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quinta-feira, 4 de maio de 2017

O que eu sei


Eu sei que trocamos juras de amor. Estávamos deitados de conchinha. Eram 4:26 de uma madrugada qualquer. Fazia frio. Quem raciocina no frio? E de madrugada? Ninguém. Eu sei também que aquelas juras podem não ter sido verdadeiras, a promessa de que estaríamos sempre juntos não vingou. Seguimos separados e eu sei que é assim que vamos ficar.

Eu sei que você não levou nada daquilo a sério. Depois daquelas madrugadas vieram outras, outras que ficávamos acordados fazendo planos para um futuro. Esse futuro hoje é tão distante e inexistente que eu nem sei porque perdemos tanto tempo assim falando nele. Talvez porque nos amássemos. Naquela época era tudo mais fácil, éramos muito jovens e ainda não tínhamos descoberto as maldades da vida adulta. Sabe, gente adulta estraga tudo. Complica tudo. Não gosto muito da adulta sem sonhos que me tornei hoje.

Não tenho sonhos, nem expectativas. Não imagino nós dois juntos. Eu apenas me aproveito de você para ter inspiração para escrever, porque meus leitores gostam. Por incrível que pareça, há pessoas que gostam das minha ladainhas. Mas eu não penso em nós dois tendo futuro. Eu só vejo nós dois separados mesmo, mas eu finjo que acredito pois isso rende textos, afinal de contas isso que eu sinto por você tem que servir para alguma coisa, não é?

Eu sei. Eu sei muitas coisas. Mas o que eu sei mesmo é que foi tudo da boca para fora. O que eu disse e o que você disse. Pois, afinal de contas, quando jurei te esperar até oitenta anos eu não imaginava que ia demorar tanto. E quando você disse que eu nunca mais iria chorar e que você estaria cuidando de mim para sempre era mentira. Não sei muito bem se uma mentira deliberada ou se você se enganou e se atrapalhou todo no meio do caminho.

Vai demorar. Está demorando. Isso eu já constatei há tempos. O que você acha? Que eu vou te esperar aqui mais dez, vinte, trinta anos?  Você acha mesmo que eu vou te esperar até quando não tiver mais nenhuma melanina em meu cabelo e quando meus ossos forem tomados pela osteoporose? Se você acha isso mesmo saiba que você está certo. Estou aqui esperando, o tempo que for necessário, no meu canto, sem expectativas e calada, só esperando minha hora, se ela chegar. Se não, paciência, mas eu estarei com meu dever cumprido. Estarei aqui, sempre aqui, incondicionalmente. Indo a festas, viajando, estudando, conhecendo outras pessoas de vez em quando; bebendo e fumando um cigarro, esperando o tempo passar lentamente.  Eu posso não saber tudo, mas sei que é o que eu quero e devo fazer, é esperar por você e cumprir aquelas promessas das 4:26 de uma madrugada qualquer.



Rafaela Valverde


quarta-feira, 3 de maio de 2017

Quando você está aqui


De repente tudo vira coisa de casal. De repente não quero mais ir ao cinema sozinha e percebo que você é aquela pessoa que  eu procurava para conversar sobre os filmes cabeça que eu tanto assisto. Um belo dia acordo sozinha na cama e te procuro do lado, deve ter sido reflexo do final de semana em que dormi com você.

As coisas que eu fazia sozinha antes, hoje ficam muito mais divertidas com você. Mesmo aquele disco triste do Legião Urbana que escuto quando estou triste para ficar mais triste ainda, fica melhor quando escuto com você. Porque você entende a minha necessidade de ouvir músicas tristes e também você é umas das poucas pessoas que conhece o disco e se deixou influenciar pelo meu gosto musical e hoje gosta tanto dele quanto eu.

Sobre cozinhar sozinha ouvindo uma música e bebendo vinho? Isso perdeu a graça também. Eu sempre quero ter você por perto. é incrível como preciso sempre compartilhar algo com você. Óbvio que tenho  meus momentos de estar sozinha. Quem não precisa ficar consigo mesmo às vezes? Mas a primeira pessoa que penso quando quero companhia é você.

Nos momentos em que preciso comemorar alguma nota boa, alguma pequena conquista é em você que eu penso. Ultimamente tudo virou coisa de casal: pretextos para te ver. Jantar à luz de velas, aquela música mais sensual. Imagino logo a gente na cama, se enroscando. Ah, seu beijo! Eu não preciso de mais nada, eu não preciso de mais ninguém. Minha felicidade se resume a minha plenitude como pessoa e se resume a você na minha vida. Se você estiver aqui tudo fica mais completo, a minha felicidade se torna mais realista.

Você e sua racionalidade trazem mais equilíbrio para minha loucura, especialmente para aquelas loucuras noturnas que impedem meu sono profundo de acontecer. Sou notívaga, você também é. Dormimos ao raiar do dia conversando, ouvindo aquelas músicas loucas do Youtube ou fazendo amor. E que amor! Que delícia de amor, o que a gente faz. Seu cheiro me enlouquece e sei que o meu também, meu cheiro fica no seu travesseiro de manhã, quando vou embora. 

Enfiados no edredom, nossa vida rende. Rende histórias, rende tudo que passamos e tudo o que ainda queremos passar e viver juntos. Nossa vida fica mais larga quando estamos juntos, mais forte. Somos bons em tudo. Tudo o que fazemos juntos dá certo, nossa parceria dá certo, sempre deu. Eu e você somos um. Não precisamos nos completar, mas nos suplementamos, somos melhores um com o outro. É assim que enxergo a gente. Quando estou sem sono observo as estrelas da minha sacada e imagino que estar ao seu lado é o que eu mais quero. A minha vida toda, até  envelhecer.

Saindo da varanda, olho para minha maior estrela dormindo em minha cama. Você respira calmamente e quase sorri. Sei que também está feliz. Sei que se sente todo bobo em relação a mim. Sei que me ama. E de repente sinto uma paz. Me enfio debaixo das cobertas e me enrosco em você. De repente tudo vira coisa de casal. De novo. E eu gosto disso.



Rafaela Valverde


quarta-feira, 5 de abril de 2017

O beijo na boca - Fabrício Carpinejar




Casais que não se beijam na boca estão se separando. Vão se tornando amigos, parentes, irmãos, até se esquecerem de caminhar de mãos dadas. Vão se apartando do cheiro da pele, do gosto do abraço, das provocações infantis de corredor, das pernas alisadas no fundo da coberta.

O beijo na boca é a autêntica aliança, o ouro que vinga, a certidão que não desbota. Só que me refiro ao beijo mesmo, de girar o corpo, o pescoço, o rosto. Selinho não conta, onde os lábios são uma carta para quem já está distante. Beijo seco também não vale, onde não há a ameaça de morder os lábios.

O beijo molhado é que une. Um beijo úmido por dia renova o amor. O beijo de quem tem saudade dos tempos apaixonados, um beijo que ainda sopre de volta os elogios ditos um para o outro. O beijo sussurrado, em que os sons tremem com as respirações próximas.

O beijo que não tenha a necessidade de ser pensado demais senão surge sem jeito, forçado, cinematográfico. O beijo que seja um segredo a dois, que você extravie o horário e suspenda a noção do lugar. O beijo que toque uma canção dentro, que desperte a vontade de dançar.

O beijo de língua não permite o vazio crescer, a lacuna, o lapso. Pois uma ausência dentro de casa ainda tem conserto, duas ausências não têm como recuperar – o par esqueceu o amor em algum lugar das lembranças e não correu para reaver.

O beijo de língua desfaz as formalidades, os medos e a educação que esfriam a relação. Beijo de língua é beijo para combater o tédio, a mecânica repetida dos gestos. Beijo de língua salva os desaforos, perdoa as críticas e as cobranças. É como uma janela batendo com a chegada da chuva, uma porta batendo com o vento. É um susto que põe o coração a bater de novo.

Nem o sexo resolve o que o beijo faz. A transa sem beijo é apenas desafogo, catarse, apego de bichos. O beijo com língua é o que nos singulariza entre os animais. Casais felizes sempre se buscam pela boca. É uma receita simples de longevidade. Sem o beijo, a pessoa tem a vontade de largar tudo e ficar sozinha. Com o beijo, ela não perde a vontade de largar tudo, mas com a diferença de querer levar junto aquele que ama.



Rafaela Valverde

sexta-feira, 24 de março de 2017

Então eu choro


A ansiedade me toma por completo. Tenho oitocentas atividades da faculdade para fazer, aulas para preparar e ainda assim passo o final de semana deitada vendo série. Procrastinando. Evitando as atividades que estão se tornando cada vez mais chatas, a medida em que o tempo passa.  Fico sofrendo porque tenho que fazer tantas coisas e ao mesmo tempo fico evitando fazê-las porque as acho chatas.

Nem me olho mais no espelho porque tenho medo de encarar minha olheiras. E quando finalmente tenho coragem de olhar, não olho meus olhos vermelhos. Vermelhos de tanto chorar. Às vezes ficam inchados também. Saio e lavo o rosto, mas não adianta nada e temo que as pessoas percebam. Minha mãe ainda ontem perguntou o porquê desses olhos inchados, se eu estava chorando.

Sabe, é preciso chorar. ás vezes as lágrimas vêm  de forma automática. Densas, chegam a pesar no rosto. Não posso evitá-las. Só enxugo, mas elas caem minutos depois. Sempre voltam a cair, me deixando preocupada  e ainda com mais vontade de chorar. Daí no outro dia acordo me sentindo seca, como se tudo tivesse sido vertido junto com as lágrimas. Tudo que havia de alegre em mim escorreu pelo meu rosto até o chão e morreu.

Mas no dia seguinte preciso reagir e acordar como se nada tivesse acontecido. Preciso viver a vida que Deus me deu. Mas por quê? Por que mesmo que Deus me concedeu a vida? Ela é tão sem sentido, aleatória e injusta e a gente ainda tem que sentir grata. É piada? Parece que sim. Fico pensando em quantas formas existem de se matar. Fico pensando em morrer todos os dias que abro os olhos e percebo que estou viva, ainda. A ansiedade me corrói, me come por dentro, então me sinto oca, vazia. Continuo procrastinando o que acho chato e adiantando o que me oferece um momentâneo e ilusório prazer.


Rafaela Valverde


quinta-feira, 16 de março de 2017

Uma manhã


A minha imagem no espelho era deprimente. Olhos inchados e vermelhos, minhas olheiras quase iam até o queixo e  me sentia um caco humano. Meu cabelo estava uma bosta. Não sei como as maioria das mulheres conseguem ser mulheres, administrar tanta coisa, ainda ter cabelo e cuidar dele. Fiquei por uma fração de segundo ali olhando para minha imagem aterrorizante, mas me lembrei que tinha que trabalhar. Ainda era meio da semana e eu com cara de ressaca. O banho foi frio e rápido, como sempre. Eu vivia de saco cheio de tudo, até um banho demorado enchia me irritava. Uma xícara fumegante de café me esperava no balcão. Minha mãe era a única pessoa legal desse mundo. Levei a xícara para o quarto, enquanto tentava entender o que meu cabelo queria de mim.

Peguei a primeira camiseta que vi na minha frente e uma calça jeans. A camisa era rosa. Bom, alguma coisa diferente do meu estado de espírito sombrio, né? A minha apatia estava refletida em tudo que se relacionava a mim. Meu quarto era uma bagunça ridícula e eu sentia dor de cabeça, me lembrei ao olhar ao redor. Tomei umas aspirinas, calcei meu all star e saí de casa. Na rua, as pessoas estavam tão felizes. Não entendo o porquê de as pessoas sempre estarem sorrindo. Tudo é uma porcaria. Não consigo mais ficar satisfeita com algumas coisas. Minha vizinha lava calçada, enquanto escuta sertanejo. Por que alguém lava calçada, gente? A chuva não é para fazer isso? Não entendo isso, as pessoas se comprometem além do que é necessário para fazer coisas desnecessárias.

Continuei andando para chegar ao ponto de ônibus, eu estava atrasada. Já eram quase nove horas. Mas que se dane, eu quero me livrar de tudo e espero que esse emprego voe pelos ares. A minha infelicidade maior é estar trabalhando em um lugar que odeio em uma área que não é a minha só porque paga mais e eu preciso manter a casa. O que minha mãe ganha não dá para muita coisa e ainda tem o tratamento do meu irmão, Vinícius. Ele tem câncer. Todas essas coisas me deixam infeliz. A minha área é muito mal remunerada e valorizada, então minha mãe conseguiu esse emprego na assessoria de um vereador na época da eleição há dois anos. Ganho muito bem, mas odeio trabalhar pra ele. Odeio esse ambiente de política. Odeio a minha vida!

Meu ônibus já saía quando eu cheguei no ponto e não consegui pegá-lo. Praguejei, xinguei a mãe do motorista e toda a sua próxima geração. Eu odeio andar de ônibus. Bem, mais uma coisa para a minha lista de ódios. Respirei fundo e sentei no banquinho do ponto, teria que aguardar o próximo ônibus que chegaria sabe-lá-Deus-quando. Observei as pessoas: todas fingindo felicidade como sempre. Uma mocinha falava ao celular toda derretida com o namorado. As pessoas são patéticas.

Adiante, em frente ao ponto de ônibus, um dos shoppings mais imponentes da cidade. Um lampejo de ideia passou em minha cabeça e eu segui rapidamente seu impulso. Atravessei a rua e ao entrar no shopping entrei no salão de beleza que estava ali, não sei desde quando, na estrada do shopping. Na verdade, eu só havia entrado nesse shopping umas três ou quatro vezes. Adivinhem? Eu também odeio shoppings.

Como era de se esperar e devido ao horário o salão ainda estava vazio. "Quero cortar o cabelo!" A moça olhou para mim confusa. Ela deve ter imaginado que era muito cabelo. E era mesmo. "Curtinho, igual ao da Sandra Anemberg, aquela da globo" Sentei na cadeira e fiquei girando que nem criança. Começou o corte. Cada tufo daquele cabelo horroroso que caía eu me sentia mais leve, mais aliviada, não feliz, mas pela primeira vez em anos eu fazia o que realmente queria e seguia um impulso.

Cerca de meia hora depois o corte era finalizado e eu parecia outra pessoa. Era um corte moderno, repicado. E eu parecia mais jovem. Não bonita, jovem. Esbocei um sorriso, enquanto virava a cabeça de um lado para o outro. Paguei e saí saltitante. Outra ideia era gestada em minha mente.  Peguei um táxi. Que se fodam os ônibus, hoje vou esbanjar. O trânsito estava caótico aquele horário, mas o taxista estava ouvindo rádio e eu estava cantando as músicas. Nunca tinha tido esse comportamento feliz. De repente as coisas mudaram um pouco e fui tomada por uma coragem inesperada. Tinha que tomar decisões na minha vida, o que eu não podia mais era acordar daquele jeito todas as manhãs.

Em um um momento, calei a boca, fechei os olhos e recostei a cabeça no assento do carro, pensei em todas possibilidades e consequências. Quando abri os olhos já estava na frente da câmara de vereadores. Paguei e entrei rapidamente. Sem mais titubeios. Fui até minha sala e através do nosso serviço de comunicação pedi para falar com meu chefe ainda naquela manhã. Ele me recebeu uma hora depois, elogiou meu cabelo e se mostrou surpreso quando eu pedi demissão. "Mas por quê?" "Não quero mais trabalhar aqui, pra você. Tenho alguns projetos que pretendo realizar."  Disse que estava chateado mas não havia o que fazer. Depois de um tempo, saí da câmara. Pra sempre!

Voltei pra casa, de ônibus claro. Assim que entrei em casa, liguei para meu pai: "A partir de hoje você vai arcar com o tratamento de Vini. É seu filho e eu não vou ganhar mais como antes. Saí de lá." Ele estranhou minha atitude e disse que minha mãe não queria ajuda dele. "Ela não tem que querer nada. Não vou mais me sacrificar por que ela não quer que você faça sua obrigação!" Desliguei e fui para o quarto. Bagunça miserável. Comecei pelas roupas espalhadas pelo chão.  E em meio aquela bagunça decidi que bagunça não seria mais uma constante na vida. Com meus originais em mãos, liguei para algumas editoras que uma amiga havia me indicado há dois anos. Vou publicar meus livros. Agora o ano começou. E eu sou outra pessoa.



Rafaela Valverde






quinta-feira, 2 de março de 2017

Solteirice


Estou solteira novamente. E nunca estive tão aliviada por isso. Relacionamento é complicado. E eu não quero complicações pois minha vida já é por demais caótica. Para estar em um relacionamento é preciso vontade, precisa querer. Eu, quando estou, estou mesmo. E agora vou dar um tempo, um longo tempo sozinha, aproveitando minha vida. Vou virar solteira convicta.

Sou jovem bonita, independente e não preciso de ninguém para ser feliz. Já nasci feliz! Ninguém precisa me completar também, o que eu gosto mesmo é de companhia, mas isso eu vou buscar em mim mesma, nos meus amigos e nos contatinhos hehehehe.

Viajei sozinha e passei quatro dias na ilha pensando na minha vida, na minha vida amorosa. E percebi que eu não quero mais ter uma vida amorosa. Eu já tive. E não dá mais. Não só de sentimentos e relacionamentos vive a gente não é mesmo? No último dia de carnaval fui curtir minha festa, na boa, na tranquilidade e muito bem acompanhada. 

Não preciso estar onde não sou bem vinda, não preciso estar com quem não quer estar comigo. Eu não preciso de nada disso. Eu só preciso de mim mesma, de minha família e amigos. A vida é tão maravilhosa e eu estou aqui para celebrá-la todos os dias! Viva la vida! Vila la solteirice!



Rafaela Valverde

Pensamentos de carnaval

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Pensamentos inúteis moram em minha cabeça. É um feriadão, carnaval e todos estão pulando pelas ruas, felizes. Eu estou feliz também, sozinha na casa de veraneio. São tantos pensamentos que a casa de dois andares  fica pequena para mim.

Sim, eu vim para cá sozinha. Chamei algumas pessoas para vir, mas elas estão ocupadas demais com os blocos passando nas ruas e com a falta generalizada de dinheiro para virem para o que eu chamo de "meu paraíso."

Até gosto de carnaval, apesar de achá-lo cansativo e repetitivo às vezes. Mas sou uma bixa festeira, apesar de quase sempre minha vida financeira se esquecer disso. Gosto da folia, mas estava muito estressada e aproveitei esse recesso da UFBA para relaxar. Preciso descansar e não ficar estafada correndo atrás de trio. Além de descanso e relaxamento, precisava pensar. E tanto pensei que esses pensamentos grudaram em minha mente como se fossem cola.

Coisas estão acontecendo nesse momento em minha vida que me fazem pensar em quanto posso ser uma pessoa desinteressante, imprestável, trouxa... Não é possível que mesmo quando eu acho que estou fazendo a coisa certa eu estou fazendo errado! Tenho a sensação que sempre estou errada.

Senti pensamentos como esses me atingirem e entre um banho de mar e outro decidi que precisava escrever. E cá estou eu, botando para fora um pouco do que estou sentindo. Mas também, é só a ponta do iceberg. Não posso escrever tudo, ainda mais porque sei que é um texto que será lido.

Eu devo mesmo ser um saco. Percebo que as pessoas não me suportam e se afastam. Ou talvez não tenham paciência, ou ainda não aguentam quem eu sou. Sou complexa e não costumo mudar por senhor ninguém!

Mas, o fato é que mais uma vez eu me sinto sozinha. Eu estou sozinha. Entendam que há solidão e solidão. Estou na ilha sozinha por opção. Mas eu não me sinto só e desamparada por opção e sim porque sou eu demais e pouca gente consegue compreender isso. Muito pouca gente mesmo.

E no entanto, me sinto bastante satisfeita com a pessoa que me tornei e não vou mudar. Na verdade, já mudei bastante, para melhor e porque eu quis. Eu era grossa, intolerante, controladora... Era o que nenhuma pessoa deve ser. E ainda assim há pessoas que conseguem me tratar, mesmo eu mudada, de uma forma que eu nunca era tratada antes de mudar. Pessoas são pessoas, com defeitos e qualidades, com jeitos diferentes de ser e de lidar com outras pessoas. Mas eu não admito, eu não suporto que me tratem com indiferença. É a coisa que mais odeio. A pessoa pode ser rude, grosseira, mas não indiferente, porque eu me afasto e afasto totalmente.

O mais engraçado de tudo é que a gente sempre acha que as pessoas tratam a gente mal porque merecemos ou que a culpa é nossa. Eu pelo menos, fico me sentindo assim e sei que não deveria pois não tenho culpa da babaquice dos outros. Mas ainda assim, fico o dia todo buscando coisas terríveis que eu possa ter feito ou falado. Fico também querendo saber se sou tão miserável a ponto de afastar as pessoas. Busco algo  que justifique tanto abandono. Mas não adianta. Pura perda de tempo. Quando a pessoa quer ir ela simplesmente vai e não há nada que possa detê-la. Mesmo que as farras e a vida vazia pelas quais ela te trocou não valendo a pena e ela sabendo disso, ela vai. A pessoa sempre vai, só cabe a mim deixar. Eu deixo. Vá com Deus, amém!





Rafaela Valverde

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Carnaval 2017


Já é carnaval! Bom, aqui em Salvador já é carnaval desde domingo hahaha. Êta cidade que tem festa. Parece que todos os nossos problemas estão resolvidos. Nosso transporte público é maravilhoso, nassas ruas limpas, a educação e a saúde são as melhores do mundo. Está tudo resolvido, vamos pular e nos divertir! 

Não que eu não goste do carnaval. Até gosto e já curti bastante na infância e pré- adolescência, mas eu acho que o carnaval tem muita gente, ou seja muita violência. A violência só aumentou ao longo dos anos e eu sinceramente não estou afim de ser assaltada, nem apanhar da polícia. Porque eles batem mesmo em quer que esteja passando, não estão nem aí. Prefiro me preservar. Em 2015 retornei ao carnaval depois de dez anos sei ir e achei meio sem graça, o mais do mesmo. Não sei como as pessoas vão todos anos pular nas mesmas ruas, dançar as mesmas músicas - sem coreografia - e ver os mesmos artistas que usam as mesmas roupas todos os anos.

Há outras questões, sobretudo sociais que me afastam do carnaval, mas não vou falar sobre elas agora, pois dão muito pano para manga. Definitivamente não estou afim de problematizar nada hoje não. Só estou aqui discorrendo sobre alguns aspectos do carnaval. Hoje (ou não sei se é só hoje) parece que há uma discriminação velada com quem não vai ao carnaval, ou quem não gosta. Parece ainda que existe uma obrigação de se gostar da folia. Quem não gosta ou não vai vira um ET. Mas eu não ligo, não problematizo, não falo nada. Apenas falo: gosto mas não vou. É meu direito, pronto!

E quem for espero que vá em paz. Sem intenção de brigar ou perturbar. Porque tem umas pessoas que parecem que saem de casa com o cão no corpo para brigar. Aff! É isso. Quem sabe no ano que vem eu vá? Estou buscando coisas novas no carnaval, mas não tenho muita certeza se é possível. Todo ano é a mesma coisa. Enquanto isso vou descansar e aproveitar esses dias sem UFBA. XAU!


Rafaela Valverde

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Crônica do tráfego livre que é a vida


Anteontem estava caminhando distraída quando de repente me dei conta da fila de carros que estavam estacionados ali na minha rua. Notei que ao longo do tempo essa fila aumentara. Todo dia está mais entulhado isso aqui. E há de intrigar saber que todos esses carros parados aqui vieram das ruas da cidade, muitas vezes nos mesmos horários, causando muitos engarrafamentos e transtornos. Esbarrei em um daqueles espelhos retrovisores e soltei um palavrão. Continuei meu trajeto, tinha que almoçar com um amigo que não via há uns meses.

Almoçamos e conversamos sobre diversos assuntos, inclusive sobre os carros, sobre os engarrafamentos, quais seriam as soluções e o porquê de as pessoas terem carros. Muitos carros ocupam as grandes cidades atualmente. Meu amigo que era tão polêmico quanto eu, disse que todo mundo tinha direito de progredir e ter seus carros, etc. Eu achei aquele pensamento meio limitado, mas nada comentei, fiquei ali parada comendo minha massa.

O restaurante já estava vazio aquela hora, já eram quase quinze horas e nosso almoço tinha se estendido além do que eu havia imaginado e eu estava um pouco alta com tanto vinho branco. Meu amigo não bebeu, tinha que dirigir. Engraçado como a vida de algumas pessoas giram em torno de um carro e dessa cultura da direção. Eu não. Ia era de metrô mesmo, eu preferia ser feliz e tomar meu vinho, do que me limitar com questões tão estúpidas como essa. A glória da vida está nos pequenos momentos de prazer.

Após um tempo saímos e fomos até o estacionamento do restaurante, meu amigo me daria uma carona até a estação do metrô. Entramos no carro e ele arrancou dirigindo por uma pequena ruazinha ao lado do restaurante. Mas essa fluidez não durou muito. Logo desembocamos em uma das avenidas principais da cidade e o trânsito estava praticamente parado. Meu amigo logo fez aquela cara de resignação que eu detesto e largou o volante.

Olhei para ele sem acreditar, respirei fundo umas três vezes, soltei o cinto de segurança, abri a porta e simplesmente saí do carro. Falando um: "valeu mesmo, mas vou de metrô, cara!" através da janela. Eu não tenho paciência com isso, eu não sei lidar com essa perda de tempo no trânsito e eu não gosto de me sentir impotente e presa.

Atravessei entre os carros, fui para o outro lado da rua e passei a andar no sentido contrário em direção à estação do metrô. Comecei a pensar no tamanho da ironia que era aquilo tudo, já que eu pensei nos carros e conversamos sobre carros. Ele defendeu essa vida movida a gasolina e eu defendi o direito de usar minhas pernas para andar e os transportes coletivos que existem na cidade. Por que ser livre não é ter carro, ser livre é ir para onde eu quiser a hora que eu quiser, sem nenhum engarrafamento no meio do caminho.




Rafaela Valverde

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Um sonho


Tomei um banho, lavei o cabelo, vesti uma camisa qualquer de time e uma bermuda jeans surrada que era masculina e não era minha, mas estava aqui no meu apartamento. Alguém deve ter deixado ela aí. Não sei, esse apartamento é mesmo uma bagunça. Assim como a dona dele. Não tem como ser mais distraída, bagunceira e preguiçosa do que eu. 

A diarista estava doente essa semana e eu não estava com vontade de arrumar nada e assim a coisa toda foi se acumulando. A louça está na pia há dois dias e eu não tenho vontade de limpar nada. Saí com a minha camisa de time e bermuda masculina, desci para o estacionamento bocejando. Lembrei que passei quase a noite toda na frente do computador trabalhando em um projeto. Cliente exigente e muito dinheiro na parada. A única forma de me fazer deixar de dormir.

Entrei no carro já ajustando a cadeira. Quando emprestava o carro ao George, meu irmão, ele devolvia essa porra assim. O carro todo sujo, ai ai. Eu não gosto do meu carro bagunçado não. Enquanto meu apartamento é aquele nojo. Dizem que isso é uma coisa de homem, então eu devo ser homem. Meu carro tem que estar em ordem. Limpei a bagunça e levei o pequeno saco de lixo até uma lixeira que havia ali.

Entrei no carro e liguei a ignição. Saindo do estacionamento percebi que estava tudo meio diferente. Estava tudo vazio demais e minha rua é bastante movimentada. Havia grama bem verde por todos os lados. Verde abacate, eu odeio essa cor. Mas enfim, fazer o que? Tive que continuar meu trajeto. De repente vi algumas pessoas. Elas andavam bem devagar, sem pressa. Se vestiam de um jeito engraçado. Com uma espécie de capa de pelo animal. As cores mudavam de uma pessoa para outra.

Algumas daquelas pessoas carregavam um ou dois livros e sorriam enquanto caminhavam calmamente. Elas não tinham pressa. Parece que eu estava num lugar onde não existia pressa. Comecei a sentir uma curiosidade, uma euforia. Eram sentimentos bastante diferentes do que eu estava acostumada e eu continuava dirigindo para chegar não sei onde. 

De repente comecei a sentir carícias invisíveis pelo corpo, pelas pernas principalmente. Era bom, não queria que parasse. Tirei as mãos do volante, mesmo sabendo que aquilo era perigoso. Abri o zíper e comecei a me tocar de leve. Há um tempo que não fazia isso. Eu nem achava que ainda tinha algo parecido com tesão em mim. As carícias continuavam e eu também.  Aumentei o ritimo. As pessoas esquisitas sorriam para mim e eu também era uma esquisita agora. Ouvi um grito alto saindo da minha garganta. E gemia. Gemia alto mesmo sem perceber e sem controlar.

Me assustei e acordei sobressaltada dentro do carro parado no estacionamento do prédio. Estava molhada de suor. Não sabia quanto tempo havia se passado. Só sei que eu havia gozado, sonhando, dentro de um carro, no estacionamento do meu prédio. Eu flutuei, eu estive fora de mim. E isso foi maravilhoso. Perder o controle às vezes é bom. Ainda estava excitada e toda molhada. Nem lembrava que era possível fazer isso sozinha. Pelo menos não desse jeito. Uau que delícia.  Tranquei o carro e subi para tomar banho de novo.



Rafaela Valverde

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Aquele pôr do sol


Eu estava naquele fim de tarde sentada num banco de uma praça qualquer tomando água de coco, uma das vantagens de morar em cidade praieira é que o que as pessoas normais fazem só nas férias a gente pode fazer o ano todo. Um simples passeio pode se transformar numa tarde reflexiva de pôr do sol com uma fresca água de coco ajudando a processar as coisas.

Então, eu estava sentada naquele dia e pensava em coisas banais, nada de mais. Mas eu precisava daquele momento de calmaria em uma semana que estava sendo desastrosa. O fim de um relacionamento, a morte do meu cachorro, TCC para entregar, gastrite atacada. Um inferno! Eu só estava lá tentando entender porque algumas coisas acontecem comigo. No mesmo momento. Eu fico atolada, cheia de coisas para pensar. Uma falta de paz!

Por isso aprendi a tirar do meu dia um momentinho de paz. Um pequeno momento que limpa a minha mente de todos os estresses do dia a dia. Eu estava triste naquele dia. Eu estava mais triste pela morte do meu cachorro do que pelo atraso do meu TCC. Aquele cachorro sim me amava. Ele ficava ao meu lado mesmo quando eu era chata. O que significa quase sempre. Moro sozinha naquele apartamento odioso e agora estou sem meu cachorro!

Até hoje eu ainda penso nesse dia, até hoje penso no meu cachorro e em como ele foi importante para mim quando me mudei para cá. Mas é o ciclo da vida, todos nós vamos passar pela morte. Por mais clichê que possa parecer essa frase, e é, ela é a mais pura verdade. Foi naquele dia que eu tomei a decisão de mudar.

Sentada ali naquele banquinho em uma praça qualquer. Bem, era qualquer mas dava para ver um lindo pôr do sol, o que já é uma grande vantagem. E foi ali, naquele pôr do sol, eu até me lembro a data quer que eu diga? Foi nesse dia que eu decidi pelo menos tentar não me oprimir com tantas coisas que vinham ao mesmo tempo, afinal, elas não iriam deixar de acontecer. Eu teria que aprender a ser forte o suficiente para lidar com tudo.

Nossa, ser adulto é um porre. Eu odeio ser adulta. Quando eu era criança, minha mãe resolvia tudo e eu só ficava lá perguntando por que ela se estressava tanto. Eu era igual ao Pequeno Príncipe, que não entendia as pessoas grandes. Gente grande é mesmo muito bizarra, e eu sou gente grande agora. Eu sou bizarra, minha vida é um circo de horrores e eu ainda tinha que saber lidar. Quanta audácia da vida!

Sim, naquele dia eu cresci uns poucos anos sentada naquele banco. Quando o sol se pôs, levantei e andei com meu coco ainda uns cinco metros até encontrar uma lixeira e saí, saí daquela praça de cabeça erguida, me senti um pouco melhor comigo mesma.


Rafaela Valverde

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Odeio shopping!


Eu odeio shoppings. Aqueles corredores labirintosos intermináveis. Não sei quem inventou que shopping é coisa de mulher, ou que mulher adora ir ao shopping. Eu tenho mais o que fazer do que ficar andando para lá e para cá dentro de shopping. Dia desse me perdi naqueles corredores para depois descobrir que eu estava bem perto de onde queria ir e andando só fiz me afastar ao invés de chegar.

É claro que eu vou ao shopping. Eu não posso ser hipócrita e dizer que: "nossa, eu sou uma natureba reclusa que se recusa a ir ao shopping." Não, não é a  minha pretensão. E não, eu não sou natureba e nem reclusa. O que quero dizer é que eu e os shoppings não combinamos muito bem. As pessoas ultimamente parecem que andam em um transe, um tipo de "zumibilização" retardante e andam devagar. Muito devagar.  Especialmente dentro do shopping, até porque eles foram construídos para isso mesmo, para que as pessoas pudessem andar devagar e ver as vitrines. As pessoas desfilam, param bem no meio dos corredores e andam com a cabeça baixa enterrada no celular. É uma das coisas que mais me irritam em um shopping, especialmente em datas como a que se aproxima que é a época de final de ano.

Não vou negar que shopping é prático e razoavelmente seguro. Pelo menos comparado com as ruas é mais seguro. Mas  só vou fazer esse tour de mau gosto em casos de extrema necessidade. Pagar contas, sacar dinheiro, usar o banheiro, curtir o cinema ou praça de alimentação são coisas que geralmente eu faço em um shopping. Mas não muito, não sempre. Quase nunca aos domingos. Eu acho que só fui ao shopping aos domingos umas quatro vezes na vida. 

Eu não gosto de muita gente falando, andando e sorrindo ao mesmo tempo. Parece uma vila feliz.Vila dos mentirosos. Vila dos compradores. A vila que sustenta o capitalismo. óbvio que o capitalismo é o sistema em que todos nós vivemos e ao qual não estamos dispostos a abrir mão. Mas shopping é um dos seus símbolos e irritante. 

No shopping você pode ser observado e observar. No shopping você não está sozinho e ao mesmo tempo é tão solitário. No shopping é possível encontrar pessoas, falta de educação, ladrões (sim!), frustração por não conseguir comprar tudo o que se quer. Mas também no shopping é possível encontrar boa comida, confraternização, filmes e livros, conforto e banheiros limpos.

Mas ainda assim eu odeio shopping.


Rafaela Valverde

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

No espelho


Eu não era como as outras meninas. Eu acho que nunca fui. Eu me olhava no espelho e via uma menina de óculos e espinhas, uma cicatriz ao lado do olho. Tomei dois pontos. Uma queda na escola. Além de ser a esquisita, eu era a esquisita que vivia correndo e batendo em todo mundo. Eu ficava olhando enquanto minhas amigas adolescentes namoravam.

Eu não beijei ninguém até os treze anos, e olhe que isso era bem tarde, já naquela época. Eu não sabia de muita coisa da vida e até hoje eu não sei. E esse espelho não me diz nada, não esclarece nada. Há uma névoa pairando sobre a minha cabeça. Eu sou uma mulher sombria, eu fui uma adolescente sombria.

Há coisas que eu guardei só para mim e só pouquíssimas pessoas sabem. Eu gosto do que vejo hoje no espelho. É melhor do que o que eu via há alguns anos. Minha aparência havia melhorado, mas eu estava ainda ferida pelo tempo, pela vida, por tudo. Eu sabia que precisava cicatrizar. Mas bem lá no fundo  havia ainda em mim marcas da passado que não se tratariam. Não sarariam jamais.

Bem, eu continuo esquisita, é o que eu quero dizer. A minha esquisitice nada tem a ver com a a aparência. É a conclusão que chego. Escuto vozes que vem de mim mesma e não as compreendo. Eu sou a mocinha mais vilã, eu sou a mulher com cara de bruxa, eu sou a ovelha negra, eu sou a caladona com um livro na mão. É o que eu sou, é quem eu sou. Ambígua, paradoxal, complexa, inquieta. Sim, eu não sou como as outras meninas.


Rafaela Valverde

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

O jardim e o quintal - Fabrício Carpinejar


Não basta ser fiel, tem que ser leal para dar certo.

Foi o que a minha namorada me disse.

A lealdade é tão importante quanto à fidelidade.

A lealdade é o pensamento da fidelidade. A fidelidade é a ação da lealdade.

A lealdade é a amizade do amor. A fidelidade é o respeito do amor.

Há casais que são fieis entre si, mas não são leais, e se distanciam um do outro.

Há casais que nunca se traem, mas tampouco se apresentam: vivem pulando a cerca nos gestos.

Podem, aparentemente, conviver em harmonia, só que não expressam o que sentem, não descrevem suas frustrações, conservam uma fachada até a relação estourar. Cuidam do jardim da residência, descuidam do quintal.

Não cooperam com o entendimento, não são didáticos, colocam a sujeira debaixo da cama, deixam os atritos passar sem mediação.

Parece que estão alinhados, porém apenas não estão conversando.

Não respondem onde andam com a cabeça, o que querem de verdade.

Na separação, descobrirão que não se conhecem, pois jamais descreveram suas emoções mais básicas, sequer revelaram o ciúme e o descontentamento no momento da eclosão.

Lealdade é esclarecer as dificuldades e as rusgas. É uma exposição gradual das diferenças que geram as semelhanças.

Fidelidade é uma vontade do casal diante dos demais, lealdade é mostrar a vontade de cada um no decorrer do tempo.

Fidelidade é cumplicidade, lealdade é intimidade.

Fidelidade é um posicionamento público, lealdade é a vida privada.

Fidelidade é projeção, lealdade reflete aquilo que você é para si. Se contraria seu sonho com o casamento ou o namoro, está sendo desleal, mesmo que seja fiel.

Fidelidade é um passo externo, lealdade é um passo interno.

Fidelidade é honrar o compromisso perante o trabalho e os amigos, lealdade é honrar o compromisso em casa.

Lealdade é expor o que se está pensando, o que se procura, não omitir suas intenções, manter sua companhia atualizada de seus problemas e de suas soluções.

Fidelidade é proteger o relacionamento, lealdade é não esconder o que está acontecendo dentro do relacionamento.

Sem lealdade, o amor cansa, o amor estanca, o amor não cresce.

A deslealdade separa mais do que a infidelidade.

A deslealdade é se trair por dentro.




Rafaela Valverde


sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Avec Elegance - Martha Medeiros

Gente eu amo Martha Medeiros!






Hoje a maioria das pessoas que têm acesso à informação sabe que é peruíce usar uma blusa de paetês às duas da tarde e que é deselegante comparecer a um casamento sem gravata. Costanza Pascolato, Gloria Kalil e Claudia Matarazzo são alguns dos jornalistas especializados em ajudar os outros a não cometerem gafes na hora de se vestir ou de se portar à mesa. Mas existe uma coisa difícil de ser ensinada e que, talvez por isso, esteja cada vez mais rara: a elegância do comportamento.

É um dom que vai muito além do uso correto dos talheres e que abrange bem mais do que dizer um simples obrigado diante de uma gentileza. É a elegância que nos acompanha da primeira hora da manhã até a hora de dormir e que se manifesta nas situações mais prosaicas, quando não há festa alguma nem fotógrafos por perto. É uma elegância desobrigada.

É possível detectá-la nas pessoas que elogiam mais do que criticam. Nas pessoas que escutam mais do que falam. E quando falam, passam longe da fofoca, das pequenas maldades ampliadas no boca a boca.

É possível detectá-la nas pessoas que não usam um tom superior de voz ao se dirigir à empregadas domésticas, garçons ou frentistas. Nas pessoas que evitam assuntos constrangedores porque não sentem prazer em humilhar os outros. É possível detectá-la em pessoas pontuais.

Elegante é quem demonstra interesse por assuntos que desconhece, é quem dá um presente sem data de aniversário por perto, é quem cumpre o que promete e, ao receber uma ligação, não recomenda à secretária que pergunte antes quem está falando e só depois manda dizer se está ou não está.

Oferecer flores é sempre elegante. É elegante não ficar espaçoso demais. É elegante não mudar seu estilo apenas para se adaptar ao de outro. É muito elegante não falar de dinheiro em bate-papos informais. É elegante retribuir carinho e solidariedade.

Sobrenome, jóias e nariz empinado não substituem a elegância do gesto. Não há livro que ensine alguém a ter uma visão generosa do mundo, a estar nele de uma forma não arrogante. Pode-se tentar capturar esta delicadeza natural através da observação, mas tentar imitá-la é improdutivo.


A saída é desenvolver em si mesmo a arte de conviver, que independe de status social: é só pedir licencinha para o nosso lado brucutu, que acha que “com amigo não tem que ter estas frescuras”. Se os amigos não merecem uma certa cordialidade, os inimigos é que não irão um dia desfrutá-la. Educação enferruja por falta de uso. E, detalhe: não é frescura.







Rafaela Valverde

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Me desprendendo ao som dos pássaros

Biblioteca Central da UFBA - Ondina
Quando eu saio dos prendedores de concreto da UFBA e ando ao ar livre fico cega com a claridade natural, a luz do dia - e não a luz seca das lâmpadas fluorescentes. Fico meio surda com o canto dos pássaros. Sim, lá tem pássaros. E sim, é possível sentir paz na UFBA. Me desprendo quando vou ao ar livre. Saio da dureza do prédio com ar condicionado e cores cinzas.

Mesmo cega, consigo dançar ao som dos pássaros. Não estou tão surda assim, consigo enxergar a beleza da cena e escuto muito bem a melodia. É um momento curto até o novo concreto: a biblioteca. Assim, preciso aproveitar a música. São cantos diferentes, de pássaros diferentes. Mas os cantos combinam, as músicas se casam. Assim como eu e esse ar livre. Um ar não viciado pelo mofo e pelo condicionamento artificial.

Me sinto mais relaxada e até levanto o rosto para sentir o calor do mormaço e a luz na cara, mas ainda assim, não tem jeito, acontece o que eu temia, acabou minha alegria. Cheguei na biblioteca, outro prendedor, mais concreto, mais cinza, mais artificialidade. Estamos fadados a viver em prendedores. A viver em prédios sufocantes. Estamos condenados a perder o canto dos pássaros.

Mas eu, faço questão de aproveitar esses pequenos momentos de transição entre um prédio e outro. Isso é felicidade, isso relaxa. Esses são os momentos de banho de sol em plena cadeia de detenção média em que vivemos.


Rafaela Valverde

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Espelho de farmácia


Eu estava me sentindo mal e desci para comprar um remédio para náuseas - não sei como chama - tudo agora tem nome específico, até remédio. Que porre. A farmácia ficava na esquina, a poucos metros de casa. A luz do sol estava me incomodando por isso lembrei de pegar os óculos de sol, o que nunca faço. Aliás o dia estava lindo: céu azul praticamente sem nuvens, constatei assim que fechei o portão do edifício antigo onde me escondia há seis anos.

Um belo domingo de sol e eu de ressaca, que ótimo. Acelerei o passo e em poucos minutos cheguei à farmácia que estava vazia, já que ainda era cedo e todos os meus vizinhos deviam estar na cama, dormindo ou não, e preparando seus festivos e barulhentos almoços de domingo. Comprei o remédio "antiseiláoquê" e me olhei num espelho enorme que havia na parede da farmácia. De quem é essa ideia idiota de pendurar espelhos em farmácia? É para olharmos a nossa aparência quando estivermos em fase terminal?

Continuei ali me refletindo no espelho, olhando minha cara de bêbada quando vi de repente o rosto de uma velhinha pelo espelho. Ela me olhava e sorria mas não mostrava os dentes. Ela era bem velhinha e tinha o cabelo todo branquinho. Ela vestia um casaco vinho grosso de lã e uma calça preta, além de sapatos. Estranhei os trajes em um calor terrível daquele, mas logo encontrei o que poderia ser motivo: havia um tubo em seu nariz descendo pelo pescoço e enfiado por dentro do casaco. Fiquei sem graça e me virei para ela.

Ela estava com uma pequena sacola na mão com o que parecia ser um único remédio. E ficou parada ali até dizer que não era para e continuar sendo sozinha para não ficar como ela, tendo que ir à farmácia no domingo de manhã para comprar um remédio contra prisão de ventre. (Sim, ela disse isso!) Olhei para ela interrogativamente e ela apontou para meu rosto, me virei rapidamente e olhei minhas olheiras. Eu estava desde a quinta feira na farra. A minha cara estava uma desgraça.

"Cara de quem é sozinha, minha filha. E de quem se sente sozinha." Ela deu um sorriso e foi caminhando devagar, quase se arrastando para a saída da farmácia. E eu fiquei lá, estatelada, pensando na vida. Sim, literalmente pensando na vida. Não tinha vó sozinha e doente para me dar esse tipo de conselho, uma delas eu nem conheci e a outra é casada há cinquenta e cinco anos com meu avô. Suspirei e saí ainda avistando a velhinha andando devagar. Queria ajudá-la mas eu estava enjoada e ia para o lado oposto. Simplesmente continuei andando. Cheguei ao meu prédio, abri o portão e subi pensando em tudo que tinha que preparar para o dia seguinte, para uma amarga e solitária segunda feira de verão.




Rafaela Valverde

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Trânsitos cotidianos de vida

Resultado de imagem para pensando no ônibus
Imagem da internet
Estou no ônibus mergulhada em pensamentos, são seis e trinta da manhã e o trânsito já está caótico em Salvador. Estou passando pelo Dique do Tororó. Observo aquele mundaréu de água verde e tento imaginar se é muito fundo e o que pode ter naquele fundo. Tento entender o que há no fundo da minha alma também. Daí desisto já que não terei êxito e decido acompanhar o fluxo pesado do trânsito.

Um homem atravessa a via correndo e eu fico pensando em como ele é maluco, "será que não tem medo de ser atropelado?" Com isso entro em mais devaneios, divago sobre o ambiente, sobre como deveria ser aquela área no século passado e fico tentando imaginar a vida das pessoas que ali estão se exercitando.

Eu viajo dentro de mim mesma, eu viajo dentro de um ônibus, eu viajo nas paisagens de Salvador. Eu viajo, Eu vejo ainda o que não há mais para ver. Eu tenho dejavu ou então uma visão pressentida do futuro. Eu penso muito no futuro, fico divagando se vou conseguir tudo o que desejo. Minha cabeça vai até um mundo cósmico-místico inexistente e volta para o trânsito travado de Salvador. Em menos de uma hora!

Estou passando pela Av. Garibaldi, uma avenida mais perto da UFBA e com isso tento calar meus pensamentos, tento pensar em outra coisa, como por exemplo no absurdo de ter uma aula de Latim às 7h da manhã de uma segunda feira. Tenho que sair desse torpor de ônibus. Tenho que andar ligeiro, até chegar à universidade, tenho que fugir de ladrão. Ou dos meus pensamentos?

Desço e adentro esse ambiente onde sempre quis estar. Tem árvores, a brisa é agradável e o céu está azul. Vamos lá para mais um dia! Sem pensar muito nessas coisas paralisantes que compõem a vida, a incerteza e o futuro. Deixa essas coisas chatas para o "buzu", para o engarrafamento. Ainda bem que não sou eu a motorista, pois poderia até causar um acidente com meus pensamentos que me fazem fazer voltas continentais e transcendentais. 



Rafaela Valverde

domingo, 4 de setembro de 2016

Feliz por nada - Martha Medeiros

Imagem da internet
Geralmente, quando uma pessoa exclama Estou tão feliz!, é porque engatou um novo amor, conseguiu uma promoção, ganhou uma bolsa de estudos, perdeu os quilos que precisava ou algo do tipo. Há sempre um porquê. Eu costumo torcer para que essa felicidade dure um bom tempo, mas sei que as novidades envelhecem e que não é seguro se sentir feliz apenas por atingimento de metas. Muito melhor é ser feliz por nada. [...] Feliz por estar com as dívidas pagas. Feliz porque alguém o elogiou.

Feliz porque existe uma perspectiva de viagem daqui a alguns meses. Feliz porque você não magoou ninguém hoje. Feliz porque daqui a pouco será hora de dormir e não há lugar no mundo mais acolhedor do que sua cama. Esquece. Mesmo sendo motivos prosaicos, isso ainda é ser feliz por muito.

Feliz por nada, nada mesmo? Talvez passe pela total despreocupação com essa busca. Essa tal de felicidade inferniza.“Faça isso, faça aquilo”. A troco? Quem garante que todos chegam lá pelo mesmo caminho?

Particularmente, gosto de quem tem compromisso com a alegria, que procura relativizar as chatices diárias e se concentrar no que importa pra valer, e assim alivia o seu cotidiano e não atormenta o dos outros. Mas não estando alegre, é possível ser feliz também. Não estando “realizado”, também. Estando triste, felicíssimo igual. Porque felicidade é calma. Consciência. É ter talento para aturar o inevitável, é tirar algum proveito do imprevisto, é ficar debochadamente assombrado consigo próprio: como é que eu me meti nessa, como é que foi acontecer comigo? Pois é, são os efeitos colaterais de se estar vivo.

Benditos os que conseguem se deixar em paz. Os que não se cobram por não terem cumprido suas resoluções, que não se culpam por terem falhado, não se torturam por terem sido contraditórios, não se punem por não terem sido perfeitos. Apenas fazem o melhor que podem. Se é para ser mestre em alguma coisa, então que sejamos mestres em nos libertar da patrulha do pensamento. De querer se adequar à sociedade e ao mesmo tempo ser livre.

Adequação e liberdade simultaneamente? É uma senhora ambição. Demanda a energia de uma usina. Para que se consumir tanto? A vida não é um questionário de Proust. Você não precisa ter que responder ao mundo quais são suas qualidades, sua cor preferida, seu prato favorito, que bicho seria. Que mania de se autoconhecer. Chega de se autoconhecer. Você é o que é, um imperfeito bem-intencionado e que muda de opinião sem a menor culpa.

Ser feliz por nada talvez seja isso.






Rafaela Valverde


sábado, 3 de setembro de 2016

Das vantagens de ser bobo - Clarice Lispector

Imagem da internet
O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando." 

Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia. 

O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski. 

Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu. 

Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?" 

Bobo não reclama. Em compensação, como exclama! 

Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz. 

O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem. 

Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas! 

Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.





Rafaela Valverde

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