quarta-feira, 3 de junho de 2020

re-fazer, re-talhar e re-construir, apesar do machismo


Esse foi mais um post que me fez pensar esses dias. Bem, esse já é um assunto sobre o qual penso e escrevo há anos. O machismo é tão nocivo, mas tão nocivo, que afeta todo mundo. Mulheres, homens, pessoas idosas, crianças. Claro que o machismo está relacionado à misoginia, então é óbvio que é direcionado às mulheres e nós somos as maiores e  mais mortais vítimas.

Mas desde cedo ensinam aos homens – e nisso as mulheres têm muita responsabilidade e urgência em desconstruir –  a serem machistas. Eu queria tentar mais com meu sobrinho, mas como eu disse, é meu sobrinho e não filho, e não mora perto. Mas sempre que eu puder  estar com ele e com os pais, vou tentar destruir tudo o que já sei que está começando a ser implantado na cabecinha dele. Porque eu já ouvi. E é desde bebê que esses estereótipos e padrões de comportamento começam a ser esparramados na cabeça das crianças. E viram crenças. Criança é criança e acredita no que os adultos falam, claro. E aquilo fica tão entranhado na mente, que depois é muito difícil desconstruir. Desabar esses conceitos ultrapassados e machistas é fundamental  para que a novas gerações – homens e mulheres – sofram um pouco menos. A vida já é dura demais.

Olha, eu levei anos acreditando na minha feiura. Na feiura dos meus traços, do meu corpo e principalmente do meu cabelo.  " Pra ficar bonita tem que sofrer." Era a frase que ouvia constantemente de minha mãe,  principalmente quando ela ia me fazer passar por aquelas horas de tortura disfarçada de alisamento. Aquilo ficou anos entranhado na minha mente. Depois me dei conta que eu não precisava sofrer porra nenhuma porque eu já era bonita, sim! Por que fazem isso com a gente? É tão cruel! Crianças, gente... Agora, imaginem um menino e depois um rapaz, ouvindo todos os dias que não pode vestir roupa rosa, não pode chorar, não pode demonstrar sentimentos, não pode ser sensível, não pode beijar a abraçar seus amigos.

Ao homem nunca é permitido falhar, chorar ou estar em ambientes ditos "femininos" ou realizar atividades "femininas". Uau, o homem é um ser tão superior que não pode fazer "mulherices". E aí que está o cerne da questão (Porra, cerne, falei bonito!) Sim, porque se um homem passa a vida sendo reprimido, humilhado, impedido de fazer o que quer que pareça estranhamente feminino e ao mesmo tempo é ensinado que é superior às mulheres, imagina que merda vai dar isso. E dá. Sempre dá. Buga a cabeça de qualquer ser humano.  E como que se reage a isso? Hoje as coisas estão mudando um pouco e os homens estão conseguindo se afastar um pouco desses conceitos que tão cruelmente foram colocados em suas cabeças, mas não tanto. Ainda é pouco. Queremos mais!

Sim, e como se reage ou se reagia a isso? Com agressividade, com violência simbólica e psicológica, com todo tipo de selvageria possível. Inclusive ciúme, posse, reclamar de roupa e saidinha da mulher com as amigas não é amor e sim fruto desse comportamento que de tão entranhado é considerado normal e até fofinho no início. No início. Eu nunca achei isso fofinho. Lembro de certa vez em que aconselhei uma ex-amiga sobre o namorado: "assassinatos de mulheres começam com os namorados impedindo que ela faça alguma coisa e ela aceitando." Ela achou um absurdo e disse que eu era exagerada. Problema dela.

Mas qual é a origem dessas violências? Eu não sou psicóloga, até tentei por dois semestres, mas não é a minha praia não. Não sou psicóloga mas como é possível perceber de forma clara, essas coisas começam na infância. Um menino pode e deve chorar, um menino pode e deve ser sensível e expressar seus sentimentos.. Porra, ele é um ser humano! Um ser humano ser impedido de chorar e colocar para fora suas dores, que são muitas, é uma puta maldade. A dor de existir, tão conhecida pelos psicanalistas, bate forte demais na maioria dos dias claros das nossas vidas e das nossas mentes. Então, que tipo de ser, que tipo de fortaleza ambulante, em forma de homem, pode ser tão forte e poderoso a ponto de segurar tudo isso sozinho, calado e sem fraquejar? Acho que nenhum. 

Reprimir sentimentos é perigoso demais. E falo por mim mesma. Não é normal e nem saudável viver sob a sombra do machismo a vida toda. E ainda ter que re-agir a serviço do machismo. Não estou aqui retirando a responsabilidade do homem sobre seus atos, pelo contrário, quem conhece meus posicionamentos sabe que sou bastante dura com os homens.  Eles são adultos. O que quero dizer é o que o post acima já confirma: o machismo usa e causa sofrimento. E não, não estou caindo num abstracionismo idiota. Não. O machismo não existe sozinho. Ele precisa de PESSOAS para  crescer e se multiplicar. E em geral, nós, pessoas, damos muito espaço para ele e deixamos ele dominar nossas vidas, geração após geração.

Acredito que o ponto principal é a educação. EDUCAÇÃO. Dos homens. Dos homens sim, Mas, com especial cuidado, das mulheres. Sim, porque são das bocas das nossas mães que a gente ouve as melhores e as piores coisas da vida. Sutilmente. Porque também está arraigado nas mentes delas. Educação é para crianças? Sim, fundamentalmente. Mas nunca é tarde para a gente se destruir e construir de novo. Se fazer e refazer são as piores e as melhores coisas que podemos fazer por nós  mesmos, por quem convive com a gente e com a sociedade.  Sim, porque o que não podemos esquecer, mas esquecemos constantemente, é que a sociedade não é só feita dos outros. Ela é feita de nós. É  muito fácil apontar o erro dos outros e não se observar.

O silencio, o auto conhecimento, se cercar de bons conteúdos e pessoas nesse sentido, são essenciais para se re-talhar todos os dias. É trabalho de formiguinha. Vocês acham que eu tenho esses posicionamentos desde sempre? Puta que pariu, eu às vezes sinto muita vergonha do meu facebook de anos atrás. É todo dia uma desconstrução diferente. Em breve falo mais sobre esse meu processo. Mas o que estou querendo dizer é que eu também já falei e fiz coisas machistas. Já reproduzi comportamentos com outras mulheres, que hoje jamais ousaria fazer. Não por medo de ser recriminada, mas porque entendi – finalmente – que não sou inimiga de outras mulheres. Apesar de ter escutado isso a vida toda. 

"Mulher casada não recebe 'amiga' dentro de casa." Minha mãe falava sempre isso. Meu pai nem sempre conseguia segurar o pinto dentro das calças – eles acham que eu não sei, mas eu sei e sei muito mais – e ela quem saiu prejudicada, porque minha mãe não tem amigas, não tem hábito de receber amigas e nem de ir à casa delas. Sair? Acho que ela nem sabe mais o que é isso. Será que valeu a pena abrir mão de boas amizades, de boas companhias femininas por causa de um casamento idiota e falido? Não, né! E pior que casou de novo. Sob a égide da religião. Oh Deus, nos salve dessas religiões!

Não sou inimiga de outras mulheres e nem me coloco nesse lugar. Não sou inimiga dos homens e muito menos odeio eles. Pelo contrário, eles são umas delícias! O que eu faço é combater agressiva e ferozmente o machismos que eles, coitados, aprenderam a seguir desde cedo. Eu tenho um pouco de dó. Deles e de nós. Mais deles, porque nós já acordamos há muito tempo. Saímos na frente dos homens no que diz respeito às destruições de nossos conceitos e pré-conceitos. Talvez seja justamente por não estarmos cegas pelo -ismo que  aprisiona o substantivo macho e que faz macho seguir o -ismo,é que nós mulheres tenhamos mais clareza acerca dessas coisas. E sim, acredito que nós podemos e precisamos agir diferente e enfrentar o machismo a partir do homem. Não podemos, não queremos e não vamos ser babás de homem, mas porque não olhar a questão de outra forma e segurar a mão deles?

Pinto grande ou pequeno, carro, moto, sucesso, beleza, músculos, padrão, controle de emoções e de lágrimas, não poder falar nunca, ser sempre o fodão, comandar, sair para trabalhar, pagar a conta... Essas são algumas das coisas que cobramos e queremos dos homens. E sim, me incluo também, apesar de não pensar assim. E não penso mesmo. Uma das coisas que mais me assustou e enojou, foi certa vez ouvir minha mãe falando com uma amiga sobre "homens de rola pequena".  (E mulheres falam muito sobre isso) E essas foram  exatamente as palavras. Tem que ser grande, só assim satisfaz, é o que dizem... Será mesmo? Coitadas. Não sabem o que é sexo. Então, como os homens não vão taxar a gente, padronizar a gente, se é só que nós – e faço questão de me incluir – fazemos? 




Rafaela Valverde

terça-feira, 2 de junho de 2020

Blogueirinha Fit

Cara inchada de sono, cabelo amassado, porém plena!

Agora foi que me tornei blogueirinha fit mesmo, aff. Decidi começar a partir de hoje, uma série de textos sobre minha trajetória na academia, meu gosto por musculação, emagrecimento e mudança na alimentação. No dia sete de maio de 2019 eu decidi pela terceira vez na vida, entrar na academia. Eu sabia que odiava musculação e academia. Eu sabia que odiava estar em contato com pessoas fitness. Eu me tornei o que eu odiava. Hahahaha. Mas ainda assim tentei e fui tentando e tomei gosto.

As pessoas vivem se admirando do meu progresso ou mudança, prefiro mudança, porque é preciso problematizar o porquê emagrecer e ter músculos em relação a ser gorda e não ter músculos é progredir. Pronto, problematizada a palavra progredir, já posso continuar a falar sobre a mudança do meu corpo. Segundo as pessoas, a diferença é clara nas fotos. Eu só comecei a ver a diferença com as roupas folgadas. Tenho roupa aqui que não serve mais em mim e nem vou mandar apertar. 

Exercício é muito importante e hoje não sei mais viver sem me exercitar, porém a alimentação é principal e necessária para o progresso que tive. No mesmo mesmo que entrei na academia fiz um procedimento na gengiva que me deixou por mais ou menos quinze dias sem comer nada sólido e em seguida tive uma virose forte. A última que tive. Isso contribuiu muito para o emagrecimento, tendo em vista que continuei frequentando a academia, até onde o corpo permitiu. Então com mais ou menos um mês eu já tinha perdido mais de cinco quilos e isso foi me incentivando. É simples: quanto mais a gente vê os resultados, mais a gente quer. Em algum momento do ano passado eu passei a gostar muito de academia e musculação.  E passei a precisar também. O corpo quer, o corpo pede. É uma delícia.

Nesses dias de isolamento devido ao COVID, estou tentando me virar como posso fazendo alguns exercícios que aprendi na academia e com os materiais que são possíveis aqui como livros e quilos de alimentos. Tenho conseguido manter a rotina de exercícios e o corpitcho em forma, apesar da pochetinha aumentando porque estou em casa parada comendo que nem um crocodilo ensandecido. Mas tento comer o mais saudável possível.

A alimentação é mais determinante na perda de peso e ganho de massa muscular, do que a musculação em si. Diria que um complementa o outro. E a gente só ganha músculos se tiver uma alimentação adequada. A base da minha alimentação hoje é frango, batata doce,  azeite, ovos, folhas e vegetais. feijão fradinho (como dos outros também, mas como mais o fradinho) e banana.  São esses alguns dos alimentos que ajudam no ganho da massa corporal e na saciedade. E não é caro melhorar a alimentação. Pelo contrário. Mas quero deixar claro que como de tudo, com moderação e reduzindo besteiras o máximo possível. Tirei farinha, refrigerante e pão.

Nos próximos textos vou falar um pouco da minha rotina de alimentação e treinos desde o início até hoje em meio ao isolamento. Dentro de casa é mais difícil e sei que não vou avançar muito ou quase nada, apenas manter o que já consegui. Estou comendo mais besteiras e bebendo mais. Em casa não dá para correr, por exemplo. Ah, como eu sinto falta da academia. Me faz muito bem e por incrível que pareça eu aprendi a amar musculação e com os resultados no meu corpo e o bem estar que causa, gosto mais ainda. Bem é isso. Nos próximos textos contarei tudo o que aprendi ao longo desse ano e como faço meus treinos em casa, etc.



Rafaela Valverde

o aliviante sentir de não sentir amor por você

Se sentindo sozinho? O que você pode fazer para não se sentir assim

Vejo você em uma foto
E não sinto nada
Um frescor de sensação que me deixa satisfeita
De um sentimento que me sufocava e hoje é remoto
Sua presença é notícia rarefeita
E em mim não vive mais aquela cômoda ideia que você voltaria
Olho para você de costas e respiro aliviada
Porque não mais precisarei da defesa da infantaria
Que tirava não sei de onde para me defender de você
A boca calada
E a mente a ponto de enlouquecer
Mas agora não é mais assim
Vejo você e não há nada em mim
E dedico esse poema não a ti
Mas à essa nova sensação
A sensação de não mais te amar
Por mais da metade da minha vida para você eu sorri
E você não soube ser recíproco
Arrebentou meu coração
Mais uma vez: coitado.
De minha vida consegui te tirar
E aqui você não volta mais
Mas também não tem troco
Não penso em vingança
Sua falta de reciprocidade devolve
E te apaga da vida de alguém
E que esse sentir de não sentir mais se renove
Todas as vezes que eu for te ver
E que minha escrita comprove
A brisa da sensação de não mais te querer




Rafaela Valverde

domingo, 31 de maio de 2020

fora do padrão - me odeiam e querem que eu me odeie também


Eu sempre vou falar sobre padrões. Sempre vou escrever e problematizar padrões. Porque eu e a maioria das pessoas que conheço e que convivem comigo está fora dos padrões. Então, se a maioria de nós não se encaixa em alguma coisa, o erro está nessa alguma coisa e não na maioria das pessoas. Vi essa postagem esses dias, no perfil de Instagram que aparece na própria imagem e compartilhei. Me fez pensar. Pensar nas porras dos padrões que  me atingem por eu não estar neles, pensar na minha solidão e pensar em como a gente sempre coloca essa armadura de segura, empoderada e cheia de amor próprio, mas no final das contas nosso travesseiro é quem sabe nossas confissões e indignações. A solidão da mulher independente, inteligente, negra – ainda que de pele clara, como eu – e fora dos padrões é uma coisa difícil de ser quebrada. A gente começa o dia se achando feia, com a cara inchada e olho torto, como sempre, e termina se achando razoavelmente bonita. Ou então começa se achando linda, maravilhosa e sem defeitos e de noite tá se achando um bagaço, se odiando e pensando: "por isso ninguém te quer, você é estranha..." ou então: " de que adianta ser tão maravilhosa, escrever poesia, entender de música, de cinema e literatura, de que adianta? pra que malhar, cuidar da alimentação, se amar, passar hidratante no corpo, esfoliar o rosto e lixar o pé? Recebo elogios quase o tempo todo, do meu físico, do meu intelecto, dos meus textos, da quantidade de livros que leio, das minhas tatuagens, das fotos que posto, etc., mas não tenho conseguido acreditar. Faço tudo isso para mim, sim, é claro. É  óbvio e chega a ser clichê ficar repetindo isso toda hora. Todo mundo sabe, porra! Não preciso ficar me auto afirmando e gritando que meu amor próprio é pra mim. Que meu amor próprio é só pra mim. Porque não é. Não é não. Ninguém se cuida só pra si, ninguém se ama só pra si. E quem disser que sim, está mentindo. Claro que a gente quer ser elogiada, quer ser admirada e quer ser escolhida e amada. Claro. Todos nós da raça humana queremos isso.  Mas quando não vem, a gente para de achar que tudo isso faz sentido. A gente até tenta escrever, ler, maratonar séries, ver trinta filmes por semana, mas nem sempre consegue não pensar. Somos esmagadas pelos nossos próprios pensamentos e não conseguimos mais sorrir. Não como antes. Antes a idade era menor, o cabelo maior, existia esperança de uma grande vida. Agora eu até tenho esperança, antes que os otimistas chatos reclamem. Mas minha esperança é que eu consiga estar viva daqui a uma semana ou que eu ainda tenha alguma renda para não morrer de fome ou que eu consiga terminar o dia sem chorar.  São pequenas esperanças de quem não espera mais nada tão grandioso assim. De quem já lavou as mãos e se conformou com a mediocridade,  a humanidade e a insignificância. Pequenas esperanças de quem apenas compreendeu que essas são características próprias de pessoas. Pessoas são medíocres e insignificantes. Todas elas. Todas nós. E aí não adianta mais elogios da amigas e familiares, nada mais convence a gente sabe por quê? Por que a solidão é maior, a falta de quem nos elogie, a falta de alguém para massagear nossos pés feios depois de um dia estressante, a falta, a falta, a falta... Ela se torna maior que qualquer outra coisa. O vazio. É o que encontramos todos os dias enquanto cavamos paredes invisivelmente duras para achar nada. No final das contas, não adianta nada ser uma pessoa incrível. Uma pessoa aparentemente incrível. Por que a gente só é incrível para as pessoas de fora. Porque dentro da gente, já escorreu toda possibilidade de ser alguma coisa que preste. A gente se desqualifica, a gente tenta entender, a gente tenta fazer de um tudo e parece que nada adianta. Aí a dor alivia por alguns dias e depois tudo volta. Volta forte. Como uma bigorna, mas não uma bigorna suficientemente pesada a ponto de esmagar nosso cérebro, não.  Quem dera!  Uma bigorna que machuca, aperta, pressiona e faz a gente gritar. GRITAR! Mas não mata. Aí a gente pensa: "ah, não queria ficar com fulaninho mesmo, ele é isso ou aquilo, a química não bateu." Mas o que a gente não sabe é que não sabe é que não foi a gente que rejeitou, a gente já foi rejeitada. Porque os  fulaninhos que a gente quer nunca querem a gente, aí gente se contenta com quem quer a gente, como diz a música: " só vou gostar de quem gosta de mim..." Mas isso acaba sendo tão forçado. Em troca de deixar de lado paixões platônicas, a gente passa a olhar e "se interessar"  por pessoas por quem talvez não nos interessaríamos, porque quem a gente quer prefere alguém que sempre vai estar no padrão de alguma forma. Se for preta vai ser magra, alisada e sem usar óculos (ah, vocês já sabem meu horror a óculos!), se for gorda vai ser branca. É real. Algum padrão sempre tem que se encaixar para que a pessoa consiga ter alguém ao lado dela. Não é possível, mas é verdade. Aí me pego a pensar onde que eu me encaixo. Porque não entro em nenhum padrão. NENHUM MESMO. E isso me dá a sensação de que vou viver nessa solidão e rejeição a vida toda. Bom, eu não sou branca, nem tenho cabelo liso, nem traços finos, não sou magra – emagreci muito, mudei meu corpo, entrei na academia e perdi quase vinte quilos que já estou começando a recuperar por causa do isolamento – mas ainda assim nunca vou ser realmente magra, eu ainda estou na casa dos 80 quilos. Faz parte da minha constituição física, não ser totalmente magra. Eu uso óculos e agora tenho músculos. Quis e precisei cortar meu cabelo, bem curto. Meu segundo big chop e estou amando ver ele crescendo de novo, mas não ajudou muito no padrão, não é mesmo? Já que mulher precisa ter cabelo comprido para ser feminina. Além disso, tem essa paralisia facial que tirou meu rosto do lugar. Parece que eu recebi todos os castigos de vez. Bem em cima da minha aparência. E foi tão difícil alcançar o nível de auto estima que tenho hoje e desmorona um pouco todo dia. Parece uma parede cujo reboco está caindo pouco a pouco diariamente. Aí eu fico perguntando a Deus. Por quê? Por quê? E por quê?  Por que sempre nos parece que nosso poço é mais fundo, mais escuro e mais inquieto do que o do resto do mundo? E sabe o que a gente passa a fazer? Se odiar um pouco todo dia.  Se eu mudasse isso aqui e tivesse grana para fazer uma lipoaspiração e acabar com esses pneus atrás da minha barriga, eu finalmente poderia ser escolhida. Eu poderia fazer cirurgia de miopia ou me endividar mais ainda e comprar lentes de contato, só para quem sabe ficar mais bonita e ser escolhida. Eu tenho que deixar meu cabelo crescer, ficar bonito, hidratado e definido, não posso colocar dreads, tranças, nem manter ele curto, porque eu quero ser escolhida. Talvez eu não precise ser escolhida, mas quero ser escolhida. Eu tenho que ser magra, alta (aí volto a comprar sapatos de salto que vão foder minha coluna), tenho que ter cabelão, bonito hidratado e natural, eu tenho que largar os óculos, que eu odeio. Odeio óculos e odeio meus olhos também. Aí passo a amaldiçoar minha genética maldita que me faz ser míope e ter cáries frequentes. Aí eu passo a odiar meus dentes também. Olha só! Com o tanto de dinheiro que gasto com esses dentes todo ano, eu poderia usar para comprar mais artifícios para ficar bonita, para ficar aceitável e finalmente, quem sabe um dia ser agraciada por alguém que goste de mim pela pessoa incrível que eu sou. Pela mulher atenta, carinhosa, leal, cuidadosa e boa de cama que sou. Inteligente, o papo flui. Amo falar de politica e poesia. Tenho ódio do que tenho que ter e estou do lado certo da história. Todos esses discursos e militâncias me enchem de empolgação e eu me torno uma mulher forte, crítica e consciente. Mas de que desgraça adianta tudo isso? Se no final das contas sou preterida. Pelos pretos, pelos brancos, pelos politicamente engajados ou não, enfim, pelos que eu quero. Só ficam o resto. Aqueles cujo voto matam e continua matando todos os dias. Eu mereço alguém que não me odeie tanto a ponto de colocar essa tragédia que tá aí no cargo mais alto do país. Vivemos em desgoverno, vivemos tendo que conviver com notícias pavorosas de genocídio da população preta no Brasil e no mundo, vivemos presos em casa por causa de um vírus, estamos adoecendo todos os dias... E nos matando. E quem vai segurar nossa mão? Quem vai estar com a gente em meio a nossa indignação e massagear nossos pés depois de um dia ruim? Ninguém? Temos que enfrentar tudo isso sozinhas? Nós, as castigadas fora do do padrão. Não merecemos ser amadas? As magras sim, as brancas sim, as que foram agraciadas pela natureza com traços finos e olhos perfeitos merecem e a gente não? É isso? E para resumir todo o texto e espero que vocês tenham compreendido a relação que tentei fazer com o post, mesmo que  em um texto sofrido desse. Sim, resumindo: somos incríveis, mas não temos a aparência ideal. Somos feitas para amizade, irmandade ou simplesmente para sermos ignoradas.






Rafaela Valverde
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