito bem o ano. Fiquei tão fã da escritora que comprei mais um livro dela. 

Essa pessoa vai fazer Louisa crescer ainda mais e entender que sua vida é sua responsabilidade e não do acaso. Senti algumas coisas em comum entre nós duas. Amei esse livro, de verdade. Acho que posso ter gostado até mais do que o primeiro. É isso, somente um pequeno resumo da minha primeira leitura do ano. 

Lou se reconcilia com a família, consegue dar a volta por cima e entende que o que Will queria era justamente isso: que ela vivesse a vida de maneira mais plena que conseguisse. Isso depois de cair do terraço do prédio em que morava. A queda lhe traz outra surpresa... Leiam!



Rafaela Valverde

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Minha borboleta

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A gente corre, corre e corre atrás da borboleta, mas ela foge da gente. Um belo dia quando a gente para de procurar e se distrai, é aí que a borboleta posa em nosso ombro. Ouvi essa história há um tempinho e me encantei logo de cara. Já gostava de borboletas, mas foi aí que decidi que gostaria mais. Essa pequena história quer dizer que durante muito tempo a gente fica procurando algo que às vezes nem sabe o que é e quando a gente para de procurar ou até mesmo perde as esperanças essa coisa acontece. Sem mais nem menos. Eu, por exemplo, estava aqui de boa, na minha, sem nem pensar em nada disso, sem nem pensar em me apaixonar de novo, mas em alguns momentos é a vida quem manda na gente, sei lá. Parece que há sempre alguma coisa predestinada, apesar de eu acreditar muito mais no livre arbítrio, em livres escolhas. Mas, querendo ou não, em determinado momento alguma coisa acontece sem que você queira ou sequer se dê conta. Pois bem, eu me apaixonei. Perdidamente. Loucamente. Rapidamente. Tantos advérbios para explicar e caracterizar o que não tem explicação e nem caracterização específica. Paixão é a coisa mais maluca que alguém pode sentir.  É ao mesmo tempo doença e cura, ao mesmo tempo que dá tensão de saudade, nos deixa com sorrisos idiotas o dia todo. Paixão é um sentimento pouco inocente, pouco isento. Arrasa tudo que vê pela frente. Consome fornalhas e mais fornalhas, esquenta... Pode virar amor. E esse sim é o mais sublime encanto sentido por seres humanos. A minha borboleta chegou no momento que eu imaginava que não mais seria capaz de despertar interesse em borboleta nenhuma. Posou no meu ombros descaradamente e eu não podia deixar que ela se fosse. Tentando buscá-la, caçá-la foi que me meti em uma enrascada disfarçada de namoro no passado. Hoje, eu sei que as coisas não serão mais assim. Eu não sinto apenas. Eu tenho certeza. Eu quero ficar nessa relação, eu quero tentar. Não são expectativas, são certezas. Expectativas são coisas que já descalcei há muito tempo. Não tinha expectativas nenhuma quando encontrei essa nova paixão lá no décimo dia do último mês de 2017. Sim, como eu disse foi tudo muito rápido. Porque era pra ser. Porque estávamos sendo preparados um para o outro. Porque estou lembrando muito bem que Deus me disse para esperar, para ficar calma e não procurar. Que essa hora chegaria. Que essa pessoa chegaria. Daí eu fiquei tranquila, parada e não procurei. Eis que chegou minha borboleta, minha rechonchuda e brilhante borboleta. Suas cores me enchem de alegria, sua calmaria me enche de paz. Suas graças me enchem de gargalhadas. Meu peito está cheio de um sentimento lindo e avassalador que me pegou depois de muitos anos. Há muito tempo não sabia o que era ficar sorrindo pelos cantos, ao invés de chorando e me lamentando. A minha borboleta me alcançou, me escolheu e é perto dela que vou ficar. Não vou deixar escapar. Não dessa vez. Me faz bem. Quero ela perto de mim, como já disse não vou deixar que ela escape, mas não vou prendê-la. Comigo não existe isso. Aqui a gaiola são meus braços e pernas enroscados quando estamos nus na cama de madrugada. Aqui, ao meu lado, fica quem quer. E ele quer. Minha borboleta, o dono da minha paixão. Quer. Ele-me-quer. E olha que nem imaginava que ainda tinha pólen para atrair uma borboleta tão incrível. Mas não é que eu tenho? Sou muito privilegiada!




Rafaela Valverde

sábado, 20 de janeiro de 2018

Se eu te faço bem...

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Se eu te faço bem você me faz o quê?
Cobre minha vida de sorrisos e bem-me-queres
Perco a mão dos meus afazeres
Te vejo sem idealizar
Algo que era raro para mim
Tudo foi tão rápido
Tenho medo de chorar
Sentimento tão macio
Mora no meu peito assim
O que sinto exatamente
Ainda mal sei o que
Mas é por você
Me desconcerta
Paixão que não esperava
Mas quem espera?
Me deixa alerta!
Só consigo pensar naquela foto
Você com cara de deleite
Para ela me transporto
Aquele momento
Para que você me aceite
Se eu te faço bem o que é que acontece comigo quando olho aquela foto?
Me sinto sortuda!






Rafaela Valverde

sábado, 13 de janeiro de 2018

Regina

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Quando fecho os olhos vejo um casarão
Um monstruoso, como um castelo
Típico da realeza
Mas, ora, não é o que sou?
E essa rainha, regina?
O casarão é dos suntuosos
Que tem uns dezoito quartos
Um luxo pra mim
E ainda assim é como meu coração...
Já me mudei tantas vezes
Minha casa tem outras em cima
Não tenho riquezas, ao contrário
Sou digna de recursos
Por isso o trabalho constante
De ser rainha
E minha própria dona
Ainda assim continuo precisando de investimentos
Invista
Serei sua rainha
A regina!





Rafaela Valverde

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Fragmentos soltos de saudade

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Meu olhar fotografa o vento brincando com seu cabelo.
Essa brisa leve de início de trade faz a vida valer a pena.
Ouço, apesar disso, as pessoas reclamando. As pessoas reclamam de tudo.
Eu só reclamo por você não estar aqui.
Sinto sua falta, imensamente, muito mais que aquela fome da madrugada...
Não sei o que você fez comigo mas eu só ando atarantada.
Não sei se você sabe que eu te quero
Mas, do jeito que tu anda, eu só posso mesmo te querer...
Encerro-me em congratulações por você gostar de mim.
Senti um leve comichão na nuca. Era você chegando...
Sinto que pode vir um tsunami. Eu não me importo. Seus braços grandes vão me proteger.
Não consigo escrever mais nada. Só é possível sentir.
Sinto saudades todos os dias.
Sinto que os dias estão passando mais devagar. Não há horário de verão que resolva...





Rafaela Valverde

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Atrações químicas

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Apática e melancólica
Eu era
Mas surgiu essa Química
Como uma Quimera
Para me desarmar
Como uma reza católica
Virou constante por aqui
Coberta por uma túnica
Me protegi
Por poucos cinco minutos
Nessas substâncias caí
Mergulhei a fundo
Muitos atributos
Além do estudo da matéria
Quero conhecer tudo
Quem dera!
Começo o estudo
De suas faces e manias
Acho que a paixão já me dominou
Com sua soberania
Me iluminou
Trouxe as propriedades
De uma matéria única
Exclusiva e excepcional
Sem piedade
Me tirou da dor e da apatia
Me tornou mais passional
Cada molécula
Cada átomo meu
Se movimenta
Em uma nova e cíclica alegria.





Rafaela Valverde

domingo, 31 de dezembro de 2017

Guardar- Antônio Cícero

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Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.




Rafaela Valverde

Soneto futebolístico - Glauco Mattoso

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Machismo é futebol e amor aos pés.
São machos adorando pés de macho,
e nesse mundo mágico me acho
em meio aos fãs de algum camisa dez.

Invejo os massagistas dos Pelés
nos lúdicos momentos de relaxo,
servindo-lhes de chanca e de capacho,
levando a língua ali, do chão no rés.

É lógico que um cego como eu
não pode convocar o titular
dum time brasileiro ou europeu.

Contento-me em chupar o polegar
do pé de quem ainda não venceu
sequer a mais local preliminar.




Rafaela Valverde

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

A bunda, que engraçada - Carlos Drummond de Andrade

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A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora — murmura a bunda — esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.

A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar
Esferas harmoniosas sobre o caos.

A bunda é a bunda
redunda.



Rafaela Valverde

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Memórias de Luxúria

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Ando tão necessitada que tô lembrando de casos sexuais antigos. Lembrei agora de sua forma de praticar cunilíngua. Lasciva. Quis usar esse termo, cunilíngua, para deixar mais elegante esse momento sexual tão sublime e superestimado por mim. Sim, eu gosto de uma boa língua passando - bem direitinho - no meu grelo. E olhe, não vou ficar falado através de eufemismos. E para completar este relato, devo dizer que adoro fazer oral. Felação. No popular cunilíngua é chupar boceta e felação é boquete. Quem não gosta? O problema é que algumas pessoas não gostam. Na verdade não gostam de fazer, mas recebem de bom grado. Mas, voltando a você e a lembrança de quando você me lambeu tão vorazmente. Que tesão. Que delícia, que lindo! Esperamos muito tempo até nos encontrarmos sexualmente. Anos, talvez. Não sei. Não sei quase nada. Não vou deixar claro o que é real e o que não é. Este é um texto ficcional. Mas talvez não seja. Talvez seja autoficcional. Talvez seja todo real. Não vou dizer. Fica por sua conta e das demais pessoas que estão lendo. Vou me ater apenas a escrever dominada pelo torpor sexual que me toma nesse exato momento. Sim, mas nós esperamos muitos anos e penso que por isso mesmo tenha sido tudo tão quente, desesperado e gostoso. Ainda sinto as sensações daquele dia. Elas vem lá de baixo e me deixam com vontade de sentar a qualquer momento do dia e em qualquer lugar. Repito: foi uma delícia! Sua língua passeava por minha boceta para cima e para baixo como se subisse e descesse uma ladeira. E vai ver até é uma ladeira. A ladeira do meu prazer.  Consigo lembrar que fiquei super molhada desde o momento em que saímos do carro e você foi andando atrás de mim no corredor. Imaginei você me olhando e rebolei mais ainda enquanto andava. Quase senti minha excitação escorrer pela calcinha quando abri a porta e sentei na cama. Tirei a sandália e deitei esperando por você que atravessou o quarto, tirando o sapato e a camisa. Deitou. Ficamos ali deitados um ao lado do outro pelos dez segundos mais longos da minha vida antes de começarmos a nos pegar. Fiquei por cima, tirei a calcinha, mas continuei de vestido. Abri o zíper da sua calça e puxei seu pau com volúpia. Queria sentir seu calor e queria que você sentisse o quanto eu estava quente e ao mesmo tempo molhada. Lembro de tudo isso me contorcendo de prazer. Tá um frio lá fora e eu tô só de calcinha lembrando desse dia. Quando você estava dentro de mim e gritava: "quanto tempo esperei por isso...", eu sentia toda a fúria daquele tesão e o gozo vinha facilmente.  O som do meu gozo eram a sua voz e meus gemidos de satisfação. Apertava seu corpo contra o meu e não queria que aquele momento de êxtase terminasse nunca. Minutos depois estávamos deitados de conchinha, mais porque foi a posição que deu para deitar. Ofegantes. Você olhava pra mim com uma cara boba e eu olhava para o teto tentando me recuperar desse estupor. Começou a lamber minhas costas. Era o sinal. Virei e beijei sua boca, seus dedos já estavam dentro de mim, massageando delicadamente, depois forte, depois devagar de novo. O tesão estava em cada poro do meu corpo e em névoas naquele quarto. Me deitou de bruços me penetrando com a mesma intensidade que precisava para eu delirar e gozar. Eu tô é muito desesperada, eu preciso transar, senão não estaria lembrando desse dia, afinal, você foi só mais um... A segunda melhor transa da minha vida, mas, só mais um... Sem termos técnicos, sem firulas, sem nada dessas frescuras. Eu quero é foder!




Rafaela Valverde

domingo, 17 de dezembro de 2017

Cansada e com medo

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Cansada e com medo
Guardo um segredo
Corpo fechado
Nó atado
Mente também
Pra os que não são do bem
Me fizeram sucumbir
Meu "não-amor-próprio" quase me fez desistir

Cansada e com medo
Corpo fechado
Ferido com um machado
Não o de Assis
Deixou cicatriz
Gosto azedo
De amarga rejeição
Que decepção!

Cansada e com medo
Mente também
Mente como todos eles
Aprendeu a ser reles
Mas com um porém
Quem aprende não tem males
Como quem nasceu assim
É apenas um arremedo

Cansada e com medo
Me fizeram sucumbir
Pensei em partir
Cortar os pulsos, nem sei...
Na hora paralisei
Mas, peraê!
Não vou me desesperar por isso
Não vou dar gosto a quem foi omisso

Cansada e com medo
Guardo um segredo
Fui tratada como brinquedo
Daqueles que a criança enjoa
E larga à toa
Mas sou boa
Não mereço, sei lá?
A pergunta que não vai calar!

Cansada e com medo
Nó atado
Por que será que a gente sempre acha que merece?
E se tivesse se matado?
A dor transparece
Mas ainda tem força
Desamarra logo!
E sai cedo

Cansada e com medo
Pra os que não são do bem
Saibam que vocês estão aquém
Saiu sem demora daquele atoledo
Vocês são uma corja
Que amor finge e forja
Para enganar
Quem tem pouco amor por si

Cansada e com medo
Meu "não-amor-próprio" quase me fez desistir
Mas consegui a poeira sacudir
Espanei vocês para fora da minha vida
Esse foi o ponto de partida
Me apaixonei por mim mesma
Por vocês só sinto indiferença, nem me apiedo
Afinal, não olho para pantesmas!




Rafaela Valverde

sábado, 16 de dezembro de 2017

Banho quente

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Estávamos no banho. Eu a-observava. Oh Deus, como pode haver coisa tão linda? Se há no mundo algo mais repleto de perfeição que o corpo feminino deve estar bem escondido, não sei onde... Nesse momento ela esfregava delicadamente os pés, passou  um hidratante de banho neles e esfregou com a bucha delicadamente. Ah então é daí que sai esse cheiro de frutas vermelhas...

Recostei no box e até esqueci do meu próprio banho. Pra quê tomar banho em um momento como esse? Sua distração durou pouco. Me olhou rindo e eu ri de volta. Ora o que eu poderia fazer? A vergonha do flagrante tomou conta de mim e me virei para pegar meu xampu. Ela me abraçou por traz, beijando meu pescoço. Ai foi que me derreti... 

Seus seios médios e perfeitos contra minhas costas era a coisa mais excitante do século. Beijei- a, descendo em seguida para abocanhá-los. Ela gemia em meu ouvido enquanto lambia seus mamilos. Sem controle eu ia de um a outro com desespero. Ela puxou meu rosto e me beijou de volta. Derrubamos os xampus, sabonetes e todos os produtos que estavam pendurados. E ali mesmo começou a nossa manhã.

Seu gosto é delicioso. Claro que a gente acha tudo maravilhoso quando está apaixonado, mas era o melhor gosto, era o sexo mais delicioso que eu já experimentara. O chuveiro continuava aberto, a água quente  e o vapor embaçavam o vidro e deixava tudo ainda mais quente. A intensidade daquele momento não sairia mais da minha cabeça. No entanto, o gozo foi calmo e tranquilo. Pleno. Típico dos casais apaixonados, que fazem sexo para consagrar a paixão e não apenas por um pequeno/longo prazer momentâneo. Aquilo era lindo. Em suas minúcias mais doces e ardentes... Nesse dia nos amamos as vinte e quatro horas... Em outros cômodos da casa e na varanda...



Rafaela Valverde 


Casamento - Adélia Prado


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Olha que lindeza de poema!

Há mulheres que dizem:

Meu marido, se quiser pescar, pesque,

mas que limpe os peixes.

Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,

ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.

É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,

de vez em quando os cotovelos se esbarram,

ele fala coisas como "este foi difícil"

"prateou no ar dando rabanadas"

e faz o gesto com a mão.

O silêncio de quando nos vimos a primeira vez

atravessa a cozinha como um rio profundo.

Por fim, os peixes na travessa,

vamos dormir.

Coisas prateadas espocam:

somos noivo e noiva.





Rafaela Valverde

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Acostada

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Meio do dia
Sol a pino
Agonia
Desatino

Ando pelo acostamento
Carcaças de animais mortos
Exigem meu afastamento
Me transporto

Penso que não vou aguentar
Carros por todo lado
Veículos de transitar
Horizonte opaco

A estrada é longa
Trata-se de alguma bê-erre
Ainda mais para mim, songamonga
Por mais que a vida me aferre

Quero mais é voar
Comemorar uma tal liberdade
Que temia encontrar
Na tal raridade

Do luar!

Mas, o que penso enquanto esse acostamento me persegue?
Será que vou chegar?




Rafaela Valverde
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