sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Olhos que sabem


Seus olhos
Meus olhos
Ah, os olhos
Eles olham e veem
Eles sabem, eles sentem
Os olhos são a janela da alma, não são?
Sim, dizem por aí
Que os olhos mostram a alma
O que há por dentro do coração
Eu acho que é verdade
Por que os olhos quando se fecham
Fica tudo escuro por dentro e por fora
A gente não vê quem é a pessoa
A pessoa que é dona dos dos olhos
Portanto eu acho
Que seus olhos
E meus olhos
Sabem muito bem o que olham e veem
Sabem muito bem o que estão fazendo
Eles podem ser transparentes
Mas podem ser sombra
Podem se fechar e abrir nas horas
Em que mais lhe convir.




Rafaela Valverde




Avec Elegance - Martha Medeiros

Gente eu amo Martha Medeiros!






Hoje a maioria das pessoas que têm acesso à informação sabe que é peruíce usar uma blusa de paetês às duas da tarde e que é deselegante comparecer a um casamento sem gravata. Costanza Pascolato, Gloria Kalil e Claudia Matarazzo são alguns dos jornalistas especializados em ajudar os outros a não cometerem gafes na hora de se vestir ou de se portar à mesa. Mas existe uma coisa difícil de ser ensinada e que, talvez por isso, esteja cada vez mais rara: a elegância do comportamento.

É um dom que vai muito além do uso correto dos talheres e que abrange bem mais do que dizer um simples obrigado diante de uma gentileza. É a elegância que nos acompanha da primeira hora da manhã até a hora de dormir e que se manifesta nas situações mais prosaicas, quando não há festa alguma nem fotógrafos por perto. É uma elegância desobrigada.

É possível detectá-la nas pessoas que elogiam mais do que criticam. Nas pessoas que escutam mais do que falam. E quando falam, passam longe da fofoca, das pequenas maldades ampliadas no boca a boca.

É possível detectá-la nas pessoas que não usam um tom superior de voz ao se dirigir à empregadas domésticas, garçons ou frentistas. Nas pessoas que evitam assuntos constrangedores porque não sentem prazer em humilhar os outros. É possível detectá-la em pessoas pontuais.

Elegante é quem demonstra interesse por assuntos que desconhece, é quem dá um presente sem data de aniversário por perto, é quem cumpre o que promete e, ao receber uma ligação, não recomenda à secretária que pergunte antes quem está falando e só depois manda dizer se está ou não está.

Oferecer flores é sempre elegante. É elegante não ficar espaçoso demais. É elegante não mudar seu estilo apenas para se adaptar ao de outro. É muito elegante não falar de dinheiro em bate-papos informais. É elegante retribuir carinho e solidariedade.

Sobrenome, jóias e nariz empinado não substituem a elegância do gesto. Não há livro que ensine alguém a ter uma visão generosa do mundo, a estar nele de uma forma não arrogante. Pode-se tentar capturar esta delicadeza natural através da observação, mas tentar imitá-la é improdutivo.


A saída é desenvolver em si mesmo a arte de conviver, que independe de status social: é só pedir licencinha para o nosso lado brucutu, que acha que “com amigo não tem que ter estas frescuras”. Se os amigos não merecem uma certa cordialidade, os inimigos é que não irão um dia desfrutá-la. Educação enferruja por falta de uso. E, detalhe: não é frescura.







Rafaela Valverde

Presidente de mesa pela terceira vez


Serei presidente de mesa mais uma vez esse ano. Claro que a contragosto. Em 2014, nas eleições presidenciais e para governador eu já saí de lá em clima de despedida e agora tenho que ir trabalhar o dia todo sem remuneração. Apesar de ter escrito em um formulário entregue pelos coordenadores e ter escrito em um documento importante da votação, a ata, que não queria trabalhar de novo, eles me convocaram.

Eu acho isso um despotismo e só me resta realmente e infelizmente cumprir essa determinação idiota. E quando acabar vou pessoalmente ao TRE para que retirem meu nome desse suplício. Enfim, em um país bagunçado como é o Brasil, já é um acinte a gente ser obrigado a votar, imagine ser obrigado a trabalhar de graça nas eleições. Um horror.

Agora estou fazendo esse treinamento chato, on line. Eu sou presidente pela terceira vez, mas como há alguns eleitores  com cadastro de biometria esse ano, é necessário fazê- lo novamente. O treinamento é quase uma lavagem cerebral: "estar lá sendo escravo do governo é um ato de cidadania." Tudo é um ato de cidadania. Ah  que porre. Eu gostava de ser mesária, em 2010 quando fui a primeira vez, fui voluntária. Mas cansa, satura. E eu não quero mais. Mas não temos vontade própria nesse país e isso me deixa muito chateada.





Rafaela Valverde

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Ser tradicional é tão ruim assim?


Passei anos fugindo do tradicional. Não quis cerimônia e festa de casamento, quando juntei os trapos. Nunca tive esse sonho, nunca tive o sonho de ser mãe. Mesmo depois de uns anos casada, eu pensei em engravidar somente por influência de uma amiga que havia tido filho recentemente. Nunca fui "Amélia", sempre trabalhei e estudei. Exigia as divisões das tarefas domésticas, sempre fui uma mulher diferente. Aquela que  não queria ser normal, tradicional. Não queria fazer o mesmo que os outros faziam.

Troquei de faculdade e de curso três vezes antes de conseguir finalmente ir para a UFBA. Enquanto tinha um relacionamento, ele, em um determinado momento, foi aberto. Depois que meu relacionamento e meu casamento terminaram, eu tive literalmente uma vida de solteira. Curti bastante. Nunca fui, portanto, uma mulher tradicional, com valores tradicionais e puritanos, muito pelo contrário, sempre fiz questão de seguir o oposto.

Mas ei que eu venho percebendo que quero ser meio tradicional. Eu explico: para começo de conversa eu estou em um relacionamento sério, o que eu achava há seis meses que não queria e que não iria acontecer; me enquadrei de novo nas regras de um relacionamento e não me arrependo, não sinto falta da vida solitária que eu levava quando estava solteira. E por fim, fico olhando ex colegas de escola ou de faculdade que casaram, têm filhos, cachorro... Fico olhando essas famílias tradicionais, constituídas com um casamento formal,  "no papel" como a gente costuma dizer; com filhinhos, bichinhos, casas bonitas, lares estruturados e meio que me dá uma inveja.

Eu não sei muito bem explicar o que eu sinto e por quê. Mas eu fico querendo ter essa vidinha pacata, com problemas pra resolver e fraldas para trocar ( essa parte é só licença poética, tá?) É claro que eu não desejo ter filhos. Não agora, mas sei que posso mudar de ideia. Sei que já tive uma vidinha pacata de gente casada, que é boa, viu? Mas que não deu mais certo e o que não dá certo deve ser consertado ou acabar. Sei que há uma tendência atual de rejeitar essa tradicionalidade, de rejeitar essa vidinha- família- classe média-shopping.

Mas eu sei também que sou taurina. Os taurinos gostam de estabilidade, de um porto seguro. Os taurinos geralmente curtem família. E se, querer uma "famíliazinha" minha, construída por mim, é o "normal", é isso mesmo que eu quero. Com cachorro e gato, com frutas e Fast Food, com filmes e carnaval. Com tudo que eu tiver direito. Essas pessoas com cônjuge/companheiros, filhos e bichinhos de estimação devem sentir um orgulho danado da família que expõem no Facebook, eu teria!





Rafaela Valverde

Me desprendendo ao som dos pássaros

Biblioteca Central da UFBA - Ondina
Quando eu saio dos prendedores de concreto da UFBA e ando ao ar livre fico cega com a claridade natural, a luz do dia - e não a luz seca das lâmpadas fluorescentes. Fico meio surda com o canto dos pássaros. Sim, lá tem pássaros. E sim, é possível sentir paz na UFBA. Me desprendo quando vou ao ar livre. Saio da dureza do prédio com ar condicionado e cores cinzas.

Mesmo cega, consigo dançar ao som dos pássaros. Não estou tão surda assim, consigo enxergar a beleza da cena e escuto muito bem a melodia. É um momento curto até o novo concreto: a biblioteca. Assim, preciso aproveitar a música. São cantos diferentes, de pássaros diferentes. Mas os cantos combinam, as músicas se casam. Assim como eu e esse ar livre. Um ar não viciado pelo mofo e pelo condicionamento artificial.

Me sinto mais relaxada e até levanto o rosto para sentir o calor do mormaço e a luz na cara, mas ainda assim, não tem jeito, acontece o que eu temia, acabou minha alegria. Cheguei na biblioteca, outro prendedor, mais concreto, mais cinza, mais artificialidade. Estamos fadados a viver em prendedores. A viver em prédios sufocantes. Estamos condenados a perder o canto dos pássaros.

Mas eu, faço questão de aproveitar esses pequenos momentos de transição entre um prédio e outro. Isso é felicidade, isso relaxa. Esses são os momentos de banho de sol em plena cadeia de detenção média em que vivemos.


Rafaela Valverde

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Filme Aquarius


Aquarius já chegou causando. Em maio a equipe protestou no Festival de Cannes contra o impeachment da ex-presidente Dilma Roussef. O filme dirigido por Kléber Mendonça Filho concorria à Palma de Ouro e exatamente um mês depois da fatídica votação sobre o processo de impedimento, dia dezessete de maio, os atores e o diretor seguraram cartazes na entrada do evento denunciando o golpe. A cena do protesto pega o público do tapete vermelho de surpresa e com certeza vale a pena ser vista.

Alguns, contagiados com a paixão política juraram boicotar, outros, porém caíram no marketing do protesto e foram curiosos ver o filme que estreou no último dia primeiro. Estreou modestamente, não tem levantado números estrondosos. Mas os números pouco importam. Números passam, mas a riqueza da obra vai ficar para a posteridade, apesar do golpe.

Clara, vivida magnificamente por Sônia Braga, é a protagonista de Aquarius. Uma jornalista de 65 anos, aposentada e que vive na Avenida Boa Viagem em Recife. Frequenta a praia da Boa Viagem e tem um amigo salva-vidas. Seu edifício, Aquarius fica de frente para a praia. Ali, Clara criou seus filhos. É no Aquarius onde ela ainda vive e é onde o filme começa nos anos oitenta – época de ditadura no país – na festa de aniversário da tia Lúcia. Clara está com os cabelos bem curtos, se recupera de um câncer, seu marido ainda é vivo e seus filhos pequenos.

A música Toda menina Baiana de Gil faz a transição dos setenta anos de tia Lúcia para os dias de hoje. Clara ainda ouve essa música, ela mora no mesmo apartamento e ouve muitas músicas. Ela vive cercada por discos e livros, ela dança sozinha e tira cochilos vespertinos. Sua vida é tranquila no Aquarius.

‘O cabelo de Clara’ é como se chama a primeira parte do filme. Um cabelo preto, grande e volumoso, tão volumoso que precisa de duas presilhas para prendê-lo. É um sinal de abastança em contradição com o momento inicial onde ela aparecia quase careca. Já que foi escasso outrora, por causa da doença, o cabelo agora “se vinga” da escassez e é por si só um símbolo de resistência, força e beleza. Força e beleza essas demonstradas ao longo de todo o filme, mas destacadas nessa primeira parte. Mergulhos na praia mostram uma mulher em forma e sua força é retratada a todo o momento, inclusive quando ela se despe e a cicatriz da mastectomia fica evidente. É um pouco chocante para os telespectadores e dá a sensação de que essa mulher é realmente resistente.

Sônia Braga está no melhor momento de sua carreira. Nesse filme ela pode mostrar sua atuação crua. Praticamente só ela e a câmera, e mesmo quando contracena com os outros atores ela se destaca.  Os seus olhares se casam com as câmeras, com as cenas e muitas vezes nem precisa de falas.  Não há sexualidade implícita, não há pipa no telhado e nudez sensual; não há maquiagem e roupas chiques e provocantes. Há apenas uma mulher elegante, com roupas confortáveis. Uma mulher da classe média alta de Recife. É quase uma mulher normal. Claro, se não fosse Sônia Braga.

A primeira parte do filme traz ainda a relação de Clara com Ladjane, sua empregada. Ladjane às vezes a chama de você e elas convivem bem, tendo algumas vezes o que parece ser uma relação de camaradagem e cumplicidade. Mas Ladjane não deixa de ser empregada doméstica e essa é uma separação que fica clara ao longo do filme. 

Algumas questões são discutidas ou simplesmente mostradas como meras casualidades da vida: relação patroa e empregada, desigualdade social, amizade, sexo na terceira idade, entre outros assuntos. Em uma entrevista, Clara privilegia um LP em sua fala. Esse LP tem uma história do seu antigo dono e ela fala que ele “é como se fosse uma mensagem na garrafa.” Mas a frase que sai em destaque na capa do jornal é “Eu gosto de MP3.” Esse fato demonstra distorções da imprensa e distorções do que é importante. Uma mensagem poética, uma história, uma memória se perde em detrimento da ideia da tecnologia, do uso efêmero de um MP3. E é isso que Clara quer evitar, que memórias se percam, que histórias sejam esquecidas.

Outro assunto é a relação entre patroa e empregada que pode até ser de cumplicidade, mas fica claro que Clara já teve outra empregada, sem rosto e quase sem nome, que roubou sua família e no fundo ela sabe que não deve confiar totalmente em Ladjane. Mas ainda assim vai à sua casa comemorar seu aniversário. Festa na laje, na parte pobre da cidade como ela mesma afirma. Nesse momento a câmera do diretor – que às vezes pode ter mais a dizer do que os diálogos e tramas fílmicos – se afasta e mostra o contraste da laje em meio a prédios chiques ao fundo. 

A segunda parte do filme se intitula ‘O amor de Clara’ mas poderia ser os amores de Clara. Assim como toda a trama, essa parte é um misto de cores e acontecimentos. O sobrinho, a quem ela afirma lamentar não ser mãe, as amigas, a música, os filhos, o apartamento... São muitos os amores de Clara. O apartamento é carregado de amor e de lembranças. Desde o início, desde os tempos de tia Lúcia, um móvel de madeira antiga, um tipo de aparador está naquele apartamento. Ele não é só um móvel, ele é um objeto repleto de amor e digamos também de lascívia... A câmera que o diga, ela encara o objeto algumas vezes. Ele é de madeira forte que resiste ao tempo, assim como Clara que decide que não vai vender o seu apartamento.

Ela recebe a visita de empresários da construção civil. Uma empresa famosa e familiar. Um neto formado em business no exterior, seja lá o que isso seja. Apesar dos sorrisos e da simpatia, ela diz não. E continua dizendo não. É claro que nessa altura, nós telespectadores já temos quase certeza que uma hora ela vai ceder. Ela precisa ceder, afinal de contas os outros apartamentos estão vazios, não dá para uma mulher morar sozinha num prédio ermo, sem estrutura e sem segurança. Além disso, existem as outras pessoas, as pessoas que compraram o empreendimento inexistente, “na planta”, os pais de família que estão dependendo da obra para trabalhar e os demais envolvidos, como os donos da construtora. É muita pressão, Clara é abordada na praia por um dos interessados e a mensagem que é passada é que logo ela cederá. Ela é uma pessoa boa, não pode ser tão egoísta, não é mesmo?

Em um mundo dominado por homens que estão acostumados com a obediência feminina, é um avilte uma mulher, logo uma mulher resistir e continuar onde ela não deveria estar mais. Ela é má e louca, ela é egoísta e ela tem que sair! Semelhanças com a realidade atual brasileira à parte, não dá para enxergar Clara dessa forma, não há como não simpatizar com ela de cara. Suas tiradas engraçadas, algumas vezes até artificiais, fazem ou deveriam fazer pensar um pouco mais em nós mesmos, em não abrir mão da nossa história de vida, de quem nós somos por causa de outrem. Essa história de bem comum social soa tão hipócrita. Nesse caso havia pessoas precisando de emprego ou precisando dos apartamentos para morar, mas havia também a padronização das cidades, com prédios enormes e modernos, “urbanização e progresso” traz enormes edifícios cobrindo a praia e produzindo lucros para empreiteiros que constroem essas contemporâneas cidades cinzas e iguais, se tornando ricos, muito ricos. 

Acontecimentos estranhos passam a ocorrer no Aquarius. Festa e luxúria na madrugada; colchões queimados e cultos evangélicos. Até chegar o momento do confronto cara a cara entre Clara e o “neto business.” A trama principal do filme gira em torno desse conflito, um conflito tão pacífico quanto violento, uma violência simbólica. E esse não seria o único conflito.

Nem esses fatos fazem a destemida mulher desistir do seu espaço, da sua história. Ela enfrenta tudo de uma forma elegante. Até demais na verdade. Há quem já parta logo para o barraco. Mas Clara não há de ser uma heroína, não é esse o ponto. O ponto é que ela é uma mulher normal, como cada uma de nós, brasileiras. Heroínas que vão à praia, ao supermercado e cuidam de filhos e netos. Clara fica. E é ali que tem que ficar. Todo mundo está contra sua decisão, até seus filhos, mas ela vai ficar. Agora não há mais dúvidas. Seus filhos se reúnem e pedem que ela saia, que venda o apartamento, mas ela não quer e está irredutível. Não vai simplesmente se desfazer da sua história, cair no esquecimento. Ela quer ser imortal, assim como os livros que escreveu. E por falar em filhos e em livros, a cena mais emocionante – meus olhos encheram de lágrimas – foi a cena em que durante uma briga com sua filha, interpretada por Maeve Jinkings, Clara é acusada de ter abandonado os filhos por dois anos para morar no exterior e escrever um livro. O filho mais velho se levanta em silêncio, pega o referido livro e lá está o nome dos três na dedicatória. “Pelo tempo de lazer roubado...” Se não há falhas em minha memória caquética é essa a frase.

A terceira e última parte do filme é denominada “O câncer de Clara”. A parte que tem a intenção da resolução, tudo se reúne em volta de um desfecho. Um desfecho que ainda não se sabe qual. Releitura do cotidiano, Aquarius é tipicamente um filme brasileiro. Lento, quase parado, com diálogos densos e que começa a ficar meio cansativo nesse momento. O espectador já não sabe mais o que pensar sobre o final, mas ainda assim ainda está curioso. A trilha sonora ajuda bastante a acompanhar o filme todo,  aliás, já que é linda e animada. Curiosamente, porém, uma coisa destrutiva e genuína leva Clara a mais um conflito, o conflito final.  Aquele em que ela categoricamente afirma que não quer mais ter câncer e sim que os outros tenham câncer.  A cena final é subjetiva, característica típica de filme brasileiro. O espectador faz o final, em sua mente, em sua imaginação. Por que o que importa mesmo é o decorrer da trama, a fruição que ela proporciona e não somente um final. Um final é só um fim. E essa expectativa por ele só faz as pessoas temerem spoilers. Esse é Aquarius. Não só um edifício. Não só algo que remeta à Era de Aquário e não só um prédio quadrado e fechado que faça alusão à casa artificial de peixes que estão ali isolados, e privados da vida cá fora, vivendo em seu próprio mundo. O nosso Aquarius é recheado de peixes coloridos e diversificados, que estão em contato com o mundo aqui fora, mas querem preservar seu mundo particular e suas antigas memórias do mar.





Rafaela Valverde




Livro Lua de Mel - James Patterson


Lua de Mel de James Patterson foi um presente do meu queridíssimo e fofo namorado. Eu simplesmente amei esse livro, desde o início não consegui desgrudar dele. O livro é bem escrito e a narrativa alterna entre personagens diferentes. Há a presença do autor heterodiegético e autodiegético. E isso dá uma maior dinâmica à narração e aos acontecimentos do livro que é alucinante, parece aqueles filmes de ação, sabe?

Pois é, o livro é muito bom. Ficou passando na minha cabeça como se fosse um filme e eu fiquei até pensando em formas de roteirizá-lo. Coisas de gente doida que acha que pode ser roteirista, mas enfim... O livro traz a história de Nora Sinclair, bonita, sensual, inteligente... Uma designer de interiores que sabe se divertir. Para isso ela usa os homens e usar é a palavra mais certa para Nora.

Ela é perigosa apesar da cara de santa, apesar da beleza que enfeitiça, ela é má. E prefere os ricos, com muito dinheiro nas ilhas Cayman. Mas às vezes eu achei que Nora era muito burra ou realmente muito crente na impunidade, já que ela não tomava muitos cuidados aos cometer seus crimes, ela nem despistava e às vezes vacilava. Por que não existe crime perfeito.

Mas o detetive John O'Hara chega para tentar desmascarar Nora. O que ele não sabe exatamente é que ela não tem limite e pode fazer muitas coisas para se safar. Ainda assim não existe crime perfeito e o detetive que se intitula "durão" vai fazer poucas e boas para desvendar essa mistério, provar as maldades de Nora e coloca-la na cadeia.

Rafaela Valverde

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A menina das telas


Estou sem as minhas telas. Meu celular e meu tablet deram pau ao mesmo tempo e ambos já estão no conserto. Mas eu cheguei a conclusão que sou a menina das telas. Gosto sim de estar cercada por telas. Nem eu sabia disso. Mas quero as telas que eu possa ter e que o dinheiro (o pouco que eu tenho) possa me oferecer.

Eu sinto falta do meu celular o tempo todo e até fiquei meio jururu. Primeiro pelo prejuízo, especialmente quandro os dois quebraram ao mesmo tempo e segundo por que sinto falta dele, simplesmente. Estou carente. Fico procurando. Às vezes vou me deitar e procuro o celular para dar uma última olhadinha no Facebook antes de dormir. E já acordo pensando em pegar meu celular. Ele despertava para eu acordar e era a primeira coisa que eu fazia ao acordar era tocar nele, é claro. E depois ligava o wifi.

Não sei até que ponto isso é prejudicial ou não, mas hoje estamos mais que inseridos nesse mundo das telas. Eu adoro tablet. Tablet é uma coisa mágica, parece até do capeta! rsrsrs É sério, eu fazia quase tudo pelo tablet. Acessava meu e-mail, internet em geral, via minhas séries e filmes; lia textos da faculdade - é uma mão na roda e foi por isso que eu comprei - lia livros, etc, etc, etc. Foi o segundo tablet que eu tive e esse foi com meu dinheiro, sabe? O outro foi presente. E eu adoro tablet mesmo.

Eu até pensei em comprar um kindle que é um leitor de livros on line ou PDF da Amazon. Mas apesar da qualidade comprovada, da boa leitura que oferece eu prefiro mesmo um tablet que até mesmo tira foto. Enfim, parece que não tenho muita sorte com esses aparelhos, pois quebram. Sempre quebram. Eles não gostam de mim. Meu notebook quebrou há uns anos, já foi consertado e quebrou de novo.

Eu não gosto muito de consertar aparelhos, sou mais de ir lá e comprar outro. Se tiver grana, é claro. Como não tenho, não estou tendo, então fico sem mesmo. Eu adoro comprar celular. Estava pensando nisso essa semana. Sim, eu adoro comprar celular. Aquela sensação de tirar da caixa, ver o aparelho novinho, aprender a usar... é gostoso. E consumista! Eu sei, mas ainda assim se eu pudesse eu comprava um celular por ano. É isso, sou a menina das telas.



Rafaela Valverde

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Pensamentos obscuros


Sabe quando a gente sai caminhando até o ponto de ônibus e de repente vem pensamentos suicidas? Como seria se eu me jogasse debaixo de um carro? Seria rápido? E essa passarela? Será que dá para morrer caindo de cima dela? E se algum bandido viesse me assaltar e eu reagisse, seria que eu morreria?

Acredito que em algum momento esses pensamentos passam pela cabeça de muitas pessoas. Se não passam vocês me avisam pois daí saberei que estou ficando muito louca e destrutiva. Mas às vezes me pego pensando em coisas do tipo mesmo. Como essas tragédias afetariam a vida da minha família e o funcionamento da cidade.

Eu não estou ficando maluca e nem estou pensando em me matar. São apenas pensamentos obscuros que às vezes rondam minha mente. Como será a sensação de morrer? Como será o momento do último suspiro? Será que realmente passa o famoso filme na cabeça? Bom, ninguém sabe até que o dia chega, mas aí não dá para contar. Já morreu. Como ouvimos por aí, "há muito mais entre o céu e aterra do que a nossa vã filosofia pode supor." 

Do momento derradeiro só saberemos na hora em que chega nossa hora. Mas enquanto isso resta imaginar e querer que esse momento fique bem longe, porque afinal ninguém quer morrer, não é mesmo? Então, deixa meus pensamentos bem guardadinhos aqui para quando eu tiver andando para ir para o ponto de ônibus.



Rafaela Valverde

Livro Santo dia de Lilian Fontes


Terminei de ler o livro Santo dia de Lilian Fontes. Ela é arquiteta e mestra em literatura, mas eu nunca tinha ouvido falar nela e nem nesse livro. Eu o comprei em uma feira de livros em um shopping daqui de Salvador. Ele me custou cinco reais. Comprei em julho e demorei para ler. Me surpreendi com esse livro, achei o bom.

Um livro bem escrito, uma trama instigante e interessante, apesar de poucos os personagens são envolventes. O personagem principal, Joca, acusado de um assassinato bárbaro de uma americana nem aparece. Outras pessoas falam sobre ele, traçando seu perfil e informando a nós leitores que ele pode muito bem matar, ele é capaz disso. Mas nós leitores, ficamos na dúvida sobre isso. Joca é bom ou ruim? Matou ou não matou?

É uma pergunta que não tem resposta, pelo menos não da minha parte. Hahaha! Comprei o livro, não dava nada, mas me surpreendi bastante. A história passa no ano de 1998 quando o Brasil ainda entrava na era da internet e só pessoas muito ricas tinham acesso à tecnologia. Então palavras como disquete, Palm Toch, fax e outras são bastante presentes no livro, mas hoje a gente nem usa mais esses equipamentos! É bom se deparar com essa volta no tempo e olhe que nem tem tanto tempo assim e tudo era tão diferente.

O livro tece várias críticas ao Brasil. À justiça brasileira, a polícia e a sua incompetência. A vida nos morros, a pobreza e a desigualdade social também são retratados como crítica. A polícia e a justiça do Brasil são comparados com a polícia e ajustiça americana quase o tempo todo nos diálogos do livro. Eu não me lembro de já ter lido um livro onde houvesse tantas críticas assim a esse sistema brasileiro. Gostei bastante disso.




Rafaela Valverde

domingo, 18 de setembro de 2016

No meio do caminho - Carlos Drummond de Andrade


No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.



Rafaela Valverde

Vida breve


Quando um acontecimento trágico e repentino como o que nos acometeu essa semana com a morte do ator Domingos Montagner se realiza, nos damos conta do quanto a vida é efêmera e frágil. E vem a necessidade de viver mais, de viver plenamente. Vem a confirmação do fim, vem a proximidade da morte que geralmente está distante de nós. Ou a gente acha que está.

A gente pensa: "saímos de casa e não sabemos se voltamos." Bate um desespero, um desalento em saber que sempre vamos perder para a morte, para o fim, especialmente se ela for repentina e trágica. Alguém é tomado da vida de forma não natural. Somos tomados da vida. A qualquer momentos podemos ser tomados e simplesmente deixar de existir.

Nossos familiares vão sofrer, nós vamos sofrer com um desprendimento tão repentino da matéria. Enquanto aconteceu com outrem, porém a gente fica menos consternado, mas ainda assim abalado com a falta de garantias que temos em viver. Não sabemos quando vamos desaparecer desse mundo. É incerto. Será doença? Será acidente? Não dá para saber e é esse o maior medo, antes do medo de morrer, vem o medo da  maneira que será morte.

Por ser uma tragédia de outra família, acabamos respirando um pouco mais aliviados e nos convencemos de que devemos aproveitar a vida e todos os momentos bons que ela nos proporciona. Não podemos esquecer a beleza da vida. Portanto o que eu sempre disse e ainda costumo dizer é: aproveite a vida, ela pode acabar a qualquer momento. Se arrisque, se jogue, viva, chore, sofra, sorria, só não peque pelo vácuo e pela ausência de vida. Porque ela, ela não pertence totalmente a você. Ela pode simplesmente lhe ser tirada em um pequeno momento de lazer.



Rafaela Valverde




Se pra você tamanho importa você está fazendo sexo errado!


Estou lendo nesse exato momento um artigo qualquer sobre o nude de Paulo Zulu que "vazou" essa semana. Não vi a foto e sinceramente não me interessa. A nudez por si só não significa nada. Nudez tem que vir junto com encantamento, admiração, paixão, lascívia e tesão. Por isso nunca entendi as Playboy e G Magazine da vida.

A partir desse artigo que já terminei de ler e que discute o tamanho do pênis, o incômodo que as mulheres sentem com os 'Kid Bengalas' e as encucações masculinas, comecei a pensar em tudo isso e em tudo que ouço desde sempre sobre o assunto. Junto com as reflexões vem heranças das minhas próprias experiências.

Algumas mulheres que conheço afirmam veementemente que tamanho importa sim. Mas eu creio que elas não saibam exatamente o que significa sexo e o que significa gozar com língua e dedos. Em geral são mulheres mais velhas (as que eu ouvi falar sobre o assunto) que transam de forma conservadora e até mesmo sem graça, achando que sexo é só um pau, uma boceta e meter, meter e meter.

Sim, eu estou criticando essas mulheres e o sexo que elas fazem. Sim, não é necessário um pau e grande para fazer uma mulher gozar e gozar gostoso. Sexo envolve uma química corporal tão grande, um calor e  uma troca que até mesmo o ato de se esfregar no outro já traz um prazer indescritivelmente delicioso. Sexo envolve uma aura tão quente de luxúria que não é possível conceber incômodo, dor e sofrimento por causa de um pênis excessivamente grande.

Nós mulheres temos um canal vaginal elástico, por onde saem os bebês. Sim! Essa é uma verdade, mas não tão elástico que caiba um pepino desengonçado e tirado a britadeira. Sim, porque quanto maior, mas os "omi" acham que têm que ser britadeiras e querem meter por toda a vida. Não há mulher que ache isso bom e as moçoilas que afirmam que não gostam de pau pequeno precisam realmente saber do que estão falando.

Os filmes pornôs atrapalham muito o sexo. Já que os jovens, especialmente os homens acabam vendo muitos vídeos antes de iniciarem a sua vida sexual, eles acabam entendendo que aquele é o padrão de pênis que eles deveriam ter e que é o Kid Bengala que vai satisfazer uma mulher. Lá no pornô, eles até conseguem arrancar uns gemidinhos falsos das atrizes, mas na vida real não é bem assim não.

Pênis muito grande incomoda, machuca. Especialmente se não é bem usado. Se for usado como britadeira é um tiro no pé. A mulher acaba fugindo. Eu fugiria. Eu já fugi! Eu não quero um "instrumentão" batendo no meu útero e nos meus intestinos, eu não preciso disso para ter prazer, minha ideia de sexo vai muito além disso. Prefiro um médio, um normal que saiba o que está fazendo que não use só o pau, que tenha outros mecanismos e que se esforçam para DAR prazer e não apenas meter e meter...





Rafaela Valverde

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Espelho de farmácia


Eu estava me sentindo mal e desci para comprar um remédio para náuseas - não sei como chama - tudo agora tem nome específico, até remédio. Que porre. A farmácia ficava na esquina, a poucos metros de casa. A luz do sol estava me incomodando por isso lembrei de pegar os óculos de sol, o que nunca faço. Aliás o dia estava lindo: céu azul praticamente sem nuvens, constatei assim que fechei o portão do edifício antigo onde me escondia há seis anos.

Um belo domingo de sol e eu de ressaca, que ótimo. Acelerei o passo e em poucos minutos cheguei à farmácia que estava vazia, já que ainda era cedo e todos os meus vizinhos deviam estar na cama, dormindo ou não, e preparando seus festivos e barulhentos almoços de domingo. Comprei o remédio "antiseiláoquê" e me olhei num espelho enorme que havia na parede da farmácia. De quem é essa ideia idiota de pendurar espelhos em farmácia? É para olharmos a nossa aparência quando estivermos em fase terminal?

Continuei ali me refletindo no espelho, olhando minha cara de bêbada quando vi de repente o rosto de uma velhinha pelo espelho. Ela me olhava e sorria mas não mostrava os dentes. Ela era bem velhinha e tinha o cabelo todo branquinho. Ela vestia um casaco vinho grosso de lã e uma calça preta, além de sapatos. Estranhei os trajes em um calor terrível daquele, mas logo encontrei o que poderia ser motivo: havia um tubo em seu nariz descendo pelo pescoço e enfiado por dentro do casaco. Fiquei sem graça e me virei para ela.

Ela estava com uma pequena sacola na mão com o que parecia ser um único remédio. E ficou parada ali até dizer que não era para e continuar sendo sozinha para não ficar como ela, tendo que ir à farmácia no domingo de manhã para comprar um remédio contra prisão de ventre. (Sim, ela disse isso!) Olhei para ela interrogativamente e ela apontou para meu rosto, me virei rapidamente e olhei minhas olheiras. Eu estava desde a quinta feira na farra. A minha cara estava uma desgraça.

"Cara de quem é sozinha, minha filha. E de quem se sente sozinha." Ela deu um sorriso e foi caminhando devagar, quase se arrastando para a saída da farmácia. E eu fiquei lá, estatelada, pensando na vida. Sim, literalmente pensando na vida. Não tinha vó sozinha e doente para me dar esse tipo de conselho, uma delas eu nem conheci e a outra é casada há cinquenta e cinco anos com meu avô. Suspirei e saí ainda avistando a velhinha andando devagar. Queria ajudá-la mas eu estava enjoada e ia para o lado oposto. Simplesmente continuei andando. Cheguei ao meu prédio, abri o portão e subi pensando em tudo que tinha que preparar para o dia seguinte, para uma amarga e solitária segunda feira de verão.




Rafaela Valverde

terça-feira, 13 de setembro de 2016

O que é feminismo?

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O feminismo é um movimento pacífico que luta por igualdade. É político e social e não se trata de uma guerra que objetiva provar a superioridade feminina. Não aguento quando chegam com esse papo de feminazi. Por que o nazismo foi uma ideologia e um sistema político escroto e cruel, não tendo nada a ver com o feminismo. Só posso dizer que essas pessoas – que fazem essa junção pérfida – são bem ignorantes. Pegar uns livros de vez em quando não faz mal, tá bom?

Pois bem, o feminismo começa a dar o ar da graça provavelmente no século XIX. O movimento, como é bom repetir, prega exclusivamente a igualdade entre os gêneros e não a superioridade feminina sobre os homens. Aliás, a igualdade se comprova no momento em que a mulher faz tudo o que o homem faz. Não há distinção, não há fragilidade! Seres humanos. Com sangue nas veias e respirando todos os dias. Feminismo não é o antônimo de machismo. Nada a ver, deixem de close errado minha gente. Tá feio!

Já o machismo, por sua vez, deixa bem claro que as mulheres são inferiores. Está aí a diferença. Um movimento prega a igualdade e o outro deixa bem claro a desigualdade e a inferioridade de um dos gêneros. O machismo faz, nós mulheres, nos sentirmos inferiores todos os dias. Afinal, os homens dominam o mundo desde sempre e as notícias na TV e nosso cotidiano não nos deixam mentir. 

Há muitos anos, na Antiguidade, o patriarcado surgiu e já dava todas as cartas. O homem é que era considerado o “fazedor” exclusivo do herdeiro. A mulher só participava como um solo para receber a sementinha que o homem plantaria. Uma guardadora do tesouro ali depositado pelo homem. Era a sua função única e exclusiva. O homem mandava, inclusive no corpo da mulher que deveria ser resguardado. Afinal, era preciso ter a certeza de que quem havia realmente plantara a sementinha foi o marido. A herança devia ser deixada para o filho legítimo e não para um bastardo.

Aí é que entra uma questão antiga do patriarcado: a mulher sempre sabe que o filho é dela. O homem, bom, nem sempre. E esse é um dos motivos da objetificação, misoginia e domínio que infelizmente permanecem até hoje. Era preciso uma marcação cerrada para que não viesse outro e levasse seu objeto. É claro que a igreja católica ajudou nesse processo, já que a mulher que tivesse liberdade sobre seu corpo e ousasse desobedecer seu marido era uma grande pecadora, mas  não vamos entrar nesse assunto, pois dá muito pano pra manga.

Porém, tanto sofrimento, tanto cerceamento não poderia sair incólume e as mulheres passaram a resistir bravamente a isso. O movimento feminismo avançou ao longo dos anos e traçou novos contornos para nós mulheres. Houve muita luta, muitas mortes, mas alcançamos avanços. Ao contrário do Nazismo que só destruiu e matou, o feminismo trouxe a vida para as mulheres, para nós. Ele não mata ninguém, nunca matou. Quem mata é o machismo. Esse sim é cruel e faz vítimas sem piedade. O machismo não precisa de permissão para existir, ele já está aí, todos os dias, enquanto o feminismo luta para ser aceito e para mostrar que só quer igualdade.

É graças ao movimento feminista que hoje nós votamos, vamos à escola e à universidade – onde inclusive somos maioria. Hoje podemos trabalhar, temos certa liberdade sexual e de expressão, podemos sair sozinhas, usar as roupas que quisermos e fazer alguns serviços antes considerados masculinos. Graças ao feminismo podemos fazer tudo isso.

É claro que ainda precisamos avançar, mas com certeza já estamos levando uma vida melhor do que nossas avós e tataravós. Infelizmente ainda somos discriminadas apenas por ser o que somos. Apesar de poder sair sozinhas e à noite, ainda somos assediadas e discriminadas pelo tamanho das nossas roupas e cor dos nossos lábios. Além disso, é necessário constatar tristemente que governantes do sexo masculino ainda dominam nossos corpos já que não temos total decisão sobre ter filhos ou não. Somos cobradas para ter filhos, para querer ser mãe, não temos a opção do aborto que garante liberdade ao nosso corpo.

Ainda falta muito respeito. Não precisamos nos dar ao respeito, já nascemos com eles. E afinal de contas qual homem tem que ser dar o respeito? Se eles têm respeito por direito desde que nascem, nós também temos que ter! Temos que exigir!  Ainda há muito o que se fazer, mas já temos avanços. Já avançamos muito mas a luta deve continuar. 

Com educação, com luta e com combate à violência de gênero que mata uma mulher a cada  noventa minutos no Brasil, segundo o IPEA, vamos continuar avançando para quem sabe nossas filhas não sejam estupradas há cada  dez minutos  e que tenham uma vida ainda melhor que a nossa. Se não fosse toda essa cadeia de luta eu não teria escrito esse texto e nem vocês leriam, aliás eu nem saberia esse pouco que eu sei hoje, o machismo  e o patriarcado não permitiriam. Por isso, mesmo que não saibam ou não queiram, todas as mulheres são feministas. No momento em que acham um absurdo não poder fazer as mesmas coisas que os homens fazem, no momento em que estudam, votam, escrevem, se posicionam, já estão sendo feministas.



Rafaela Valverde

O poeta Jorge de Lima

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Jorge de Lima foi um escritor alagoano nascido em 23 de abril (data do meu aniversário) do ano de 1893 e morto no ano de 1953. Estou estudando esse escritor na disciplina Literatura Comparada, uma optativa da UFBA. Jorge de Lima foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor e pintor brasileiro. Foi um modernista que se inspirou na cultura brasileira, no regionalismo, na poesia religiosa para escrever sua obra.

O poeta havia se consagrado em versos alexandrinos e conseguia variar ritmos, formas e etc, deixando sua obra vasta e dinâmica. Ele estava sempre interessado em intertextos e utilizava eventualmente esse recurso. Jorge de Lima começou a estudar medicina em Salvador, mas o concluiu no Rio de Janeiro. Mas foi de volta a Maceió que ele passou a exercer a literatura e a política. Era amigo de Murilo Mendes, Graciliano Ramos e José Lins do Rego, que se promoviam encontros de intelectuais.

Publicou  o romance A mulher Obscura em 1939 e anos depois veio O Livro de Sonetos. Teve sua candidatura para a Academia Brasileira de Letras negada várias vezes. Jorge de Lima negava a sociedade laica que pregava a morte de Deus. Ele tinha uma ligação forte com a religião, especialmente com o catolicismo e sua obra estava ligada diretamente a isso. Alguns críticos indicam que a "falta de fama" do poeta se deva a essa ligação com o místico, mas o místico cristão que trazia um pouco de regionalismo, barroco e inspiração dos contextos da época, como por exemplo a guerra.

Do pouco que li do poeta, o considero um bom poeta, apesar de não ser ligada em temas religiosos. Mas ele fala sobre o amor, tem em sua mente uma mulher amada e idealizada; que morre ou não. Há influências de Camões. Enfim, há uma riqueza em Jorge de Lima. Conheçam!



Rafaela Valverde

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Passo de tartaruga não!

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Eu tenho andado quieta, distraída, preocupada e tensa. O que tenho que fazer para que a única coisa que ainda falta se resolver na minha vida, se resolva logo? Eu tinha problemas de auto estima, minha aparência não me agradava, eu tive problemas com universidade e cursos de graduação e eu tive problemas sentimentais e quase entrei em depressão, eu tive e continuo tendo problemas financeiros.

Porém meus problemas de auto estima se resolveram e hoje eu me acho bonita, eu consigo me amar, não uso mais óculos e amo meus cachos. Eu também decidi que quero estudar literatura - minha grande paixão da vida toda - e que quero ser professora. Além de ter conseguido entrar na UFBA, que era o que eu sempre quis. E eu resolvi meus problemas sentimentais, superei um amor do passado e encontrei outro amor, alguém que me aceita, me respeita e me merece. Mas os problemas financeiros continuam.

Nunca tive uma vida financeira tranquila e folgada. Nunca achei nada fácil e de graça. Fui trabalhas aos dezesseis anos para ter minhas coisas e minha independência financeira. Não durou muito e daí eu já sabia que teria uma vida profissional complicada. Desde então foi assim mesmo. O maior tempo que fiquei em um trabalho foi um ano e oito meses, claro que por culpa minha também. Sempre fiquei na faixa de quem ganha um salário mínimo e só. Quase sempre dependi de alguém ou de ajuda para me sustentar. Nunca tive um bom salário, um bom emprego. Parece que isso não é para mim. 

Então eu estava pensando: já que muitas coisas mudaram para melhor na minha vida, como por exemplo minha auto estima e problemas de decidir minha área de formação, por que então a minha vida financeira e profissional não pode ser resolvida de vez? Qual a dificuldade de apenas um único pedacinho da minha vida se resolver para ela ser tranquila? Eu já orei, fiz promessa, estudo que nem uma louca, fiz concursos e cursos, eu busco, eu vou atrás... Mas nada acontece na área profissional e financeira da minha vida. Por que? O que falta? O que falta eu aprender? Só falta isso para minha vida se ajeitar. Depois de estabilidade financeira e profissional eu serei uma adulta realizada. E sei que ralo para isso e tenho potencial. Isso ninguém muda, o que eu sou, ou que eu sei... 

Eu sei também que a vida não é fácil e que é aos poucos que as coisas vão mudando e se ajeitando. Nenhuma dessas minhas conquistas acima: entrar na UFBA, melhorar minha auto estima, ou encontrar um novo amor veio de forma fácil. Nada vem fácil, mas também não precisa vir em passos de tartaruga não. Eu tenho gostado muito da minha vida, eu tenho estado satisfeita, mas ainda não cheguei no patamar financeiro que preciso para poder realizar meus sonhos materiais. Eu espero que isso também venha. E que venha logo. Daí minha felicidade estará completa!


Rafaela Valverde

domingo, 11 de setembro de 2016

Presságio - Fernando Pessoa

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O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P'ra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...




Rafaela Valverde

Incertezas financeiras

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Num domingo em que a data cheira a tragédia, estar de pé já lucro. A minha maior tragédia porém são meus problemas financeiros. Durmo e acordo pensando neles. Eles têm me atormentado de uma forma alucinante ultimamente. Além da crise econômica que está instalada em todas as nossas vidas, temos a crise política e o clima de instabilidade que deixa as nossas vidas caóticas.

Muitas incertezas atingem a vida dos brasileiros nesse momento e a minha não está de fora não é mesmo? A gente dorme catando moedas e acorda  pensando em soluções para driblar a crise, como trabalhar em casa, como vender coisas e dar aulas de reforço escolar. A gente precisa pelo menos sobreviver em meio a esse turbilhão.

Daí vem desemprego, bolsa atrasada, aparelhos eletrônicos que quebram do nada, contas que aumentam o valor a cada mês, despesas surpresas que vão surgindo e muitas vezes não resolvem o problema... Vem tudo ao mesmo tempo e a gente pensa que não vai conseguir lidar, nem raciocinar, nem resolver nada. Os problemas se aglutinam e nos devoram, nos sufocam.

Dívidas nem tanto, são mais compromissos mensais que assumi quando ainda tinha emprego. E agora tenho que saber viver e cumprir os compromissos com a minha bolsa da UFBA que é de 400,00 e ainda hoje dia 11 e não saiu. É um momento de incertezas. Temos que cumprir as obrigações da pesquisa e esperar o dia em que a "crise" permitir depositarem a grande fortuna dos bolsistas.

Tenho dúvidas do futuro, muitas dúvidas. Não posso deixar de dormir sem pensar o que será da minha vida na semana seguinte, no dia seguinte. Se terei transporte para sair, para ir à faculdade. Se conseguirei cumprir com meus compromissos. Essas dúvidas me dão muita aflição e preocupação e eu não consigo sossegar, vivo só de esperar.




Rafaela Valverde

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Trânsitos cotidianos de vida

Resultado de imagem para pensando no ônibus
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Estou no ônibus mergulhada em pensamentos, são seis e trinta da manhã e o trânsito já está caótico em Salvador. Estou passando pelo Dique do Tororó. Observo aquele mundaréu de água verde e tento imaginar se é muito fundo e o que pode ter naquele fundo. Tento entender o que há no fundo da minha alma também. Daí desisto já que não terei êxito e decido acompanhar o fluxo pesado do trânsito.

Um homem atravessa a via correndo e eu fico pensando em como ele é maluco, "será que não tem medo de ser atropelado?" Com isso entro em mais devaneios, divago sobre o ambiente, sobre como deveria ser aquela área no século passado e fico tentando imaginar a vida das pessoas que ali estão se exercitando.

Eu viajo dentro de mim mesma, eu viajo dentro de um ônibus, eu viajo nas paisagens de Salvador. Eu viajo, Eu vejo ainda o que não há mais para ver. Eu tenho dejavu ou então uma visão pressentida do futuro. Eu penso muito no futuro, fico divagando se vou conseguir tudo o que desejo. Minha cabeça vai até um mundo cósmico-místico inexistente e volta para o trânsito travado de Salvador. Em menos de uma hora!

Estou passando pela Av. Garibaldi, uma avenida mais perto da UFBA e com isso tento calar meus pensamentos, tento pensar em outra coisa, como por exemplo no absurdo de ter uma aula de Latim às 7h da manhã de uma segunda feira. Tenho que sair desse torpor de ônibus. Tenho que andar ligeiro, até chegar à universidade, tenho que fugir de ladrão. Ou dos meus pensamentos?

Desço e adentro esse ambiente onde sempre quis estar. Tem árvores, a brisa é agradável e o céu está azul. Vamos lá para mais um dia! Sem pensar muito nessas coisas paralisantes que compõem a vida, a incerteza e o futuro. Deixa essas coisas chatas para o "buzu", para o engarrafamento. Ainda bem que não sou eu a motorista, pois poderia até causar um acidente com meus pensamentos que me fazem fazer voltas continentais e transcendentais. 



Rafaela Valverde

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Nós ♥

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E então você me deixa sorrindo feito boba. Mesmo quando você não está por perto eu sorrio. E eu fico achando que tudo é maravilhoso, pronto que fiquei abobalhada! Pronto que agora vou ficar achando que tudo é lindo e maravilhoso. E é! Você está por perto e se está, então fica tudo certo. Fico olhando seus olhos, seus lábios  e essas pintinhas que você tem no corpo. É tudo tão sexy! Me excita tanto e me encanta.

Você com esse jeito meigo parece um menino que a gente quer proteger e eu que já nem sou protetora, nem tenho esse jeitão de mãe, abro um sorriso e te coloco no colo e te faço cafuné. Eu adoro fazer cafuné em você. Seu cabelo é macio, gosto de sentir meus dedos roçando nos fios sedosos e engraçados. E sei que você gosta. Eu gosto, quem não gosta? Você sabia que eu sinto prazer em fazer carinho? Que eu me sinto feliz em fazer carinho em você?

Daí você me olha com um olhar de pidão e eu sorrio. Baixo a cabeça. Não sei se sou capaz de manter contato visual sem me derreter ou sem querer  novamente te atacar, te beijar, acariciar seu braço que se arrepia quando eu toco. Como não querer acarinhar uma pessoa que pede com o olhar e com o corpo? É impossível não tocar em você, é impossível não beijar seu pescoço e não cheirar seu cabelo. Ver você se arrepiar com meu toque é único.

Temos uma conexão química e física que eu achei que não ia mais encontrar tão cedo. Os olhares se complementam, os corpos também. As ideias se parecem, mesmo que discordemos às vezes. Como você diz: "a gente se encaixa". E como encaixa, encaixa em todos os sentidos. Temos parceira, cumplicidade e intimidade. Quando andamos lado a lado, de mãos dadas, eu me sinto orgulhosa em ter você ao meu lado. Nos conhecemos há um tempo e nos reencontramos, nos combinamos, nos desejamos e somos bons juntos, que dupla! Tenho certeza que não foi à toa que nos reencontramos. A mão de Deus está nisso, assim como em toda a transformação da minha vida antes de você. Mas com certeza, você e esse seu jeitinho lindo são os maiores responsáveis pela transformação daqui em diante. Então se prepare para se arrepiar muitas vezes ainda! Obrigada por me fazer sorrir e me fazer achar que tudo é lindo e maravilhoso.



Rafaela Valverde

Voto nulo 2016

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Esse ano eu não vou votar em ninguém. Não sei, talvez vote em uma candidata a vereadora que realmente defende, abriga e trabalha pelos animais há anos e não é uma oportunista como muitos por aí. Pois bem, mas ainda assim não decidi se vou votar em alguém. Estou pensando em anular meu voto pela primeira vez. Fiz meu título há mais de dez anos e sempre fiz questão de votar, mas dessa vez é diferente. Estou desesperançada. E quem não está?

A democracia brasileira foi ferida. Não, eu não sou de esquerda, nem de direita. Eu não me rotulo. Eu só defendo a justiça e a democracia. E acho que qualquer pessoa de bom senso deveria defender. Eu acho sim que o governo de Dilma foi um desastre, principalmente nos aspectos político e econômico. O país foi lançado em uma crise que antes havia sido uma "marolinha". Enfim, tenho muitas críticas ao governo, mas acho que assim como diversos outros governos estaduais, municipais e até federais, com seus erros e acertos, chegaram ao fim. Por que só o governo de uma presidenta, uma mulher chega ao fim mesmo sem crime de responsabilidade fiscal? Mesmo sem nenhum crime?

Eu ainda não havia me pronunciado sobre esse assunto aqui, mas é esse o meu posicionamento. Me lembrei de escrever sobre política porque sempre de manhã estou ouvindo o horário político na rádio no caminho da faculdade. Faço questão de ouvir os dez minutos do horário eleitoral gratuito. Sim, gosto de saber como estão as campanhas, quais são as promessas e as mentiras que estão sendo contadas. Sim, porque é isso que eu ouço. Mentiras e ataques aos opositores. Será que não é possível fazer campanhas políticas sem baixaria? Sem atacar o outro? Isso me incomoda bastante e diminui mais ainda a minha vontade de votar.

O da TV eu não vejo, por que em geral não vejo TV, mas sei que é bem bizarro também. E sinceramente, não me interessa! Eu escuto o da rádio porque como vocês já sabem sou ouvinte fã da rádio Metrópole já saio de casa com o fone de ouvido e como são só dez minutos eu escuto para ver o que está ruim, bom ou péssimo;;; Ouço para criticar mesmo. E só consigo sentir que estou sendo enganada. Eu que sou tão desconfiada, como pude confiar em político algum dia na minha vida?

Que me desculpe quem faz campanha, segue, admira ou trabalha com candidatos, mas eles, em sua maioria, não me representam. Há candidato para a prefeitura de Salvador que diz que vai "conversar biblicamente com traficantes para acabar a violência", cara, que idiotia é em que estamos mergulhados? A candidata colocada em segundo lugar repete algumas das mesmas promessas do prefeito quando se elegeu há quatro anos e o prefeito que pleiteia reeleição nem cumpriu algumas dessas promessas... Me poupem! Eu não acredito mais em vocês!





Rafaela Valverde
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domingo, 4 de setembro de 2016

Feliz por nada - Martha Medeiros

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Geralmente, quando uma pessoa exclama Estou tão feliz!, é porque engatou um novo amor, conseguiu uma promoção, ganhou uma bolsa de estudos, perdeu os quilos que precisava ou algo do tipo. Há sempre um porquê. Eu costumo torcer para que essa felicidade dure um bom tempo, mas sei que as novidades envelhecem e que não é seguro se sentir feliz apenas por atingimento de metas. Muito melhor é ser feliz por nada. [...] Feliz por estar com as dívidas pagas. Feliz porque alguém o elogiou.

Feliz porque existe uma perspectiva de viagem daqui a alguns meses. Feliz porque você não magoou ninguém hoje. Feliz porque daqui a pouco será hora de dormir e não há lugar no mundo mais acolhedor do que sua cama. Esquece. Mesmo sendo motivos prosaicos, isso ainda é ser feliz por muito.

Feliz por nada, nada mesmo? Talvez passe pela total despreocupação com essa busca. Essa tal de felicidade inferniza.“Faça isso, faça aquilo”. A troco? Quem garante que todos chegam lá pelo mesmo caminho?

Particularmente, gosto de quem tem compromisso com a alegria, que procura relativizar as chatices diárias e se concentrar no que importa pra valer, e assim alivia o seu cotidiano e não atormenta o dos outros. Mas não estando alegre, é possível ser feliz também. Não estando “realizado”, também. Estando triste, felicíssimo igual. Porque felicidade é calma. Consciência. É ter talento para aturar o inevitável, é tirar algum proveito do imprevisto, é ficar debochadamente assombrado consigo próprio: como é que eu me meti nessa, como é que foi acontecer comigo? Pois é, são os efeitos colaterais de se estar vivo.

Benditos os que conseguem se deixar em paz. Os que não se cobram por não terem cumprido suas resoluções, que não se culpam por terem falhado, não se torturam por terem sido contraditórios, não se punem por não terem sido perfeitos. Apenas fazem o melhor que podem. Se é para ser mestre em alguma coisa, então que sejamos mestres em nos libertar da patrulha do pensamento. De querer se adequar à sociedade e ao mesmo tempo ser livre.

Adequação e liberdade simultaneamente? É uma senhora ambição. Demanda a energia de uma usina. Para que se consumir tanto? A vida não é um questionário de Proust. Você não precisa ter que responder ao mundo quais são suas qualidades, sua cor preferida, seu prato favorito, que bicho seria. Que mania de se autoconhecer. Chega de se autoconhecer. Você é o que é, um imperfeito bem-intencionado e que muda de opinião sem a menor culpa.

Ser feliz por nada talvez seja isso.






Rafaela Valverde


Livro P.S. Eu te amo

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Terminei agorinha de ler o livro P.S Eu te amo que é o primeiro romance da irlandesa Cecelia Ahern. Eu já tinha visto o filme, mas ele nem chega perto do livro e sua intensidade. O livro foi lançado em 2004. O livro traz uma das personagens mais fortes e intensas que eu tive a oportunidade de conhecer nos últimos tempos: Holly.

Holly e Gerry se conheciam e namoravam desde a adolescência e ficaram casados por sete anos, mas após algumas dores de cabeça, Gerry é diagnosticado com um tumor no cérebro e mesmo depois de cirurgias e radioterapia ele morre. Morre e deixa Holly que vivia em função dele sozinha. Sozinha e devastada. Com o coração cheio de amor e a mente cheia de inconformismo diante da perda do homem que amou a vida toda.

O amor dos dois foi muito intenso. Gerry não quer deixá-la desamparada, sozinha. Ele sabe o quanto ela vai sofrer, então ele acha que precisa fazer alguma coisa para que ela não sofra tanto. Eles haviam discutido algumas vezes sobre uma lista de afazeres que ele faria para Holly. Ainda assim, não imaginava que a lista de tarefas viria após a sua morte.

Mas ele faz a lista. Próximo ao seu aniversário de 30 anos e após a morte do marido, Holly recebe uma encomenda. Uma lista com dez cartas que devem ser lidas pelos próximos dez meses, uma em cada mês. Assim ela o faz. Em meio aos seus dias depressivos e amargurados, Holly encontra um norteador para sua vida e também algo que a ligue ao marido, a presença dele.

Em cada carta há uma instrução que ela segue obedientemente e algumas dessas instruções a fazem perder alguns medos e lutar diante da falta de vontade de levantar da cama e da falta de vontade de viver sem Gerry. Eu me identifiquei com Holly, primeiro por que ela tem trinta anos, não se formou, não tem emprego e é insegura com a vida e com o futuro. Ela é sensível e gentil como eu, além de ter uma personalidade forte. Além disso a descrição dela para o seu sofrimento pela morte do marido é bem parecida com a dor que eu passei recentemente pela "morte" do meu. Claro que foram mortes diferentes, no meu caso foi o fim de um relacionamento traumático mas que me fez perder a vontade de viver, sentir uma dor física, uma vontade de chorar o tempo todo... A gente, eu e Holly chegamos ao fundo do poço, mas conseguimos emergir. Claro que a morte é muito mais dolorosa, mas eu me identifiquei com muitas coisas que ela sentiu. Enfim, eu amei o livro! De verdade. É um livro até meio clichê em algumas partes mas bem escrito e em muitas páginas bastante engraçado, me arrancou muitas gargalhadas. Recomendo!



Rafaela Valverde

sábado, 3 de setembro de 2016

Das vantagens de ser bobo - Clarice Lispector

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O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando." 

Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia. 

O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski. 

Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu. 

Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?" 

Bobo não reclama. Em compensação, como exclama! 

Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz. 

O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem. 

Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas! 

Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.





Rafaela Valverde

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